No centro do argumento deste livro está a ideia de que presidentes não são criaturas frágeis, expostas ao risco de cair por qualquer motivo. "Impeachments são e devem ser processos excepcionais", diz o autor. A partir de uma análise minuciosa do processo que levou à queda de Dilma Rousseff, Fernando Limongi esmiúça a vida política brasileira, num retrato multifacetado, que é também um bem-vindo contraponto à rinha ideológica que paralisou o debate de ideias no país.
Uma copilado de recortes que pretende escrutinar e lançar maior luz aos fatos que propiciaram o caminho para o evento do processo de impeachment para com a ex-presidente Dilma é o mote que move a presente obra.
Com uma breve análise histórica que abarca os anos de governo do PT, é possível compreender a chegada de Dilma ao poder, assim como sua retirada, em uma sucessão de atos que envolveram deputados, senadores, empresários, juízes e promotores parciais, culminando, portanto, em uma rede de chantagem, velha política, corrupção, politicagem e muitos outros fatos que foram basilares para a chegada da extrema-direita ao poder em 2018.
No entanto, apesar de tudo isso, no contexto da obra, uma ressalva: este é um livro que reflete sobretudo a visão dos jornais O Estadão, Folha de São Paulo, O Globo e Valor Econômico acerca dos fatos narrados (mais da metade das páginas são de referências das matérias dos supracitados), que, como é de conhecimento, tem usualmente uma visão parcial e de ataque para com os governos petistas, de modo que tenha faltado ao autor uma maior pesquisa de estado da arte na literatura jornalística para assim compor um retrato mais justo e mais amplo dos eventos. Ao final, parecia um copia e cola, nesse sentido decepcionante. Foi, assim, uma leitura razoável.
É OK. Serve bem pra um resumão, quase uma reconstituição das reportagens da época. O processo teve mais idas e vindas do que a gente se acostumou a lembrar, mas o resumo é o mesmo: lava jato pintando e bordando, políticos com medo, temer poderia salvá-los.
Limongi defende nesse livro o argumento com os seguintes contornos: impeachment é um fenômeno político raro, pois o Presidente pode dispensar poderosos contra-ataques para se manter no poder (essencialmente distribuir cargos no arranjo ministerial, atraindo lealdade no Congresso); por esse motivo, o que explica o insucesso de Dilma Rousseff para se manter no poder foi uma fratura incorrigível em sua coalização, que retirou qualquer atrativo das eventuais propostas que fizesse aos congressistas para se manter no poder.
É curiosamente não explicado o motivo pelo qual a demonstração desse argumento tenha ocorrido exclusivamente mediante o exame de matérias dos principais jornais do pais (Estadão, Folha, Globo etc.). Nenhum outro subsídio de pesquisa e investigação poderia ser empregado? Eu não acho que Limongi tenha sido cegamente induzido pelo recorte editorial das publicações que seguiu, pelo contrário, ele demonstra enfaticamente as inconsistências da narrativa promovida pelos editoriais dos jornais em relação aos fatos envolvidos na trajetória de investidas contra Rousseff (especialmente o alinhamento do governo à Lava Jato quanto ao combate à corrupção). De todo modo, não é facilmente compreensível porque apenas reportagens foram usadas para construir essa explicação do processo de impeachment. Isso não compromete, evidentemente, a persuasão da tese de Limongi.
Além dessa inexplicada limitação das fontes a jornais, o livro também conta com uma trincada estrutura de capítulos. Embora ele explique, no começo, como irá abordar a trama do impeachment, o vai-e-vem de datas, episódios e personagens torna bem difícil seguir coerentemente a linha de acontecimentos até o desfecho final. Talvez isso tenha sido proposital, justamente para mostrar o elemento de incompreensão e caos da política brasileira. De todo modo, a leitura deixa de ser suave, pois pausas na leitura (nas quais se esquece de alguns detalhes) dificultam a retomada depois.
O livro é ótimo, em suma, embora não seja nada excepcional. A explicação fria e sem excessivos julgamentos políticos e ideológicos dos acontecimentos atestam para o caráter científico do empreendimento do Limongi. Talvez escrever mais, com outras fontes, tornaria o livro em um tratado megalomaníaco e inassimilável.
O livro faz uma retomada e uma descrição histórica muito interessante e bem escrita (destaque para a constante espirituosidade do autor) de todas as circunstâncias que levaram ao impeachment. Ressalta, de maneira que não me pareceu maniqueísta ou simplista, as motivações de todos os agentes envolvidos, o que dá grande credibilidade para a narrativa criada sobre a história.
Julguei, também, o argumento principal são: o impeachment não foi motivado pelas pedaladas nem por uma discordância vital da oposição em relação às políticas petistas, mas, sim, nos fins últimos, pelo governo não conseguir garantir uma proteção contra a Operação Lava-Jato.
No que pese a boa construção do argumento, sinto que a análise de explicações alternativas não foi feita com tanta profundidade. Especificamente, a diferença de valores e políticas do PMDB/PSDB para com o governo - visão que eu também acho crível - é discutida em 3 ou 4 parágrafos. Se essa exploração fosse um pouco mais intensa, julgo que o texto teria mais robustez.
Há um grande e valoroso trabalho investigativo dos pormenores do background do impeachment nesse livro, além de articular bem com a teoria de coalizões já desenvolvida pelo autor. Tem várias tiradas irônicas e pontadas muito boas, mas é uma grande contribuição muito relevante pra área e demonstra o papel fundamental da mídia pro contexto político que nós temos hoje.
"Tem que resolver essa porra, estancar essa sangria.. a solução mais fácil era botar o Michel, É um acordo, botar o Michel num grande acordo nacional.. Com o Supremo, com tudo, aí parava tudo." #ForaTemer
Lava Jato e Imprachment enquanto fato político. Traz um enfoque muito diferente do que eu tinha na época e da história que me foi contada. É bem elogioso com a Dilma. Interessante! Não considero que retrate o quadro completo.