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Cruz de Portugal

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"Tenho uma história para vos contar, mas não sei por onde começar. Eu devia andar pela idade de atirar pedras aos pardais quando a Republica tomou conta do meu país. A partir daí nunca mais tive descanso. O meu pai enfiou comigo numa quinta, a trabalhar que nem um mouro para me tornar republicano, e depois mandou-me para Lisboa, para estudar e me tornar merceeiro. O meu governo mandou-me para um quartel em Tavira, para me tornar soldado, e depois despachou-me para França, para as trincheiras da Grande Guerra, onde vivi o Inferno.
Ditas as coisas assim até parece que tive alguma culpa do que aconteceu no 5 de outubro, mas juro-vos: não tive nada haver com a revolução republicana, eu até nem sabia o que era uma República! Mas, apesar dos contratempos, posso dizer-vos que encarei o meu destino como um verdadeiro patriota, um verdadeiro republicano. Até aquele momento em que me lembrei que, ao longo da vida, somos sempre confrontados com dois destinos e temos forçosamente que optar por um deles. No momento decisivo da minha vida, optei pelo destino errado..."

302 pages, Paperback

First published October 1, 2007

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About the author

José Sequeira Gonçalves

5 books5 followers
Professor no Colégio Internacional de Vilamoura desde 1987, onde tem dinamizado vários projectos inovadores no campo do processo ensino/aprendizagem, José Sequeira Gonçalves nasceu em 1952. Mestre em História Contemporânea de Portugal, com tese sobre Sidónio Pais e a participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial.

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357 reviews25 followers
December 29, 2012
O romance inicia-se pouco depois de 1910 e da Implementação da Republica.

Silves, Algarve, um menino, filho único, vive com os pais numa casa de média classe. O seu pai, dono de uma quinta e de uma mercearia, tem rendimentos suficientes para que a família viva com algum conforto.

Pouco depois dá-se a implementação da república e o pai torna-se republicano fanático, aderindo ao partido e acabando mesmo por conseguir um lugar como membro da comissão concelhia do partido republicano.

Tempos difíceis e confusos em que o povo se encontrava dividido entre os apoiantes da monarquia e os da republica, havendo mesmo confrontos em todo o território.

É assim neste contexto que a história tem início e onde o autor desenvolve as alterações politicas ocorridas nessa altura. Às mudanças geopolíticas que deram origem à 1ª Grande Guerra (1914-1918).

E é nesse período que o autor mais se centra.

O nosso rapaz, agora já estudante da escola comercial em Lisboa, vê-se incorporado no exército português com guia de marcha para a Frente.

Nesta fase é clara a intenção do escritor em mostrar o embuste que foi passado aos soldados que se exercitavam em Lisboa e Tancos com vista a defesa da pátria e da humanidade.

Chegados a França, depressa os soldados portugueses viam que aquilo não era nada como tinha sido pintado pelos comandantes e, sempre de bom humor (isso é algo que de facto sucedeu), foram encarando a guerra como algo que não lhes pertencia, onde nunca viram a sua utilidade e muito menos percebendo que sentido fazia estarem ali.

Toda a 2ª parte do livro narra episódios de conflito e das tropas portuguesas.

É depois do ataque de La Lys, em Abril de 1918, que o livro entra noutra fase e, quanto a mim, aquela que melhor exemplifica a monstruosidade da guerra e do quanto sofreram milhares de soldados.

Passado em grande parte num hospital, o autor consegue criar uma metáfora sobre o absurdo do conflito e da capacidade maléfica do ser humano, em simultâneo que vai dando exemplos da extrema humanidade que se verificava quando menos se esperava.

O dilema entre o amor à vida e o amor à pátria, também é explorado pelo autor, assim como achei muito curioso a exploração ou o brincar com o efeito borboleta que o autor leva a cabo.

Um excelente romance histórico que nos dá uma outra perspectiva dos tumultuosos tempos que antecederam a 1ª Grande Guerra e uma outra visão, talvez mais realista, mais crua, das sensações e reacções humanas num conflito militar.
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