«Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto.», Machado de Assis, «Memórias Póstumas de Brás Cubas»
Este volume reúne os melhores textos escritos entre Outubro de 2006 e Janeiro de 2009 para o blogue homónimo, entretanto encerrado.
«Todas as aberrações psíquicas que normalmente se estudam no âmbito da psicopatologia da escrita diarística estão presentes neste livro de Pedro Menezes. Nesse aspecto, estamos perante um livro extremamente completo, um quasi-compêndio das anomalias mentais associadas à publicitação da intimidade. A citação que serve de epígrafe ao livro é uma primeira manifestação de um distúrbio psíquico grave. Diz assim: “Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto.” Tomando para si esta advertência, Pedro Miranda quer comunicar-nos que é tão cadáver quanto o Brás Cubas, de Machado de Assis. Ora, acreditar que se está morto é um dos mais graves delírios que concorrem para compor a depressão psicótica, condição que o resto do volume confirma. O subtítulo do livro, “Diário de uma crise”, é extremamente interessante. A palavra “crise”, em psicopatologia, designa um quadro de mudança decisiva que exige do sujeito um esforço suplementar para manter a estabilidade emocional. Pedro Marques, embora em crise, não podia estar mais estável, porque está morto. Isso permite-lhe descrever a crise a partir de uma posição de equilíbrio. Não é um marinheiro que descreve uma tempestade a partir do barco que é violentamente sacudido pelas ondas; é um náufrago que descreve a tempestade a partir do navio que já está submerso, no fundo do mar. Está em crise, mas está sossegado. Normalmente, as pessoas que escrevem um diário registam nele as queixas que têm dos outros; Pedro Morais usa-o para se queixar de si próprio. A generalidade das pessoas esconde a sua miséria, as suas insuficiências, os seus fiascos; Pedro Magalhães divulga-os. Tal comportamento configura uma patologia psíquica muito grave. Trata-se de uma espécie de narcisismo ao contrário: Narciso admirava a sua própria beleza; Pedro Mendes está encantado por se achar grotesco. Na tela célebre, Caravaggio retrata Narciso a contemplar-se num espelho de água; António Mexia aprecia com idêntico orgulho a sua imagem reflectida na água fétida e suja de um pântano. Há, por isso, em Pedro Matos, um comprazimento na sua própria dor, um sadismo revertido contra o próprio sujeito que chega a ser voluptuoso. O sadismo, não o sujeito. O sujeito é dado à volúpia mas não exerce. É um voluptuoso não praticante. Pedro Mendonça sente-se melhor quando se sente pior – e ainda bem, pois parece não ter alternativa. Em certo passo deste diário, o autor regista uma entrada intitulada “Carnaval”. Diz simplesmente: “Vou de homem.” Os gregos usavam o mesmo termo para designar as palavras “homem” e “mortal”. É nessa medida que Pedro Malangatana não é um homem. Estar morto é diferente de ser mortal.» Professor Joaquim Furtwangler (texto da apresentação do livro, 16 de Maio de 2009)
PEDRO MEXIA nasceu em Lisboa, a 5 de Dezembro de 1972. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa. Foi crítico e cronista no Diário de Notícias (1998-2007) e no Público (2007-2011). Escreve actualmente no Expresso. Assina também uma coluna mensal na revista LER.
É conselheiro cultural do Presidente de República, desde 2016. Foi subdirector e director interino da Cinemateca Portuguesa (2008-2010). Tem colaborado regularmente em projectos das Produções Fictícias (É a Cultura, Estúpido, O Eixo do Mal, O Inimigo Público, Canal Q). É um dos membros do Governo Sombra (na TSF, desde 2008, e também na TVI24, desde 2012).
Publicou seis livros de poemas: Duplo Império (1999), Em Memória (2000), Avalanche (2001), Eliot e Outras Observações (2003), Vida Oculta (2004), Senhor Fantasma (2007) e Menos por Menos - Poemas Escolhidos (2011) e Uma Vez Que Tudo se Perdeu (2015).
Editou quatro colectâneas de crónicas, Primeira Pessoa (2006), Nada de Melancolia (2008), As Vidas dos Outros (2010) e O Mundo dos Vivos (2012).
Manteve os blogues A Coluna Infame (com João Pereira Coutinho e Pedro Lomba), 2002-2003; Dicionário do Diabo, 2003-2004, Fora do Mundo (com Francisco José Viegas e Pedro Lomba), 2004-2005; Estado Civil, 2005-2009; e Lei Seca, 2009-2012. Desses blogues nasceram três volumes de diários: Fora do Mundo (2004), Prova de Vida (2007) e Estado Civil (2009).
Está representado em 366 Poemas que Falam de Amor (2003), org. Vasco Graça Moura; Antologia do Humor Português (2008), org. Nuno Artur Silva e Inês Fonseca Santos; Poemas Portugueses – Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, org. Jorge Reis-Sá e Rui Lage (2009); Alma Minha Gentil: Antologia general de la poesía portuguesa, org. Carlos Clementson (Espanha, 2009); e Poemas com Cinema, org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo (2010).
Organizou e prefaciou o volume de ensaios de Agustina Bessa-Luís Contemplação Carinhosa da Angústia. Traduziu Notas sobre o Cinematógrafo, do cineasta francês Robert Bresson. Publicou uma versão de uma peça de Tom Stoppard (Agora a Sério, 2010).
Escreveu a letra de uma canção ("Lixo") do álbum Equilíbrio (2010), de Balla.
Colaborou com dois projectos de peças curtas: Urgências (Teatro Maria Matos, 2004 e 2006) e Panos (Culturgest, 2012). Adaptou para teatro (com Ricardo Araújo Pereira) Como Fazer Coisas com Palavras, do filósofo inglês John Austin (Teatro São Luiz, 2008). Publicou a peça Nada de Dois (2009, encenada no Brasil em 2010 e no Canadá em 2011) e escreveu Pigmalião, a partir de Ovídio (Teatro Oficina, Guimarães, 2010). Encenou Agora a Sério, de Tom Stoppard (Teatro Aberto, 2010).
Escreveu o argumento do telefilme Bloqueio (realização de Henrique Oliveira, RTP, 2012).
Há tempos uma pessoa comentou a joãomigueltavarização dos demais membros do Governo Sombra, entre eles a do Pedro Mexia. Ao tempo concordei (acho que há um potencial contagioso naquele senhor cujas opiniões são frequentemente lamentáveis). Mas, em bom rigor, há nestes registos pistas várias de que, sendo pessoa com cultura, focos de interesse e inclinação crítica dignos de serem lidos, Pedro Mexia alberga também a capacidade de horrorizar e enraivecer que me habituei a constatar no JMT.
Nota máxima. O olho clinico e sensibilidade de Mexia faz um raio x da atualidade transformado factos de actualidade ocorridos nos anos de 2006 a 2009 num compêndio literário.