Depois de receber por duas vezes consecutivas o prêmio Cidade de Belo Horizonte, Ana Martins Marques resolveu reunir seus poemas e publicar o livro A vida submarina. A repercussão foi imediata: na mídia eletrônica foi considerada “absolutamente imperdível”, “um acontecimento”, “uma revelação convincente”. Na revista Bravo, Fabrício Carpinejar saudou seu “desembaraço de linguagem, um coloquialismo que eleva o prosaico e desmistifica o grandioso”. Da arte das armadilhas é seu segundo livro. A Companhia das Letras está especialmente orgulhosa de contar com a autora em sua coleção de poesia contemporânea, certa de que essa é uma voz que surge para ocupar um lugar no cenário dos poetas importantes do país, enriquecendo-o com sua particularidade. Na orelha do livro, Armando Freitas Filho narra uma conversa com outro poeta: “Você já leu o livro da Ana Martins Marques? Você tem que ler”, e conclui: “Mergulhei de ponta-cabeça, fui de capa a capa num fôlego só”.
Nasceu em Belo Horizonte, em novembro de 1977. Formada em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais, é mestre em Literatura Brasileira e doutoranda em Literatura Comparada pela mesma universidade. Em 2007, ganhou o Prêmio Cidade de Belo Horizonte, na categoria “Poesia — autor estreante”, e, em 2008, recebeu novamente o mesmo prêmio, na categoria “Poesia”.
3,5 terminei de ler ontem à noite mas hoje reli no café da manhã de cabo a rabo porque acho que ainda não sei ler poesia... gostei bastante de como a ana m marques se respalda na elevação da materialidade, transformando os objetos cotidianos em marcas da nossa passagem pelo mundo. é bem legal, aqui não se enxerga as coisas como simples fatos e o mundo exterior é colocado entre parênteses. mas alguns poemas de amor não cativaram muito, pra mim... destaque para 'talheres' e 'relógio' na parte de interiores, e 'carta a safo', 'sophia e o sol' e 'o brinco' (escolhi fazer um trabalho sobre este último e foi isso o que me motivou a comprar o livro inteiro).
Encontramos na rua uma fileira de cadeiras de um velho cinema levamos para casa colocamos na varanda passamos toda a tarde bebendo e fumando assistindo passar um dia qualquer
A história de como descobri o mundo dos poemas se iniciou com esse livro, que me prendeu em cada analogia, jogo de palavras e reflexões. Me impressiono como a vida gosta de brincar com o acaso, se não fosse por ele você não estaria lendo essa review agora.
“Da Arte das Armadilhas” não é um livro meu, é de uma americana que está no Brasil em um programa de estágio de linguística na USP e fala um português invejável. Conheci ela em São Paulo e marcamos de nos encontrar em um restaurante espanhol perto de minha casa. Ela carregava esse livro em mãos quando sentou-se ao meu lado e falou que ia ao banheiro. Eu, tentando deixar ela mais confortável, disse:
— Pode deixar o livro aqui — Afinal, não fazia sentido levar tudo que tinha ao banheiro. — Ah, obrigada! — Ela falou, meio confusa — Pode ler, se quiser.
Durante todo tempo em que ela esteve fora eu folheei o livro como se fosse meu, cada página uma história nova que me encantava, conseguia trazer profundidade em histórias com tão poucas palavras… eu estava encantado. Olhava constantemente para o corredor vermelho de onde S. viria ao retornar, não sei se porque queria que ela voltasse logo para eu entender o motivo de algumas páginas estarem dobradas no canto inferior e outras no canto superior ou se queria que ela demorasse mais para eu conseguir ler mais.
Registrei em meu celular alguns que me chamaram maior atenção e ela retornou, me explicou então que as marcações são para que ela releia futuramente alguns poemas para um trabalho que terá que fazer em sua faculdade.
Após jantarmos, levei S. para sua casa e acabamos conversando tanto e cantando tanto na viagem que esqueci de pedir o nome do livro para ela. No dia seguinte voltei para minha cidade natal e, ao descarregar o carro vi um amarelo forte saindo da lateral do banco do passageiro. Ao abrir a porta vi o livro. Abri um sorriso, eu não tinha perdido para sempre aqueles poemas, poderia revisita-los agora mesmo! Mas logo entendi que se eu estava com o livro, S. não estava. E com certeza ela precisava mais que eu.
Fiz questão de mandar tudo que ela precisava para seu trabalho, mas pude ler essa obra em uma sentada. Agradecendo sempre ao acaso, a S. e a sua distração.
Deixo aqui também um dos poemas que mais me encantou:
Pimenteira
“A pequena área de sol do apartamento cabe a ela: ela guarda o sol em seu coração rubro ruim e no prato que repartimos devolve-nos hoje ardente o sol de ontem”
"pode ser/ meu querido/ que esquecendo/ em sua cama/ meu brinco esquerdo/ eu te obrigue mais tarde/ a pensar em mim/ ao menos por um momento/ ao recolher o pequeno círculo/ de prata/ cujo peso/ frio/ você agora sente nas mãos/ como se fosse/ (mas ó tão inexato)/ o meu amor"
fiquei lendo na academia e fez o tempo passar tão rápido, o treino mais gostoso e um quentinho no coração que a autora consegue fazer com muita facilidade
Dá pra escrever um sem número de coisas sobre a poesia de Ana, mas deixo aqui só as palavras dela; são suficientes: "Coloquei no quadro uma fotografia sua nesta mesma sala: sentado na poltrona vermelha você levanta os olhos do livro fingindo ter sido surpreendido
A uma certa hora do dia, quando a luz se inclina e as cores caem para dentro de si mesmas você se parece consigo"
Gostei bastante. Os poemas não são herméticos, mas também não são simples. Apesar dos versos brancos ela trabalha bastante com os sons, como aliterações e um ritmo próprio, e assim faz poemas gostosos de ler.
Falam, muitas vezes, sobre coisas concretas e cotidianas, mas, como boa poesia, Ana Martins Marques vai além, traz novos significados, novo olhar, encantamento. A mitologia grega e a Odisseia também estão muito presentes, dando outra camada àquilo que parece próximo. A distância entre a linguagem e os referentes também atravessam os poemas, dão complexidade a eles e ao mundo.
Como nesse Atlas, livro de mapas e ser mitológico, desenho na página das estátuas que representam esse ser mitológico, o desejo reafirmado de completude, “sim”, a relação da totalidade com sua representação, representação instável, que não se gruda aos objetos:
Atlas
sim carregamos o mundo nas costas o mundo e as coisas do mundo as coisas e os nomes das coisas sim todos os mapas e as palavras como selos soltando-se
por isso nele não poderá faltar a menção a alguma flor
e por isso digo rosa ou lírio ou simplesmente rubro, rubro
e espero as páginas imantarem-se de vermelho
por isso digo febre e noite e fumo
para dizer ansiedade e desperdício de sêmen e de horas e cigarros à janela acesos como estrelas com a noite numa ponta e nós consumindo-nos na outra
este é definitivamente um poema de amor
por isso nele devo dizer casa e olhos e neblina
e não devo dizer que o amor é uma doença uma doença do pensamento uma desordem que põe tudo o mais em desordem uma perda que põe tudo a perder
e porque é um poema de amor sob pena de ser devolvido como uma carta sem destinatário (e todos sabem que não se deve brincar com os correios) este poema deve dirigir-se a alguém
porque a alguém o amor deve ferir com sua pata negra
e então à falta de outro este poema eu o dedico (mas não tema, o tempo também nisso porá termo) a você”
Rápido de ser lido; demorei em torno de 1 hora para terminar.
Não tenho o costume de ler poesia. Adquiri o livro mais por curiosidade sobre o gênero, e também por saber que a Ana é uma autora aclamada pela crítica nacional, de modo que eu não estaria lendo qualquer coisa.
Sou leigo em matéria de poesia, mas diria que o livro é interessante até. Gostei especialmente dos poemas sobre "meta-poesia" e linguagem.
O estilo da autora é simples e os temas também (talvez até demais). Sem dúvidas, o livro é um bom exemplo de como manipular, com beleza, a linguagem e de como comunicar estados emotivos de uma maneira esteticamente agradável.
O poema tá lá, quase deslancha, mas se estatela todo no chão. O poema não precisa ser longo para ser bom, muitos poetas já o provaram. Nesse caso, não concentram força alguma. Apóiam-se em alguns sons, alguns trocadilhos... falta algo. Os mais longos dão uma noção de que algo acontece, mesmo assim, muito plástico, muito imitação do real. Por essa razão, ñ curti. Para ñ ser injusta, gostei de - talvez - uns 3 poemas (um dedicado à Sophia e outro que trabalha dia/noite e, se ñ me falha a memória o segundo sobre Ícaro).
Decidi experimentar mais de Ana Martins Marques e, olha só que coincidência, esse livro é cheio de experimentações também. Não chega à qualidade e maturidade estilística que ela tem no terceiro livro, mas o que não faltam são tentativas de conectar tantas poesias ao mesmo tema, de criar jogos fonéticos a partir da aliteração e algumas vezes até da rima. Mais uma vez, seu olhar é sensível a respeito do cotidiano, dos objetos que fazem parte da vida comum e, apesar de simples e curtos, os poemas são capazes de nos tocar.
Uma das minhas poetas favoritas, senão a favorita nestes dias sem poesia, Ana é sempre capaz de escrever sobre a vida na folhas murchas de uma jiboia e também sobre a ausência dela num céu azul profundo. No entanto, de todos os livros dela que já li até o momento, esse é o que menos gostei (ainda que seja bom e bem acima da média). Desta vez, eu me senti como se os poemas fossem como amigos que, mesmo íntimos, se tratam com certo distanciamento. Não é culpa de ninguém, obviamente. A leitura, entretanto, depende mais do tato do que da visão.
Tenho a impressão de que a poesia foi criada por mulheres mineiras, elas fazem poemas como ninguém. Gostei muito desse livro, principalmente de Poema de Amor e O Brinco, foram meus favoritos. Recomendo! Dá pra ler bem rapidinho.
Li em 20 minutinhos esse perfeito livro de poemas, primeira coletânea de poesia desse ano. Do cotidiano ao universal, do amor ao desamor e à mágoa, que versos ricos e contidos e perfeitos. Li e reli todos os poemas e com certeza voltarei à alguns (muitos) deles no futuro.