" Vais ler um livro que hoje teria escrito de outra maneira.
Cingido à realidade humana do momento, romanceei um Doiro atribulado, de classes,injustiças, suor e miséria. E esse Doiro, felizmente, está em vias de mudar."
Uma obra notável de Miguel Torga que descreve e aprofunda a vida e os desafios das gentes do Douro vinhateiro. Não é apenas uma história sobre a colheita da uva, é uma profunda reflexão sobre a ligação do homem à terra, a sua luta pela sobrevivência e a relação quase carnal com os ciclos da natureza.
Torga, com a sua mestria na escrita, consegue transportar o leitor para o coração da região duriense. As descrições são vívidas e sensoriais, quase que sentimos o cheiro da terra, o sabor do mosto e o peso do sol nas vindimas. A obra capta a dureza do trabalho braçal, a pobreza e as dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores, mas também a sua resiliência, a sua dignidade e a sua profunda sabedoria.
Um dos aspetos que mais me marcou em "Vindima" é a forma como Torga explora a condição humana. Os personagens são complexos e autênticos, retratados com as suas virtudes e as suas falhas. O autor não idealiza, pelo contrário, expõe a crueza da realidade, a falta de humanidade do "feitor"e dos Patrões a quase escravatura a que estas gentes eram obrigadas, mas fá-lo com uma sensibilidade e humanidade que tocam o leitor. As suas vozes representam a voz de um povo, as suas esperanças, desilusões e a sua inabalável ligação à terra que os sustenta.
Muitas destas histórias eu ouvi do meu Pai, também ele foi trabalhador nas quintas do douro em jovem, tempos onde não se podia contestar nem reclamar de nada fosse do alojamento as "cardenhas", fosse da má e escassa comida, ou da dureza do trabalho.