O Dia do Rei é um pequeno livro (lido numa longa caminhada) sobre um adolescente de catorze anos na Marrocos do final dos anos 80. Captura um momento interessantíssimo da vida desse rapaz: o despertar para a sexualidade, para o amor, para a inveja, para a construção da sua identidade, assim como o início de uma nova maturidade, o momento em que começamos a olhar o mundo por outros olhos, em que começamos a perceber que a ingenuidade da infância nos escondeu um mundo feito de desigualdades sociais e de género, em que talvez aquilo que nos foi dito e no que acreditámos não é, afinal, toda a realidade. Mas ainda nos refugiamos nos sonhos, ouvimos ainda o mágico e sobrenatural (porque cada uma destas personagens precisa desses sonhos para enfrentar o mundo real, e porque nesta sociedade a feitiçaria e os bruxos ainda são tidos em consideração).
Não tenho dúvidas de que tudo o que disse aqui é o potencial do livro. No entanto, duvido que seja plenamente atingido. Omar é um rapaz de classe social baixa, que tem como melhor amigo (e por quem se apaixona) um rapaz de classe social alta. Vive com o pai, abandonado pela mãe prostituta, e vive numa Marrocos governada por um rei autoritário (que Omar admira como pai, como Deus, talvez como mais...).
Creio que a partir do meio do livro o autor passa a divagar pelos caminhos que escolheu e perde aquilo que podia ser uma excelente obra. Claramente ganharia mais em explorar mais alguns pontos de vista, até de outras personagens, ou a dar mais vida ao seu Omar antes do desfecho.
Nota para a escrita, uma prosa poética, onde sonhos e realidade se misturam. Uma escrita muito bonita, que encapsulou bem os sentimentos destes jovens (gostaria apenas que soubesse ir mais longe).