Librarian's Note: this is an alternate cover edition - ISBN 8528000257
Em pleno século 19, a genialidade de um dramaturgo perturba a ordem da mediocridade provinciana, com rasgos da mais delicada lucidez. Desafiando os limites entre a ficção e o documento, Luiz Antonio de Assis Brasil revive, em Cães de Província, a alma dessa personagem antológica que foi Qorpo-Santo.
Esta não é uma biografia de José Joaquim de Campos Leão, auto-denominado Qorpo-Santo (1829-1883). Como o próprio autor ressalta, trata-se do imaginário dessa personagem contraditória da literatura dramática brasileira, e que foi considerado por alguns críticos como precursor do teatro do absurdo. Vítima de um processo de interdição por loucura, foi um homem cuja superioridade intelectual não foi entendida por seus contemporâneos. Qorpo-Santo ultrapassou os limites de seu tempo, criando um universo ficcional que recém agora está sendo valorizado pelo público e pela Academia.
Ao mesmo tempo em que trata deste genial criador, Assis Brasil desvela um mundo que, sob a aparência de um burgo tranqüilo, encerrava as mais fantásticas histórias de crimes, adultérios, incestos e crueldades.
Nascido em Porto Alegre, em 1945, Luiz Antonio de Assis Brasil passa parte da infância em Estrela, com a família, que de lá retorna à capital em 1957. Cinco anos mais tarde começa a estudar violoncelo.
Em 1963 termina o Curso Clássico no colégio Anchieta, em Porto Alegre, dos padres jesuítas. Em 1964, ano do golpe militar, ocorre sua entrada no exército, para o serviço militar obrigatório. Um ano mais tarde Luiz Antonio ingressa no curso de Direito da PUCRS e também passa a fazer parte da OSPA - Orquestra Sinfônica de Porto Alegre – como violoncelista, lá permanecendo por 15 anos. Forma-se em Direito em 1970. Advoga por dois anos. Em 1975 ingressa como Professor na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, função na qual atua até hoje; no mesmo ano inicia a colaborar na imprensa com artigos históricos e literários.
Estréia em 1976 com o romance Um quarto de légua em quadro, lançando-o na 32ª Feira do Livro de Porto Alegre, e que lhe dá o Prêmio Ilha de Laytano. Em 1976 inicia sua trajetória de administrador cultural, primeiramente na Prefeitura de Porto Alegre [Chefe da Secção de Atividades Artísticas] e depois no Estado do Rio Grande do Sul [Diretor do Instituto Estadual do Livro - 1983]; 1978 é também o ano de lançamento de A prole do corvo. Em 1981 publica Bacia das almas. No ano seguinte, Manhã transfigurada. Em 1981 Luiz Antonio de Assis Brasil assume a direção do Centro Municipal de Cultura de Porto Alegre
No inverno 1984/1985 vai à Alemanha, como bolsista do Goethe-Institut [Rothenburg-ob-der-Tauber, na Francônia]. Em 1985 lança aquele que, segundo o autor, é seu livro com maior carga emocional, As virtudes da casa.
Em 1985 começa a ministrar a Oficina de Criação Literária do Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS, em atividade até hoje, e que recebeu o Prêmio Fato Literário, da RBS/Banrisul em 2005, ao completar 20 anos de atividades ininterruptas.
Em 1986 sai mais uma obra, O homem amoroso, uma novela com forte acento autobiográfico. Cães da província, em 1987, retoma o ciclo histórico, adotando Assis Brasil o dramaturgo José Joaquim de Campos Leão, o Qorpo-Santo, como personagem e evocando os tenebrosos crimes da Rua do Arvoredo. O romance dá o título de Doutor em Letras ao autor e faz jus ao Prêmio Literário Nacional, do Instituto Nacional do Livro.
Em 1988 Assis Brasil recebe da Câmara Municipal de Porto Alegre o Prêmio Érico Veríssimo pelo conjunto de sua obra. Videiras de cristal, que recria a saga dos Muckers, é lançado em 1990. Nova experiência é o romance em três volumes Um castelo no pampa, que se divide em Perversas famílias [1992 - ganhador do Prêmio Pégaso de Literatura, da Colômbia], Pedra da memória [1993] e Os senhores do século [1994]. Concerto campestre, Breviário das terras do Brasil e Anais da Província-boi saem em 1997, ano em que o romancista é eleito Patrono da 43a Feira do Livro de Porto Alegre.
Em 1998 é palestrante convidado na Brown University, em Providence, USA e em 2000 participa do programa Distinguished Brazilian Writer in Residence, na Berkeley University, Califórnia.
Em 2001 publica O pintor de retratos, que recebe o Prêmio Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional.
Em 2003 lança o livro A margem imóvel do rio, o qual é contemplado com três prêmios: Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira [o único romance dentre os três primeiros classificados], Prêmio Jabuti [finalista menção honrosa] e Prêmio Açorianos de Literatura.
Ainda em 2003 acontecem três publicações no Exterior: O pintor de retratos sai em Portugal pela Editora Ambar, do Porto; O homem amoroso é publicado pela Editora l´Harmattan, de Paris [l´Homme Amoureux], e na Espanha, pela Editora Akal, de Madrid, lança a tradução de Concerto campestre [Concierto Campestre]. Também em 2003 publica um livro de ensaios literários pela Editora Salamandra, de Lisboa: Escritos açorianos: tópicos acerca da narrativa açoriana pós-25 de abril. Em 2005 sai na França, pela editora L
Uma aventura que nos faz emergir sem medo de nunca mais retornar à superfície. Muito mais do que contar a história de uma figura importante (ou imaginar como teria sido, melhor dizendo), Cães da província se propõe a falar disso: dos cães que roem as estruturas da sociedade com suas ideias consideradas "normais". Qualquer semelhança com O Alienista de Machado não deve ser mera coincidência. No entanto, Assis Brasil vai mais fundo na questão, destrincha os personagens com infalível maestria e administra as digressões, reviravoltas temporais com a mesma fortuna. Não é apenas a história de Qorpo Santo... é Eusébio e a loucura que ele viveu (e que por ser em segredo, não fora condenado), é Lucrécia na sua morte-vida, é Dario Calado com suas artimanhas e anseios pelo que a sociedade espera dele. E o juíz... o juiz mesmo asfixiado pelo que sua consciência grita, prefere continuar naquilo que conhecem por "normalidade".
Talvez, durante a leitura, não se possa perceber o quanto o enredo é triste. Uma coisa, percebe-se de fato: vivemos isso agora, como se fosse um espelho da nossa vida "moderna".
[retroactive review to catch-up, may not be so accurate]
This was once one of my favorite books, but on a second read I think it lacked a little of the depth that had driven me in the first place (or maybe I am in a more meta, self-referential phase of my reading these days).
Cães da Província works historical fiction into the realm of psychological, character-centered novels. In particular, it is an investigation of madness and genius as complementary yet disruptive qualities. I think of it as a regional response to Machado de Assis’ The Alienist with a bonus of human meat sausage.
I used to be a big fan of Assis Brasil—have read quite a few of his books—for fostering contemporary Southern Brazilian literature that is at the same time historical and very psychologically-driven. Whereas in this book the psychological aspect with regard to madness is indeed fleshed out, we are left with many other threads hanging. The nods to potentially homo-erotic feelings between two of the male characters, for example, are pervasive but never really elaborated upon, and the theme of idolatry/respect vs. love/friendship fell a bit shallow (btw, the same happened in Figura na Sombra, another historical novel by the author that chronicle’s Humboldt’s trip to the pampas). A few moments throughout the novel, especially through quotes on the 3rd person narrative voice, the context of slavery had left me a bit uncomfortable for not being dealt with well (even if one of the slaves plays a major role later in the book). And there is little effort to provide depth to feminine characters, although perhaps that is also part of the critique the author is trying to make with Lucrecia i.e. some sort of “to women, madness is all that is as society won’t dare to confuse it with geniality!”.
I do find the parallel between the stories of madness and cannibalism a fascinating idea, and one that truly validates Assis Brasil as the genius of contemporary, regional literature I once read him as. The author is capable of transforming an urban legend with historical veracity into supporting characters of a historical fiction, through which he makes claims about the state of the mind of the main characters.
'Absurda é essa interdição contra um homem apenas porque ele perturba a paz alheia’
Cães da Província é uma leitura que me intrigou bastante, antiga – por se passar no século XIX – mas, ao mesmo tempo moderna, por seus temas abordados: loucura, fidelidade, amor, honra, sociedade e muitos outros. Primeiramente toda a história de Eusébio e Lucrécia me fascinou muito, Lucrécia uma senhora tão simpática e amada pelo povo da província, Eusébio uma homem confiável e cauteloso que se vê em uma situação quase cômica se não fosse tão terrível. Já Qorpo – Santo, louco ou não louco, com certeza um homem peculiar, que desperta em outros suas próprias estranhezas. Foi uma leitura muito agradável, trouxe reflexões sobre saúde mental e como pessoas transtornadas eram vistas naquela época.
Genial! Algo entre Machado de Assis e Saramago! E por que não dou 5 estrelas?: por uma meia dúzia (talvez menos) de graves erros de português, incompatíveis com o elevado nível literário da obra, e por outros tantos erros de digitação.
Romance no melhor estilo de comédia dos costumes, Cães da Província trata da decadente Porto Alegre do fim do século XIX (na época, Província de São Pedro - daí parte do nome; a outra parte fica em segredo para quem quiser ler a obra), abordando temas como adultério, loucura, machismo e justiça, e tendo como pano de fundo da reflexão o conhecido caso dos crimes da Rua do Arvoredo. Assis Brasil inteligentemente lança mão de elementos como a metaficção (a partir da obra de Qorpo-Santo) e o absurdidade dos monólogos internos das personagens para levar o leitor à reflexão: afinal, estaria a nossa sociedade hoje, no século XXI (ou no final do século XX, considerando a época da escrita e da publicação do livro), tão diferente daquela Província do Século XIX? Afinal, como se determinam os padrões de loucura e violência e preconceitos (de raça, gênero e classe)? Em outras palavras, através de uma literatura do absurdo que poderia em última instância ser comparada à própria obra de Qorpo-Santo, Assis Brasil vai a fundo, às vezes numa inspiração possivelmente foucaultiana (lembrando aqui História da Loucura), numa crítica do que é aceito e do que é rejeitado na e pela sociedade. Imperdível.