O autor que foi um dos premiados pela 20ª edição do Amadora BD com esta obra, aceitou o repto de o publicar complementando-o com pranchas adicionais. "De realçar a expressividade dos personagens, os apurados pormenores e planos paralelos que Lacas coloca em cada vinheta, que imprimem um inusitado ritmo à narrativa e aguçam a curiosidade do leitor. Com efeito, aqui podemos assistir a enredos pictóricos habitados por um padre, jóias, vinhos, temas que não são alheios à identidade plural do Projecto Travessa da Ermida. Efetivamente, é na Travessa do Marta Pinto, em Belém - Lisboa - que encontramos o mote inspirador dos episódios desta histó a Ermida de Nossa Senhora da Conceição (local de culto de outrora, metamorfoseado num espaço expositivo de Arte Contemporânea), Enoteca de Belém (ponto de encontro de apreciadores de vinho e da boa gastronomia nacional) e a oficina de joalharia Alexandra Corte Real (espaço dedicado à joalharia de autor).
Este pequeno livro consegue surpreender positivamente de duas formas – por um lado pela história, por outro pelo aspecto gráfico. Tenho a destacar que, ao longo dos anos, tenho criado alguma aversão pela aspecto institucional da Igreja (não é uma questão de crença ou de quem acredita, mas por algumas atitudes hipócritas da instituição e dos seus representantes). Isto tudo para explicar que, apesar desta minha reacção, é impossível não sentir algum carinho e empatia pelo padre, a personagem principal desta pequena história.
O quotidiano é pacífico e humilde até ao dia em que uns homens de aspecto soturno entregam ao padre uma fortuna em jóias para ele guardar. Receoso, o padre entra em pânico quando estas desaparecem, temendo a presença de um ladrão contra o qual se prepara para se defender.
Felizmente a ditadura portuguesa está nos últimos dias e com o término do regime vem uma agradável surpresa que o padre aproveita da melhor forma possível, mantendo o tom carinhoso e empático do episódio.
Esta pequena história, de poucas falas, inspira um enorme simpatia graças à força das expressões e dos modos que as personagens apresentam. Ainda que o tipo de coloração, a uma cor, não seja dos que costumo preferir, o aspecto final resulta muito bem para dar o aspecto e o ambiente pretendidos.
História curta e simples mas não simplista. O livro surgiu com base no projecto "Travessa da Ermida" e conta a história de uma Ermida em Bélem e do seu padre. Uma pequena aventura, sem grandes diálogos, mas um traço experiente do autor Rui Lacas, que aqui emprega apenas 2 cores para dar uma tonalidade histórica e jogando bem com as sombras e as luzes das velas na Ermida. Expressões, movimentos e acção bem desenhada com piscadelas de olho a outros herois da BD, como seja o banquete no final da história (Astérix) ou o final ao "sunset" (Lucky Luke). Esperava um desenvolvimento maior da história, mas esse não era o propósito da obra. Um livro para ver e rever.
Ilustrada no estilo expressivo próprio deste autor de BD português, esta é uma pequena fábula sobre o verdadeiro valor das riquezas. Nos anos moribundos da monarquia, um padre recebe à sua guarda as jóias favoritas do rei para uma celebração especial na sua ermida. Mas algo de inesperado acontece: um mal comportado menino jesus rouba as preciosas jóias, deixando o padre à beira do desespero. Quando estas lhe são devolvidas, o rei é morto no Terreiro do Paço. E o padre, ciente do real valor da riqueza, vende as jóias para custear um banquete para todo o bairro. Fábula que faz sorrir, alicerçada num estilo compositivo rigoroso que mergulha o olhar do leitor num pequeno mundo que funciona como retrato do portugal do início do século XX.