O aquecimento global ofertou à humanidade um rol de fenómenos meteorológicos que brincam com a sobrevivência da nossa espécie. Destes, as tempestades destacam-se não só pela sua globalidade - ocorrem em climas mais secos e noutros mais húmidos - mas também pela junção de dois elementos tão antagónicos como a água e o fogo - se as trombas de água podem alargar terrenos e fazer desabar estruturas, o calor que se sente no centro de um raio assemelha-se ao do âmago do Sol. Da poção mágica orquestrada nasce uma mistura explosiva que poderá cremar e dissipar qualquer culpa ou pecado, num acto de contrição natural.
Baseado nestas ideias, Boris Starling iniciou a sua segunda obra num clima que faz lembrar o Titanic: a detective Kate Beauchamp, que ajudou Red Metcalfe na sublime aventura anterior (contra o Língua de Prata, mais que recomendado) e depois pediu transferência para outra esquadra como forma de esquecer tais peripécias, regressa a bordo de um navio em inundação, durante um tempestade em pleno Mar do Norte. Numa luta pela vida, com imensos abalrroamentos pelo caminho, Kate acaba por conseguir escapar sã e salva a esta prova de fogo. Experimenta, no entanto, o fel sabor do stress pós-traumático e para o esquecer, ao invés de descansar e aproveitar o tempo com a sua família, decide aceitar um caso de assassinato, com contornos macabros: extremidades decepadas, lesões estranhas no abdomén e uma Víbora Negra a rodear a vítima, atada a uma árvore, numa via pública. Poderá Kate suplantar o seu sofrimento recente e conseguir desvendar um mistério que teima em entrelaçar-se com os pilares que suportam a sua vida?
O autor habituou-nos a uma escrita imersiva, com um enredo sublime e um mistério bem construído, em "Messias". Neste livro, o modus operandi não resulta de uma adaptação das mortes dos discípulos por um mentor que se assume o novo Cristo. É, em contrapartida, uma reinterpretação de um mito grego, que relaciona as Eríneas (e não Fúrias, as suas "irmãs romanas" como escrito tantas vezes) com o matrícidio. Apesar da grande paixão pela cultura grega e das reverberações que pairam na minha mente desde a leitura anterior, "Tempestade" acabou por não convencer por vários motivos. Primeiro, a exploração excessiva dos sentimentos de culpa - advindos da superação da tarefa hercúlea de sobreviver à catástrofe naútica - coloca o enrendo criminal em segundo plano, deixando o leitor sem eira nem beira para compreender sobre o que realmente se prentende retratar. Claro que a maioria das pontas acaba por se enlaçar em nós simples (nada de nós de marinheiros) mas o enredo só se torna mais claro nas 100 páginas finais, quando as cenas descritas exigem uma leitura num ritmo desenfreado (mas até lá quase se acompanha uma travessia do deserto). Por último, são demais os erros ortográficos, as incogruências mitológicas já mencioandas e os erros anatómicos descritos.
A melhor forma de ultrapssar uma tempestade, de forma incólume, será acocorar-se, evitando movimentos bruscos e um contacto directo com objectos metálicos e reluzentes. Creio que foi isso que Boris Starling acabou por retratar nesta segunda obra: deu aos seus leitores um enredo insípido, no início, mas sufocante, no final, exigindo uma apneia curta que acaba num suspiro fácil (enfadonho?). "Tempestade" acaba, assim, por escapar entre os pingos da chuva a uma avaliação mais negativa, sem evitar, no entanto, um embate com a onda feroz criada pelo peso pesado, que é "Messias".