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Qual é a Minha ou a Tua Língua? - Cem poemas de amor de outras línguas

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As antologias de poesia têm virtudes várias. Organizam leituras por temas ou épocas, dando-nos assim uma visão abrangente, despertam-nos para a obra de alguns poetas que conhecemos pela primeira vez e nos impressionam (neste caso, numa antologia de poemas de amor, poderíamos falar de "amor à primeira vista"), etc., etc.. Jorge Sousa Braga, para além da sua (belíssima) poesia, é um incansável leitor e tradutor, tendo já organizado e traduzido antologias várias, de que destacamos "O Vinho e as Rosas". Nesta "Qual é a Minha ou a Tua Língua" dá-nos a ler traduções de cem poemas de amor de várias línguas, a maior parte traduzidos por ele próprio, outras vezes recorrendo a traduções de outros poetas, como Eugénio de Andrade, Manuel António Pina ou António Osório. Enumerar aqui os poetas seria tarefa árdua, já que são cerca de 100 (repetem apenas Shakespeare, Jaime Sabines, Miroslav Holub, Marina Tsvetaïeva), da antiguidade (Safo, Cheng Feng) aos nossos dias (Biedma ou Zoé Valdéz), do Oriente ao Ocidente, numa verdadeira orgia de palavras e emoções, a confirmar a epígrafe de Tess Gallagher, que JSB escolheu para a sua introdução, "The best love poems confirm something/we secretely felt but never said."

160 pages

First published January 1, 2003

66 people want to read

About the author

Jorge Sousa Braga

19 books14 followers
Licenciado em Medicina, nasceu em Vila Verde, Braga em 1957. Exerce a especialidade de Obstetrícia num hospital do Porto. A sua obra poética tem vindo a revelar-se de uma criatividade notável, sendo notório desde o primeiro livro De Manhã Vamos Todos Acordar Com Uma Pérola No Cu, de 1981, uma abordagem da temática dos Descobrimentos e da portugalidade sempre tomada pelo lado irónico e surrealista, com ressonâncias do movimento Beat, de São Francisco. A sensualidade - e a sexualidade, - em poemas íntimos e por vezes extremos bem como a sua paixão pela poesia oriental têm-no levado a escrever haikus em língua portuguesa com assinalável perfeição. Incansável leitor de poesia verteu para português poemas de Jorge Luis Borges, Matsuo Bashô, Li Po, Guillaume Appolinaire, entre muitos outros.

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Displaying 1 - 8 of 8 reviews
Profile Image for Paula Mota.
1,677 reviews570 followers
October 6, 2022
O ÚLTIMO POEMA
Sonhei tanto contigo,
caminhei tanto contigo, falei tanto,
amei tanto a tua sombra
que já não me resta nada de ti.
Só me resta ser uma sombra entre as sombras,
ser cem vezes mais sombra que a sombra,
ser a sombra que virá e voltará a vir
na tua vida ensolarada.

- Robert Desnos

Além de poeta, Jorge Sousa Braga é um brilhante divulgador de poesia estrangeira, tanto enquanto tradutor como no papel de organizador, através de colectâneas que revelam um gosto irrepreensível e horizontes mais largos do que o habitual.

AMOR
Dois mil cigarros.
E uma centena de milhas
de parede a parede.
Uma eternidade e meia de vigílias
mais brancas que a neve.

Toneladas de palavras
velhas como pegadas
de um ornitorrinco na areia

Uma centena de livros que ficaram por escrever.
Uma centena de pirâmides que ficaram por construir.

Lixo.
Pó.

Amargo
como o princípio do mundo

Acredita em mim quando digo
que foi belo.

- Miroslav Holub

Em “Qual é a Minha ou a Tua Língua?” podemos ler 100 poemas de amor de autores originários dos cinco continentes, de épocas tão distantes como talvez o século X a.C. e, ao contrário do que é habitual em compilações, um bom punhado de poetisas.

FINAL
Quero acabar como uma gata,
beber leite em tigelas de barro,
comer peixe fresco e fetos.
Quero ser uma gata para me deitar
entre os livros que estás a ler,
deixar pêlos meus pela casa toda,
arranhar-te as pernas.
Quero acabar como uma gata,
para que me fales quando estiveres só,
convencido de que nunca te vou compreender,
rasgar-te papéis importantes,
extraviar adornos de valor.
Quero ser uma gata para de noite subir aos telhados
e ouvir-te desesperado a chamar-me:
Miau, miau, miau, miau...

-Zoé Valdés
Profile Image for Teresa.
1,492 reviews
October 22, 2014
De entre os mais de dois mil, perdidos por aqui, este é um dos livros que sempre sei onde está; pois que preciso dele quando necessito ouvir ou calar os gritos do meu coração...
São cem poemas que falam do amor "sentido" por poetas de todo o mundo. Muitos não conhecia e procurei-os noutros poemas, ficando deles admiradora: Ann Sexton e a sua poesia confessional e ousada; e. e. cummings e a sua original e fascinante forma de criar magia; Wislava Szymborska e os seus poemas irónicos e coloquiais; Philip Larkin, autor dos dois poemas mais tocantes e belos que já li, não sobre o Amor, mas um sobre a Vida ("Este Seja o Poema"), outro sobre a Morte ("Aubade").

Entre transcrever "Funeral Blues", de W. H. Auden ou "assassinar" alguns poemas, optei pelo "crime":

"Não uma rosa vermelha ou um coração de cetim.
Dou-te uma cebola.
É uma lua embrulhada em papel castanho.
Uma promessa de luz
como o cuidadoso despir do amor."

Carol Ann Duffy

"Corpo, recorda, não só quão de amor foste tomado
não só os muitos leitos onde tu te reclinaste,
mas igualmente esses desejos que por tua causa
nos olhos reluziam claramente
e fremiam na voz, e os quais algum
estorvo casual veio frustrar."

Constantinos Cavafis

"Ontem pensei
no meu amor por ti.
Recordei
as gotas de mel nos teus lábios
e lambi o açúcar
das paredes da minha memória."

Nizar Kabanni

"Ela tem sempre os olhos abertos
E não me deixa dormir.
Os sonhos dela à luz do dia
Fazem os sóis evaporar-se,
Fazem-me rir, chorar e rir,
Falar sem ter nada para dizer."

Paul Éluard

"Morro de ti, amor, de amor de ti,
da urgência da minha pele de ti,
da minha alma de ti e da minha boca
e do insuportável que sou sem ti."

Jaime Sabines

"A próxima vez que perpetremos
o amor, temos que
decidir primeiro quem vamos matar."

Margaret Atwood

"O verdadeiro amor. É normal,
é sério, é prático?
O que é que o mundo ganha com duas pessoas
que vivem num mundo delas próprias?"

Wislava Szymborska

"Duas horas em breve!
De certeza que estás deitada;
Não tenho pressa.
Podia mandar-te um relâmpago como se fosse um telegrama.
Mas para quê acordar-te,
atormentar-te?"

Vladimir Maiakovski
Profile Image for Carmo.
727 reviews569 followers
July 13, 2016
Um livro que merece estar à mão para ler sempre que a vontade de ler poesia se manifeste. Cem autores de outras tantas línguas que não a nossa deixaram o seu testemunho, o seu poema dedicado ao amor. Uma antologia compilada pelo autor com a ajuda de amigos que escolheram o "seu" poema de amor. Encontrei aqui alguns dos mais bonitos que já li, e também alguns - poucos, muito poucos - do mais estapafúrdio... a maioria derreteu-me.
Poderia escolher como exemplo um dos favoritos, mas além da escolha se revelar difícil, e porque nem todos andam em clima de arrebatamento, deixo-vos um dos que achei mais curioso: para os desavindos do amor, para aqueles esquecidos pelo cúpido, vão ver que não estão sós e também merecem a atenção do poeta.

O VERDADEIRO AMOR

Amor verdadeiro. É normal,
é sério, é prático?
O que ganha o mundo com a união de duas pessoas
que passam a existir num mundo só delas?

Postas num mesmo pedestal sem qualquer razão,
retiradas ao acaso de entre milhões, mas convencidas
de que assim tinha de ser – uma recompensa pelo quê? Por nada.
A luz que se projeta de lugar nenhum.
Por que sobre esses dois e não sobre outros?
Isto não afronta a justiça? Claro que sim.
Isto não conturba nossos princípios dolorosamente erigidos,
e lança a moral de um desfiladeiro? Sim para as duas questões.

Olhem para o casal feliz.
Será que eles não podiam ao menos tentar esconder,
fingir uma leve depressão em benefícios de seus amigos!
Escutem como eles riem – é um insulto.
A linguagem que usam – de uma clareza decepcionante.
Todas as suas pequenas celebrações, rituais,
as rotinas mutualmente elaboradas -
trata-se com certeza de um complô contra a raça humana!

É mesmo difícil de saber onde as coisas podem parar
se as pessoas começarem a seguir seu exemplo.
Com o que poderão contar a religião e a poesia?
O que será lembrado? O que teremos de renunciar?
Quem suportará viver dentro dos limites?

Amor verdadeiro. É realmente necessário?
O tato e o bom senso nos dizem para passar por ele em silêncio,
como por um escândalo nos altos círculos da Vida.
Crianças totalmente perfeitas nasceram sem sua ajuda.
Ele não poderia povoar o planeta nem em um milhão de anos,
sua aparição é rara demais.

Deixem que as pessoas que nunca encontraram o amor verdadeiro
sigam dizendo que tal coisa não existe.

Esta fé há de lhes fazer mais fácil viver e morrer.


WISLAWA SZYMBORSKA
Profile Image for João Roque.
343 reviews16 followers
September 11, 2014
Uma antologia poética nunca é tarefa fácil e obedece sempre a critérios, quase sempre subjectivos.
Neste caso, Jorge Sousa Braga, socorreu-se além das suas opções pessoais a sugestões de pessoas amigas e conhecedoras, já que escolher 100 poemas de amor de diferentes autores, não escritos na língua portuguesa é árdua tarefa.
"Qual é a minha ou a tua língua" é um livro necessáriamente desigual, que reune grandes nomes e outros que são praticamente desconhecidos.
Claro que tirando meia dúzia de poemas que consideo fora de série, também há abordagens diferentes e alguma até estranhas de falar de algo tão importante e consensualmente poético como é o amor.
Na generalidade é um livro muito interessante e um excelente trabalho de pesquisa e tradução do autor, já que é dele a maioria das traduções e todos sabemos quão difícil é traduzir poesia.
Profile Image for la poesie a fleur de peau.
508 reviews62 followers
December 19, 2020
O ÚLTIMO POEMA

Sonhei tanto contigo,
caminhei tanto contigo, falei tanto,
amei tanto a tua sombra
que já não me resta nada de ti.
Só me resta ser uma sombra entre as sombras,
ser cem vezes mais sombra que a sombra,
ser a sombra que virá e voltará a vir
na tua vida ensolarada.

Robert Desnos

***
Gosto do ponto de partida/critério para esta antologia: Jorge Sousa Braga (organizador) convida amigos (reais ou imaginários) a seleccionar um poema de amor em língua estrangeira, agrupando-os depois num pequeno livro que permite vislumbrar várias facetas do amor - o amor tranquilo, o amor acabado, o amor sexual, o amor conjugal, o amor devoto; tons de luz e de sombra, alguns reflexos dos dias cinzentos (portanto, amores felizes, infelizes, e alguns que se escapam a essas categorizações e simplificações). Esta leitura enquadra-se no interesse que o tema do amor romântico tem para mim; enquadra-se nas leituras que estou a fazer de Alain Badiou e de Byung-Chul Han; enquadra-se na tentativa de compreender a dimensão deste sentimento na contemporaneidade.
Profile Image for Rui.
153 reviews
March 12, 2022
Uma coletânea excelentemente organizada e traduzida. Este livro inclui poemas verdadeiramente inesquecíveis, recomendo muito muito muito.
Profile Image for Tiago Maranhao.
84 reviews9 followers
February 25, 2019
A ideia desse livrinho português (tive que esperar várias semanas para recebê-lo) é encantadora:

"Esta coletânea de poemas é o resultado da colaboração anónima de muitos amigos reais e imaginários. Todos eles escolheram um poema de amor (numa língua que não a portuguesa) que, por uma ou outra razão, gostariam de ter escrito. Não é (nem pretendia ser) uma antologia dos mais belos poemas de amor. Acaba, no entanto, por ilustrar as diversas faces, da simples declaração, à reverberação, passando pela reflexão sobre a substância do amor."

É qualidade dos poemas (ou ao menos de suas versões em português) é, naturalmente, variável, mas a coleção no geral é muito gostosa de se ler.
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