A questão do sentido da vida é o sentido da vida é a própria vida concreta. A que vivemos e da qual faz parte também morrer.
O sentido da vida é um livro para aqueles que se atentam, se arriscam e se aventuram verdadeiramente pela vida. Entregue pelo autor poucos dias antes de sua morte, reúne três textos breves, e muito potentes, sobre a obrigação da felicidade, o "morrer bem" e o sentido da vida. Com uma linguagem única, Calligaris transita entre memórias de infância, experiências clínicas e observações sobre arte, história e a Bíblia para abordar temas tão particulares quanto universais. A obra póstuma e inédita de um dos maiores pensadores do país conta ainda com o prefácio do único filho do autor, o cineasta Max Calligaris.
Contardo Calligaris é psicanalista e cronista italiano. Doutor em psicologia clínica pela Universidade de Provence, iniciou seus estudos nas áreas das letras e da filosofia. Em 1975, foi aceito como membro da Escola Freudiana de Paris, onde morou até 1989. Lecionou na Universidade Paris 8 e teve aulas com os filósofos franceses Roland Barthes e Michel Foucault, além de acompanhar os seminários ministrados pelo psicanalista francês Jacques Lacan, uma grande influência em sua formação.
Em 1985, veio ao Brasil para o lançamento de seu primeiro livro de psicanálise, Hipótese sobre o fantasma. Posteriormente, acabou fixando residência no País, onde reside até hoje. Suas reflexões se concentram na condição humana da sociedade marcada pela obrigatoriedade da felicidade, do gozo, da beleza e dos excessos. Estudioso das questões da adolescência, considera esta a etapa da vida que possui uma intensa carga cultural e que se caracteriza como uma das mais potentes fontes de energia da atualidade. A adolescência é um dos seus livros mais lidos e estudados.
Além de atender nos seus consultórios em São Paulo e Nova York, é colunista do caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo, no qual escreve sobre psicanálise e cultura. Publicou mais de dez livros, incluindo dois romances e uma peça teatral. Criou a série de televisão intitulada Psi, exibida no canal a cabo HBO. Foi professor de estudos culturais na New School de Nova York e professor convidado de antropologia médica na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Também faz parte do corpo docente do Institute for the Study of Violence, em Boston.
Contardo Calligaris, em seu trabalho, conduz as pessoas à reflexão sobre a existência humana, contribuindo para amenizar as angústias provocadas pelos desafios contemporâneos e pelo confronto com o outro, que pode limitar os prazeres e contradizer as certezas e seguranças.
O sentido da vida, livro póstumo de Contardo Calligaris, soa quase como um bate papo entre amigos filósofos apesar de ser de voz única, mas se Calligaris não nos dá a impossível resposta de qual é o sentido da vida, ao menos ele nos abre um leque de possibilidades estéticas e éticas sobre o assunto.
Ler Contardo Calligaris e sempre impactante pelos insights e pelo fato de ser uma terapia também. Sao varias as questões abordadas, mas o que me chama muito atenção é a individualidade e a liberdade. O que nos assusta e a liberdade, e o que outro faz da liberdade dele.
“O sentido da vida e a propria vida concreta. A que vivemos e da qual faz parte também morrer.”
Três ensaios bonitos desse homem inspirador. Gostei muito do primeiro e do segundo, do terceiro um pouco menos, mas há trechos grifados que espero que fiquem um pouco mais nas paredes da memória.
Ainda processando algumas coisas desse livro. Apesar de entender o que ele nos convida a refletir, sempre receio que a falta de colocação de um lastro material/histórico deixe a mensagem um pouco... suspensa no ar. Teremos vidas interessantes quando todos nós pudermos ter essa coisa à qual chamamos vida: uma casa, um círculo social confiável, comida, acesso a tudo o que nos permite transitar no mundo com dignidade.
Até que gostei desse livro, ele passa uma sensação de tranquilidade e dívida ao mesmo tempo, isso é um bom livro, me faz passar um tempo refletindo sobre tudo.
Recomendo a todos, esse livro não deve ser esquecido, espero que todos também tenham a mesma sensação que dive, ele mexeu muito comigo, me fez chorar.
Está de parabéns Contardo Calligaris, nunca esquecerei desse livro.
As reflexões desse ensaio são válidas, mas não concordo 100% com o autor na medida em que não vejo que a religião, do ponto de vista que é colocado, de fato seja apenas para dar "tapar buracos" não preenchidos pela vida cotidiana. Achei a reflexão muito superficial pra complexidade do tema. No entanto, alguns bons trechos se destacam, tais quais:
"Não vamos deixar algumas pessoas decidirem nossa vida sob o pretexto de que poderiam decidir nossa morte”.
"Fruir da vida só é possível para quem não se distrai; para quem, ao contrário, mantém um esforço constante de atenção à vida.
"O medo do nosso próprio desejo nos leva a matá-lo nos outros."
Um dos livros mais agradáveis que li até o momento. Digo isso porque a sensação que tive foi a de estar diante do Calligaris com uma boa xícara de café, sendo conduzido numa análise (num divã, talvez?!) conversando com a força da palavra, do verbo, sobre a forma que tenho vivido e me responsabilizado pelo meu compromisso (ou a falta dele) com a vida.
Constituído por três capítulos, o livro me parece um ensaio misturado com análise que o psicanalista e escritor desenvolve a partir da seguinte questão: por que sofremos tanto com a busca de sentido? É possível viver uma vida em que existirão certos "buracos" em nossas estantes de livros e tudo bem?! O autor parte da máxima de que mais do que uma vida plena de sentido, vale mais uma vida interessante.
Eu gosto muito do que o Calligaris escreve; sou leitor das suas colunas da Folha de São Paulo, mas ler esse livro que foi entregue pelo autor à editora um pouco antes de sua morte, foi simbólico. A temática do livro nos convida a vivermos a vida intensamente, inclusive, nos atentando até mesmo para os (des)prazeres que esta coloca diante de nós, como nos momentos de morte, de luto. Encarar a vida como uma possibilidade para valorizarmos tudo o que se desenrola nela é uma dádiva que precisa ser colocada em prática a partir da (re)descoberta. As faltas de certezas não devem nos levar ao sofrimento...
Durante a leitura me lembrei de uma sessão de terapia que vivenciei, e nela ouvi do meu terapeuta algo que ecoou nas páginas escritas por Calligaris: às vezes, um vazio bem definido é melhor do que um espaço mal preenchido. E como é!
"o sentido da vida é a própria vida concreta. A que vivemos e da qual faz parte também morrer."
Os dois primeiros ensaios são ótimos. O terceiro é meio que uma bagunça, com vários temas embolados e digressões. Ler Contardo é sempre maravilhoso porque é inteligente, intelectual, acessível e cheio de ideias incríveis. Mas fiquei com a sensação de que juntaram várias pequenas partes distintas pra construir esses textos que não são muito coesos.
"Fruir da vida só é possível pra quem não se distrai; para quem, ao contrário, mantém um esforço constante de atenção à vida. O esforço, obviamente, não nos garante que a vida nos reserve só coisas boas, mas a primeira coisa boa é a própria atenção às coisas da vida."
Escrevo essa frase profundamente comovido com o livro que concluí essa semana do Contardo Calligaris, “O sentido da vida”. Um livro póstumo e provocador, cujo manuscrito ele entregou pouco antes de morrer e que, felizmente, foi publicado para nós, seus leitores e aprendizes.
O grande argumento do livro refere-se a que a felicidade não depende do mundo ter um sentido no qual a pessoa acredite. Caso a pessoa busque demais o sentido da vida fora dela mesma, num paraíso ou numa utopia política, ela pode se distrair da própria vida acontecendo. Conhecido por suas declarações polêmicas (“Para mim, a felicidade não é algo tão importante na vida” e “em vez de me preocupar com a felicidade e seu mistério, preferia me esforçar para viver uma vida interessante”), Calligaris nos introduz à tese de que existem dois tipos de pessoas: as que dependem de um sentido ou palavra externa (social, política, religiosa) para viverem suas vidas e aqueles que se contentam em fruir da vida o seu máximo, nas suas alegrias e dissabores. Ele credita os psicoterapeutas pertencentes a este pequeno segundo grupo.
Isto se deve na medida que os psicoterapeutas são aqueles que escutam na própria história de seus pacientes as razões mesmas para uma vida bela e bem vivida (e, por que não, feliz?). Não existe um código religioso ou moral - até mesmo científico - que baliza essa escuta sensível, pois é sensível puramente ao desejo e trajetórias de seus pacientes. Buscam entender e valorizar a vida concreta das pessoas que escutam sem recorrer a uma transcendência qualquer. E isso independente das crenças e sentidos pessoais do psicoterapeuta. É por isso que se diz que, numa boa terapia, o profissional deixa sua “identidade” ou “eu” fora da sessão: o texto ou voz que está em jogo ali é daquele que ele escuta.
Calligaris ainda advoga que, frente a uma epidemia de distrações, a maioria delas começando na nossa palma da mão, fica difícil estar presente para viver uma vida que valha a pena. Alguns, inclusive, preferem se distrair da vida ativamente à vivê-la nos seus riscos, navegando por um oceano de fotos e vídeos que estimulam a comparação invejosa ou alimentam sonhos de futuro que nunca se concretizarão nas redes. Outros, como ele narra a experiência de uma pessoa distraída com o celular num velório, se tornam um estorvo àqueles que estão vivendo (mesmo que o pesar da morte). Por fim, Calligaris resgata da palavra hedonismo - esta que é muito moralizada pela abnegação cristã do prazer - seu sentido estético: um projeto de apreciação pleno do viver, um fruir das experiências fugazes da vida que só é acessível se estivermos presentes, prestando atenção à ela como a uma obra de arte que nos cativa.
Texto originalmente escrito na minha página:my link text
eu gostei muito da visão do autor sobre a felicidade, a forma como ele explica seu pensamento é de uma forma que achei muito esclarecedora, eu realmente gostei.
Fiquei muito pensativa quando ele diz que prefere se esforçar para ter uma vida interessante ao invés de se preocupar com a felicidade, acredito que ele demonstra esse pensamento, quando diz que as pessoas deviam viver a sua morte, pois são acontecimentos únicos nas nossas vidas.
O livro também me faz refletir que muitas vezes queremos evitar passar por certos tipos de sofrimento, como o luto, e não percebemos o quanto essas dificuldades vão ser importantes para nós mesmos do futuro, porque se ficarmos o tempo todo tentando nos privar de passar por esses acontecimentos não vamos realmente ter vivido e assim talvez nunca vamos chegar a uma resposta quando alguém nos perguntar "como você está?" Ou então "o que é a felicidade para você?" Por isso, também acho que deveríamos tentar ao máximo ter uma vida interessante
Uma leitura muito instigante e que nos tira da nossa zona de conforto. Nos faz ter que refletir sobre coisas que passam despercebidas, e que tratamos como algo banal. Me peguei pensando bastante para conseguir responder os questionamentos do autor. Será que eu realmente consegui responder?
Uma leitura confortante, que tira um pouco da ansiedade de um futuro feliz e com tantas cobranças. Faz nos pensarmos apenas no que agora e em como aproveitar cada momento como único, pois, realmente é.
Estimula os leitores a olhar por outro ângulo a vida que a massa da sociedade quer levar e ver se ela realmente existe ou se é inventada. Uma crítica sensacional a como vivemos hoje em dia, a procura de uma felicidade inalcançável.
Só li o primeiro capítulo e achei bem legal. O que eu quero ressaltar aqui e o que mais me chamou atenção é a "felicidade dos mortos" que foi citada no capítulo, e a reflexão sobre "uma vida interessante" para o autor. Em geral, mostra como TODAS as experiências que temos ao decorrer da vida são interessantes e que se tirarmos ou nos privarmos de alguma, não estaremos "vivendo".
Eu irei dissertar melhor sobre o capítulo e o livro inteiro em algum momento breve.
3,5. Tem muitas reflexões interessantes. Principalmente quando ele fala que 'ter uma vida interessante é melhor que ter uma vida feliz' ou quando diz que 'se uma pessoa quer muito que algo extraordinário aconteça com ela é porque a vida ordinária dela é um completo tédio'. Algo assim.
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É um livro inteligentíssimo. Apresenta de forma clara e objetiva a importância de ter uma vida interessante, e, ao longo do processo atingir a consonância com a felicidade ao invés de buscá-la incansavelmente.
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quero ler mais coisas do calligaris, fiquei encantada com esses ensaios. “quem precisa viver algo ‘extraordinário’ sempre olhará para a morte com uma certa simpatia”.
“Uma cultura distraída nunca será uma cultura hedonista, porque, simplesmente, nunca será uma cultura disposta a fruir a vida com uma intensidade que valha a pena.”
Qual o sentido da vida? Contardo Calligaris busca responder essa pergunta através de ensaios que misturam psicanálise, filosofia e diálogos internos.
Ele questiona a direita, a esquerda, a fé religiosa e a necessidade de transcendência espiritual. Advoga por uma transcendência pautada na estética, no bom gosto, no que ressoa belamente dentro de cada um de nós. E isso é pessoal, intransferível. Único.
Transcendemos quando encontramos coisas que nos movem, que nos tocam, e então usufruímos e nos entregamos a essas coisas com presença, intensidade, alegria, paixão.
Há em meio a tudo isso uma busca pessoal e ancestral, quando Contardo procura nas palavras de seu falecido e saudoso pai um caminho, uma direção… É emocionante! (Essa busca nas nossas raízes sempre me toca..!)
Uma leitura inteligente, intimista e simpática. Muito bem humorada! Apesar de divergir sobre diversos aspectos, adorei. Ler Contardo é sempre impactante!
“O sentido da vida é a própria vida concreta. A que vivemos e da qual também faz parte morrer”
Leitura fácil e fluida com significados profundos. Um convite para taparmos menos os buracos de nossas angústias e experienciarmos de maneira interessante a vida como a arte, com um fim em si mesma. Descobrirmos nossos valores mais despretensiosamente, rejeitar o vulgar, abraçar o belo. Temer menos a nossa sufocante liberdade e bancar o que há de fato em libertador nela. Não nos deixarmos silenciar, seja por uma transcendência futura ou por por aqueles que reprimem tanto suas liberdades, seus desejos, que encontram na violência o único caminho para sublimar sua energia.
“Os dândis chamam de fineness um certo tipo de elegância que não está só na roupa, mas numa atitude constante; um estilo que talvez seja o oposto da vulgaridade. O estilo é, nas luzes o processo de individuação da vida.”
As comparações entre os valores do homem da antiguidade vs o individualismo do homem moderno talvez funcionem como um gatilho para o início da leitura de filósofos da antiguidade - desejo latente há algum tempo. Acho que venho me incomodando com a valorização do eu acima de tudo, sinto que atualmente não conseguiria abrir mão da minha vida por nada e isso tem me parecido cada vez mais doentio.
Alguns trechos incríveis do livro: Eu preferiria estar vivo quando morrer (p. 34) Calligaris escreveu nos anos 1980 e não publicou sua tese sobre o comportamento totalitário Petrarca no século 14: "un bel morir tutta la vita onora", ou seja, uma morte bonita honra a vida inteira (p. 41) Cita A morte de Sêneca, pintada em 1773 por Jacques-Louis David, que contada por Tácito, o maior historiador romano; e a A morte de Sócrates, de 1787 e também pintada por Jacques-Louis David. A diferença é que até essa época, cerca de duzentos anos atrás, a coletividade era um valor maior que a individualidade. Uma pintura sempre interroga a nossa relação com a transcedência e essa ausência de transcendência está na própria composição, e é nesse momento que surge no pensamento ocidental a questão do que é uma experiência estética. Nesse momento surgem textos sobre isso e essas pinturas apontam a grande relação entre a Antiguidade clássica e o fim do século 18, depois de 17 anos do cristianismo que acabou triunfando (que poderia ter sido totalmente outro) é o momento que ele chama de brecha e sugerindo que a vida se medisse por uma transcendência, seja qual ela fosse (p. 69-70). Quase todo o existencialismo é torturado pela ideia de uma transcendência peridada, de um Deus que nao nos vê, de um Deus que não nos fala. E mesmo assim, nesse período, houve a vitória de grandes religiões exclusivistas e missionárias, que ainda hoje se encaram: o cistianismo e o islã, convencidas que têm que decidir em que os outros acreditarão (p. 70). Para Calligaris, quem sobrou para tentar inventar uma vida na imanência foram os psicoterapeutas, especialistas em buscar entender como valorizar a vida concreta sem precisar de uma transcendência (...) É por isso que a terapia acaba sendo um trabalho quase estético, um trabalho de recriação narrativa de uma vida, que dá atenção a uma vida de tal forma que ela se valoriza (p. 71). Nessa mesma página ele aproveitar para conceituar o boçal, o cara que quer que o outro goze do jeito que ele pensa que é certo, daí também vem o regozijo de quem acredita que sua fé possa preencher o mundo de sentido (p. 85). Os ideias clássicos de viver na imanência se encontram aí, ajudam a desistir de procurar um grande sentido para a vida e podem colocar as pessoas na posição de duvidar da própria fé, a diferença é que alguns vão buscar corrigir essa dúvida nos outros e não em si, é onde nasce a perseguição: "a minha dúvida eu resolvo no outro" (p. 73). "O interesse não está mais no além, não está mais nos prêmios ou nos castigos da eternidade; tampouco somos dirigidos por uma lei que deveria sua autoridade a uma transcendência divina, seja ela qual for" (p. 126). "il tinello" seria uma espécie de studiolo de Calligaris na infância, a sala de jantar transformada em biblioteca do seu pai e a forma de se catalogar aqueles livros e lê-los. Para o autor, Heidegger escreveu um livro maravilhoso que começa com seu melhor texto sobre o que é uma obra de arte (A origem da obra de arte), no sentido em que ela seria a origem da natureza e do mundo, em que todos devemos percorrer com alegria caminhos que não precisam ir a lugar nenhum, e que apenas dão acesso a alguns lugares na floresta (p. 86). Caso do seu pai, que foi uma liderança comunitária - Porque os combatentes italianos da resistência antifascista tinham uma confiança muito limitada na volta da democracia e, em grandíssima parte, não devolveram as armas até o fim dos anos 1950 (p. 92) Ufanismo - o fanfarrão é covarde na ação e braulhento na bazófia (p. 97). "vulgaridade" do fascismo - A base do dissenso do grupo totalitário é não achar graça. Havia um pedido constante de cumplicicdade que de fato emana de qualquer grupo totalitário (p. 107). Suspeito que meu pai enxergasse no fascismo uma vulgaridade mais primária: o tipo de feiura que não exige explicação porque ela aparece numa espécie de juízo estétitco imediato: "E era esse o escândalo para mim. Por um juízo estético (que me parecia pouca coisa), ele tinha se engajado numa luta arriscada, para ele e para os seus." Sobretudo naqueles anos, ams também depois, Calligaris estava acostumado a pensar que o que movimenta uma vida são os juízos éticos, não os juízos estéticos. Algo como Kierkegaard diz: "meu amigo, não tem outras alternativas, ou vida estética ou vida ética" (p. 108). Mas há porque separá-las? O próprio Kierkegaard achava essa escolha bem complexa, que estava ligada à dualidade: ou você vive pelos seus princípios ou você vive à procura de sensações agradáveis. Dá para comparar? Aí aparece o dele e diz que arriscou a vida não porque o fascismo contradizia seus princípios , mas porque o fascismo era "vulgar" (p. 109). Temos o pai, alguém que escolheu a vida estética e assim agia por razões estéticas, mesmo na hora de decisões importantes, como na hora de pegar em armas para combater o fascismo. Fez escolhas radicais a partir de uma apreciação estética. Ou seja, levava a apreciação estética muito a sério, talvez mais a sério do que um "grande princípio", do qual, aliás, ele desconfiaria por estar provavelmente em livros escritos para tapar buracos na estante (p. 110). Nesse raciocíonio, o autor usa o exemplo de uma criança quando faz algo errado e dizemos que o que ela fez é feio. Logo, o juízo estético, mais do que uma doutrina e mais do que uma utopia social qualquer, ele é capaz de fundar uma linha de conduta. Para o pai, o juíizo estético não avaliava só a arte ou a natureza, decidindo o que seria belo e o que não seria, mas também era uma atitutde geral diante da vida, uma decisão de viver belamente (p. 111). "Hedonista se tornou por si só uma crítica moral. Como se fosse possível a um humano não preferir o prazer ao desprazer. Como se preferir o rpazer fosse uma falha moral. é uma curiosa e pesada herança cristã na nossa cultura: o sofrimento e a privação ganham pontos aos olhos de Deus e presumivelmente facilitam nosso acesso ao reino dos céus. O prazer, ao contrário, seria sem mérito, a escolha pelo mais fácil"(p. 112). "O hedonimos é um projeto de dedicação e atenção ao mundo, exatamente como o projeto de contemplar e apreciar uma obra de arte é um projeto de dedicação e atenção à obra" (p. 113). "Somos distraídos demais para sermos hedonistas. O hedonismo, assim como qualquer apreciação estética, exige uma extrema atenção ao mundo, e ninguém é hedonista com o celular na mão" (p. 114). "O problema do prazer estéttico é sempre, antes de mais nada, um problema de atenção" (p. 116) "Quem precisa viver algo extraordinário, geralmente, perdeu o encanto do trivial e do cotidiano, ou seja, atravessa a vida como uma história entediante" (p. 119). "Há uma diferença entre o belo e o bonitoo. O belo tem um quê de épico e solene que o torna mais próximo de uma qualidade não "apenas" estética, mas também moral". (...) "E se a gente não precisasse se orientar por outros princípios na tentativa de evitar a feiura do mundo?" (...) "A nossa apreciação estética fundaria nossas inquietudes morais e nossas escolhas" (p. 121). "A kalokagathia grega pode ser entendida como uma pose ou uma postura, quase uma elegância pré-dandista, e o dandismo como uma volta do homem clássico, uma afirmação final e definitiva do homem renascentista, do homem aestheticus sobre o home ethicus" (p. 122). "A modernidade ocidental é uma cultura na qual o indivíduo é um valor maior do que a coletividade. Essa ruptura é uma brecha, uma ruptura mas que vai se abrindo aos poucos" (p. 123). A hierarquia familiar não está no início da lista dos valores cristão. "No Antigo Testamento, ao contrário, a família é um valor prioritário; então, pode-se dizer que a família é um valor bíblioco, sim, mas não um valor cristão"(...) "Para proteger uma tradição, nada melhor do que a família, que é um instrumento de reprodução social. O Novo Testamento, ao contrário, surge para promover uma nova religião; ele só pode ser oposto à família e a todos os aparelhos de reprodução social (p. 124)". "A família cristã, inevitavelmente, prega a desobediência do indivíduo, chamando a decidir e agir contra a tradição" (p. 125).
Calligaris discusses the concept of self-obligation to happiness by exploring the idea that individuals have a personal responsibility to pursue their own happiness and well-being. He suggests that this pursuit is not just a right but a duty, and it involves making choices and taking actions that align with one's deepest values and aspirations.
It integrates religious and philosophical texts, including the Bible, to underscore this point. It refers to biblical principles that emphasize the importance of personal growth and fulfillment, such as the pursuit of a life that feels meaningful and rewarding.
My biggest impact is when Calligaris discusses in depth the death of Seneca to illustrate how attitudes towards life and death have shifted over time and across cultures. Seneca, a Stoic philosopher, was compelled to commit suicide by the Roman emperor Nero. His calm and reflective demeanor during his forced suicide is often highlighted as a testament to his philosophical beliefs and strength of character.
Calligaris uses Seneca's death to reflect on contemporary society's attitudes towards death and the meaning of life. He suggests that modern society often avoids discussing or dealing with death openly and honestly, contrasting sharply with Seneca's era, where philosophical preparation for death was considered an integral part of living a meaningful life. This Stoic approach included a focus on accepting the inevitability of death and living in a way that was consistent with one's values until the end.
Contardo foi de uma sensibilidade incrível. Seus livros tocam, ao mesmo tempo que nos levam a refletir sobre pontos desconhecidos ou despercebidos em nossas vidas. Esse livro não é diferente. A preocupação com a liberdade e vida concreta não é algo presente somente nessa obra, mas se fez central em O sentido da vida. Suas considerações a respeito do conhecer e habitar o mesmo espaço que o desejo, sem que a dúvida nos cause a necessidade de controlar o outro, são de extrema importância, especialmente hoje, momento em que nossos pés saem do chão com facilidade, e nos pegamos com frequência olhando para lugares distantes do que deveríamos considerar importante. Percebi certo amargor em um determinado momento da leitura, o que me causou certo estranhamento e desconforto, mas logo fiz as pazes com o livro. Ao finalizar o livro, ainda penso que um texto cuidadoso em sua coluna na Folha seria melhor em certos aspectos do que essa obra em si. A edição me desagradou também em alguns pontos, como a elaboração e apresentação do texto, faltou um pouco de cuidado com a revisão. No mais, acredito ser uma obra leve para se ler, digna de um domingo tranquilo. Com toda a certeza, as reflexões que foram levantadas em mim, continuarão ecoando por um bom tempo, até mesmo as que foram suscitadas por discordância. Nisso, considero Contardo Calligaris de uma escrita única, sensível e bela.
No começo do livro,me deixei levar pelo tédio,mas ao ler um pouco mais,eu já estava presa no livro,contando para algumas pessoas frases que me deixaram curiosa.
Um livro com tantas perguntas e respostas,tantas palavras que me deixam querendo saber mais. ”um morto pode ser feliz?”, ao ler isso pensei rapidamente em uma resposta óbvia: “não,por que um ser que nem vivo está necessitaria da felicidade”,mas ao continuar minha leitura,eu mesma me questionei de minha afirmação.
Vários pontos do livro me prenderam,como o título do capítulo 1,”Felicidade,uma preocupação desnecessária”.O autor acredita que uma vida tem que ser interessante e não necessariamente feliz,por isso ele afirma em uma parte da última página do capítulo que a vida interessante para ele é “Uma vida que você se autoriza a viver intensamente.Autoriza-se a viver com a intensidade que todos os momentos da nossa vida merecem”.Esse capítulo mudou alguns detalhes de meus pensamentos,me fazendo viajar no mundo das dúvidas.
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o autor nos faz refletir, literalmente, sobre o título do livro. o sentido da vida ultrapassa a imanência? há sentido fora da própria existência? ele entende que não, que a experiência de estar vivo é o que dá sentido para a vida, e isso basta.
confesso que comprei o livro pelo título. pensei nas possibilidades de interpretação advindas de uma pergunta tão singela. respondi para mim mesmo: o sentido da vida é a morte. o sentido DA vida é para onde vamos, e nós vamos morrer, então a vida aponta para a morte. é diferente de um sentido para a vida, que, aí sim, eu responderia diferente (e nem sei se chegaria a uma resposta).
o autor, embora não se utilize do sentido que empreguei à pergunta, fala muito sobre isso, e conclui que o sentido da vida é estar vivo. logo, a morte, enquanto parte da vida, também dá sentido a ela.
leitura rica, fluida. a experiência de ler Contardo Calligaris valeu o tempo de vida dedicado a este fim. futuramente lerei mais.
Li o livro todo de uma vez, é curto e com um fluxo de escrita muito interessante. O texto desafia a lógica da felicidade como um sentido e ao contrário fala do objetivo de uma vida interessante: aquela que é vivida intensamente e com atenção a todas as experiências que lhe cabem. Isso não significa em si uma vida feliz, mas uma vida em que se possa viver um luto, uma conquista, uma conversa cotidiana sem fugir e se distrair. Sem nos anestesiarmos das experiências.
Para muitos, a vida concreta, os desejos cotidianos seriam algo sem sentido. Ai vem a busca pela religião, a promessa de uma transcendência e a busca por um sentido estético. O autor remonta como esses discursos se alteram e ganham ou perdem força a partir da modernidade, da concepção de ser humano e do declínio da coletividade.
O sentido da vida é o que a gente faz, mas para isso necessita-se de uma abertura, atenção e uma apreciação a experiência cotidiana de existir e não ser extraordinário.
Todas as psicoterapias só têm esta ambição: buscar entender como, na vida concreta do paciente, é possível descobrir alguma coisa que a valorize; não fora da vida concreta do paciente, mas nela mesma. É por isso que a terapia acaba sendo um trabalho quase estético, um trabalho de recriação narrativa de uma vida, que dá atenção a uma vida de tal forma que ela se valoriza.
UM DOS CÔMODOS DO APARTAMENTO DA minha infância era chamado, misteriosamente, il tinello - digo misteriosamente porque em italiano tinello significa "sala de jantar", mas esse cômodo era completamente coberto de livros, do chão até o teto, por quase todos os lados.
A gente usa a estética como recurso para ajudar uma criança a entender o que é certo e o que é errado, antes talvez que uma medida moral dos atos lhe seja acessível.
Nós tentamos resolver nos outros as dificuldades que temos com a nossa liberdade.