Mikhail Bulgakov – Ovos Fatídicos
Depois de ler Diaboliada, li Ovos Fatídicos que me revelou um Bulgakov mais maduro. E a verdade é que gostei bastante mais desta novela. A narrativa é mais sólida, as personagens mais consistentes e a fantasia nunca se emancipa completamente da realidade. Em Diaboliada, o absurdo parece por vezes existir pelo prazer do absurdo. Nos Ovos Fatídicos o fantástico é apenas o instrumento pelo qual Bulgakov observa o seu tempo.
É precisamente essa contenção que torna o romance tão convincente. Bulgakov parte de uma descoberta científica impossível – um raio capaz de acelerar extraordinariamente a reprodução dos seres vivos, mas tudo o que acontece a seguir é profundamente humano e, por isso mesmo, assustadoramente plausível. A fantasia não rompe com a realidade; limita-se a exagerar tendências que já existiam.
Hoje é fácil ler este romance como uma simples sátira da ciência. Penso que seria um erro. O verdadeiro alvo de Bulgakov não é a ciência, mas o cientificismo, essa convicção de que o conhecimento científico acabará por dominar completamente a natureza e resolver todos os problemas humanos.
O romance nasce num momento muito particular da história russa. Nas primeiras décadas do século XX floresceu uma corrente de pensamento conhecida como Cosmismo Russo, cujo principal inspirador foi Nikolai Fiodorov. Os seus seguidores acreditavam que a humanidade tinha uma missão moral: vencer a morte, prolongar indefinidamente a vida, ressuscitar os antepassados e conquistar o cosmos. No fundo, partiam da convicção de que a ciência não existia apenas para compreender as leis da natureza, mas para libertar o homem da obrigação de lhes obedecer. Homens como Alexander Bogdanov procuraram prolongar a juventude através de transfusões sanguíneas; outros imaginaram que a ciência acabaria por eliminar a última fronteira biológica do homem.
Na Rússia daqueles anos, ciência, religião e misticismo deixavam frequentemente de ocupar territórios distintos para se fundirem numa única narrativa de redenção humana. É precisamente essa promiscuidade que Bulgakov ridiculariza.
É neste ambiente intelectual que deve ser entendida a decisão de embalsamar Lenine. Naturalmente que a preservação do seu corpo teve uma dimensão política evidente, destinada a perpetuar simbolicamente a presença do fundador do regime. Mas também dificilmente se compreende sem o contexto cultural criado pelo cosmismo russo, onde a ciência surgia frequentemente associada a uma esperança quase religiosa de superar a finitude humana. Historiadores como Nikolai Krementsov e Boris Groys mostraram como esta cultura científica e filosófica contribuiu para criar um imaginário onde a morte deixava de ser vista como um destino inevitável para passar a ser encarada como um problema técnico.
Bulgakov conhecia este ambiente e caricaturou-o magistralmente. Contudo, o mais interessante é que nunca transforma a ciência na culpada da tragédia.
O professor Persikov é, na verdade, a personagem mais sensata do romance. É um cientista rigoroso, prudente e consciente dos limites da sua descoberta. O desastre começa apenas quando a política, a burocracia e a ignorância se apropriam do conhecimento científico. Bulgakov parece dizer-nos que o perigo nunca reside na ciência; reside na ilusão de que o poder pode substituir o conhecimento.
Bulgakov parece desconfiar precisamente dessa hybris. O verdadeiro cientista conhece os limites do seu conhecimento; quem acredita poder dominar completamente a natureza já abandonou a ciência para entrar no domínio da ideologia. É esta passagem – subtil mas decisiva – que o romance retrata com extraordinária ironia.
Alguns anos mais tarde, o lysenkoísmo mostraria tragicamente até onde esta lógica podia conduzir. Quando a política decide aquilo que a ciência deve demonstrar, deixa de existir ciência; passam apenas a existir dogmas apresentados com linguagem científica.
Mas Ovos Fatídicos não é apenas uma crítica ao cientificismo.
É impossível lê-lo sem reconhecer uma sátira devastadora ao aparelho burocrático que então se consolidava na União Soviética. A sucessão de erros administrativos, decisões tomadas por quem desconhece completamente aquilo sobre que decide, ordens contraditórias e incapacidade de reconhecer o erro constituem o verdadeiro motor da tragédia. Os monstros não são a causa do desastre; são apenas a sua consequência.
Décadas mais tarde, Hannah Arendt descreveria a burocracia como uma forma de poder onde a responsabilidade individual tende a desaparecer. Em Ovos Fatídicos encontramos já esse mecanismo em pleno funcionamento: cada funcionário cumpre diligentemente a sua pequena tarefa, mas ninguém compreende o problema no seu conjunto e, por isso, ninguém assume verdadeiramente a responsabilidade pelas consequências.
No entanto, a crítica de Bulgakov não termina na burocracia.
Existe ainda um terceiro protagonista, menos visível mas talvez mais inquietante: a multidão.
A burocracia só produz verdadeiras tragédias quando encontra uma população disponível para acreditar, obedecer e procurar culpados. Bulgakov compreende aquilo que Gustave Le Bon descrevera poucos anos antes em Psicologia das Massas: as multidões não são simplesmente a soma dos indivíduos. Sob o efeito do medo tornam-se emocionalmente contagiosas, abandonam rapidamente o espírito crítico e aceitam explicações simples para problemas complexos. A propaganda ocupa o lugar da razão; a ansiedade transforma-se em histeria; e a necessidade de encontrar um culpado torna-se mais importante do que compreender os factos.
É talvez por isso que este pequeno romance continua extraordinariamente atual.
Quase um século depois, continuamos fascinados pela ideia de que a ciência resolverá todos os problemas, continuamos a acreditar que a burocracia pode substituir a competência e continuamos a assistir à rapidez com que o medo transforma sociedades inteiras em multidões manipuláveis.
Bulgakov não escreveu sobre ciência. Escreveu sim contra a arrogância humana. Contra a ilusão de que o conhecimento elimina a necessidade de prudência e pensamento crítico. Quando a ciência se deixa contaminar pela política, quando a burocracia substitui a inteligência e quando depende das multidões, a fantasia deixa de ser literatura para passar a ser História.
Os ovos que Bulgakov nunca existiram, mas as condições que os fizeram eclodir estão no nosso dia a dia.