O RESUMO DA ÓPERA: Àqueles aos quais os foi negada a vida, lhes resta sonhar com a imortalidade.
**ALERTA: Não sou de dizer isso, mas tente ler antes de saber qualquer coisa sobre a trama. As vezes é legal não saber o truque antes do show.**
Eu poderia aqui cair no clichê de dizer que todos nós vivemos na invenção de Morel, vivendo vidas vazias, repetitivas, e fantasmagóricas. Talvez eu estivesse certo se dissesse isso. Mas não é isso que Bioy nos conta. Nosso revolucionário fugitivo estava, evidentemente, escapando de uma perseguição política. Muito provavelmente alguma ditadura latino-americana por aí. O que importa é que, tal perseguição assassina, o levou a preferir habitar uma ilha isolada, comendo raízes e dormindo no pântano, do que ser executado sumariamente. Uma vida no limiar humano da precariedade. Uma morte em vida.
A máquina de Morel é o sonho do arquivista (ou do acumulador), registrar sensações de forma completa. Não muito diferente de um filme ou uma foto, é uma forma humana de almejar a imortalidade (infelizmente existe a umidade). No começo da história, nosso protagonista afirma querer escrever um livro, denunciando a situação de condenados à morte de forma injusta. Outra forma de imortalidade. Uma talvez, muito estéril.
Cada dia tem uma cor. Não preciso do JP. Mourey pra me dizer isso. O que vemos nesse gibi é aquela sensação do verão, onde muitas coisas ocorrem em sequência, boas e ruins, e marcam cada dia vivido com uma cor, um sabor, um aroma distinto. Mourey transforma isso em arte na página. Contudo, na ilha de Morel, o futuro nunca chega. As cores se repetem e quando percebemos isso, talvez essa prisão seja até acolhedora.
A ilha fantasma de Morel vivia em um loop constante. Sendo assim, nada do que ocorria ali tinha peso. Tudo era predefinido. Uma procissão de últimas palavras repetidas infinitamente sem motivo. Impossível não lembrar do filme O Ano Passado em Marienbad, onde vemos um protagonista que tenta escapar de um mundo repetitivo e estruturado como um relógio, escapar da ficção (coincidentemente também projetando sua salvação na figura de uma mulher). A diferença é que em A Invenção de Morel o protagonista quer mergulhar na ficção. Ao fim da história, ele quer se tornar também ficcional, vivendo eternamente uma vida que ele, na condição de fugitivo, nunca viveu. Ele não quer mais lutar, tudo se tornou pesado. Ele só quer um jeito de partir, e deixar algo pra trás. Uma vida em morte.
P.S.: O próprio Morel também buscava uma vida na morte, contudo essa vontade vinha da frustração de não conseguir a mulher que queria, não de um mundo que queria eliminar sua existência.