Nova edição, conforme a terceira (última publicada em vida do autor), actualizada na grafia
As Pupilas do Senhor Reitor, um romance de Júlio Dinis publicado em 1866, conta a história do regresso de um jovem inconsciente à vila onde nascera. Uma vez aí chegado, apaixona-se pela noiva do irmão, o que desencadeia uma série de peripécias. As aventuras amorosas de Daniel chocam com a vida de duas órfãs, Clara e Margarida, entregues aos cuidados do reitor da aldeia. Em suma, As Pupilas do Senhor Reitor traduz a vida rural portuguesa da época.
Um livro escrito com a simplicidade de estilo e o realismo de representação, que caracterizam a obra de Júlio Dinis, e recheado de situações imprevistas e de grande intensidade dramática.
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Romance de Júlio Dinis publicado, em 1866, sob o formato de folhetins no Jornal do Porto, e em volume no ano seguinte. Segundo o próprio autor, numa referência das «Notas», a obra teria principiado a ser escrita em 1863, durante a permanência de Júlio Dinis em Ovar. O título refere-se às personagens femininas do romance, duas meias-irmãs órfãs, Margarida e Clara, de personalidades opostas, adotadas pelo Reitor. A intriga centra-se, contudo, em Daniel, segundo filho do lavrador José das Dornas. Depois de, em rapazinho, ter renunciado à carreira eclesiástica por amor a Margarida, Daniel regressa à aldeia, já médico e completamente esquecido do seu idílio de infância. Para além do Reitor, a obra apresenta uma interessante galeria de tipos rústicos, onde se destacam as figuras de José das Dornas, João Semana, o bondoso médico rural, João da Esquina, o dono da loja, e a sua esposa interesseira, a ti'Zefa, a beata linguaruda, entre outras. Em suma, As Pupilas do Senhor Reitor traduz a vida rural portuguesa da época.
As Pupilas do Senhor Reitor. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012. [Consult. 2012-01-03]. Disponível na www:
As Pupilas do Senhor Reitor, de Júlio Dinis, primeiro romance português do século, publicado inicialmente em 1866 em forma de folhetim, [...] só no ano seguinte apareceria em livro. [O s]eu caráter moralizador e a religiosidade que perpassa por todo o romance, a bondade capaz de chegar a extremos quase incríveis de sacrifício pessoal, são alguns dos ingredientes que transformaram em muito pouco tempo o autor desconhecido em sucesso nacional.
A calma da cidade do interior (Ovar - Portugal) e a observação da vida simples das pessoas da aldeia propiciaram o aparecimento desse romance que, algum tempo depois, se tornaria um dos mais famosos em Portugal.
Os capítulos são tipicamente folhetinescos: unidades narrativas com peripécias e final em suspensão. É um romance [que] está cheio de ironias bem humoradas, tornando-o, apesar do moralismo intencional, de leitura mais agradável.
Como costuma acontecer com escritores românticos, Júlio Dinis também vê o mundo com as lentes do maniqueísmo. Assim, assenta sua obra em um jogo contínuo de oposições. Entre as principais, destacam-se: A cidade - O campo / A modernidade - A tradição / O desejo - O amor.
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As Pupilas contam-nos a história de duas irmãs, filhas de casamentos diferentes do mesmo pai, que, estimando-se profundamente, são dotadas de maneiras de ser inteiramente opostas. Clara e Margarida, ambas generosas e de bom espírito, encaram a vida por forma diferente: a primeira, expansiva e alegre, por vezes estouvada, feliz de si própria e dos outros; a segunda, fechada numa reserva natural, dominando as reminiscências dum idílio infantil com Daniel na discrição e na saudade das horas idas - sentimento bem português de que neste livro se faz, por vezes, uma síntese expressiva.
JÚLIO DINIS, pseudónimo de Joaquim Guilherme Gomes Coelho, nasceu no Porto a 14 de Novembro de 1839. Tirou o curso de Medicina na Escola Médica do Porto, aliando a profissão de médico à de escritor. Os seus primeiros textos foram publicados em A Grinalda e em O Jornal do Comércio. As suas principais obras, todas assinadas como Júlio Dinis, são: As Pupilas do Senhor Reitor (1867), A Morgadinha dos Canaviais (1868), Uma Família Inglesa (1868), Serões da Província (1870), Os Fidalgos da Casa Mourisca (1871), Poesias (1873), Inéditos e Esparsos (1910), Teatro Inédito (1946-47). O único romance citadino é Uma Família Inglesa, baseado na literatura inglesa. As Pupilas do Senhor Reitor e A Morgadinha dos Canaviais foram romances praticamente escritos em Ovar; já os Serões da Província e Os Fidalgos da Casa Mourisca foram redigidos no Funchal. Esta última obra não chegou a ser totalmente revista pelo autor devido à sua morte prematura; um primo seu ajudou-o nesta tarefa e concluiu-a. Júlio Dinis morreu na madrugada de 12 de Setembro de 1871, no Porto.
Atendendo à época em que Júlio Dinis viveu, seria natural situá-lo no ultra-romantismo. Porém, as suas obras literárias não deverão ser inseridas nesta corrente, já que, devido à influência do pai, médico, e à sua educação científica, Júlio Dinis tinha uma visão bem mais real e verdadeira do que a dos autores ultra-românticos. Mas também não devemos classificar a sua obra na corrente Realismo – Naturalismo que começou com as Conferências do Casino da geração de 70, de Eça de Queirós. Podemos, sim, dizer que ele foi o percursor desta corrente literária no nosso país, o que levou a que fosse apelidado de inaugurador da escola naturalista.
In the second half of the 19th century, Portugal emerged from modernity when it wrote this book. Literature lived its golden years with Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Almeida Garrett, and Alexandre Herculano. However, none of these writers has been able to faithfully portray the rural country that existed. Contrary to the values of romanticism, Júlio Dinis leaned towards the realism of English soap operas. The young doctor wanted less imagination and more truth in his narratives, characters with a psychological dimension. This simple language conveys the reality of this world that he began to observe when he was sick; he retired to Ovar to take in the lovely air of the countryside. The customs of the small land and the conversations he heard there inspired Júlio Dinis to write "As Pupilas do Senhor Reitor," set in a village in Minho, where the rural harmony will tremble amid a love drama. But it is not just a simple love story that the author wants to tell us: the feelings of Margarida, Clara, Pedro, and Daniel serve to denounce the current moralism and hypocrisy that the priest, responsible for the education of the two orphans, condemns vehemently. This ethical and pedagogical tone permeates the Dinisian work because, as he wrote, the books serve "to educate, civilize and indoctrinate the masses." Like the happy ending of Pupilas do Senhor Reitor, Júlio Dinis (1839-1871) has an optimistic vision of Portugal's future, in which he believes a fair and stable society is under construction. This novel is a faithful portrait of an era; for some, it is light reading; for others, like Alexandre Herculano, it is undoubtedly a classic of Portuguese literature.
Há livros, ou melhor, há autores cujos livros funcionam como bálsamos para a alma.
Júlio Dinis era médico. Terá sido esse o motivo porque os seus livros funcionam desta forma? É uma hipótese. Afinal de contas, o que é melhor: a leitura de um livro que nos coloca um ar aparvalhado com um constante sorriso nos lábios ou uma receita com uns comprimidos para as "doenças dos nervos", como se dizia antigamente?
Estou para aqui a fantasiar simplesmente para justificar o ar com que imagino ficar a ler os livros deste autor.
A história é simples, o enquadramento é campestre, as personagens principais têm densidade psicológica, as relações sociais numa aldeia pequena são retratadas com graça e alguma malícia.
Há drama, há pessoas virtuosas, outras nem tanto. Há realidade, mas atenuada pela pena do autor. Há finais felizes...
Julinho, que delícia regressar às tuas histórias! É o mais puro aconchego! Tudo é idílico, tudo é previsível, mas é tãaoooo bom!
Fevereiro é mesmo o mês ideal para ler-te! Assim sendo, depois de ter a tua Morgadinha em fevereiro de 2021, as tuas Pupilas em fevereiro de 2022, fica a promessa de, em fevereiro de 2023, regressar à tua Família Inglesa 😊
Depois de ter lido este livro na minha adolescência e ter ficado apaixonada pela escrita de Júlio Dinis ao ponto de ter lido tudo o que escreveu, não resisti à edição da Guerra e Paz e caminhei para a releitura de As Pupilas do Senhor Reitor. As palavras e forma como escreve Júlio Dinis fez-me aumentar a vontade de ler novamente a sua obra, que nos leva ao bucolismo, ao dia a dia das gentes do campo, em contraste com os mais abastados, dia a dia de um Portugal do século XIX, rural, cheio de línguas de mal dizer, de alcoviteiras, de beatas e de gente boa que só quer levar a sua vida por diante. Daniel, o protagonista desta história é um jovem com vontade de aprender. Sem ter a constituição física do irmão, Pedro, o pai decide pô-lo a estudar, por achar que não terá condições de levar o trabalho da quinta a bom porto. "Não podes fazer dele um lavrador? Fá-lo padre, letrado ou médico, que não ficarás pobre com a despesa" diz o padre ao lavrador.
Daniel começa por aprender com o reitor da aldeia, mas o seu interesse, próprio de uma criança, cai para as conversas ao fim de tarde com Margarida, que fica deliciada ao ouvi-lo. No entanto, depois do Reitor ter descoberto que Daniel faltava às suas aulas para estar com Margarida, propõe ao pai do gaiato que este vai estudar para a cidade. (...)
Para já só escrevo que Júlio Dinis é o meu escritor português favorito 😊
Já há muitos anos que A morgadinha dos canaviais, a par com Jane Eyre, são os meus livros favoritos.
Nesta história temos uma espécie de quadrado amoroso entre os irmãos, Pedro e Daniel, e as irmãs Margarida e Clara.
Pedro e Daniel são filhos do José das Dornas, um agricultor que não passa dificuldades. Enquanto que Pedro, o mais velho, assume as lides da lavoura, Daniel, o mais novo, de compleição mais delicada é posto a estudar sob as orientações do reitor, para um dia ser padre. É por esta altura que Daniel, então com 12 anos conhece uma cabreirinha, a quem no fim das horas de estudos ensina a ler. Forte impressão lhe deixa a cabreirinha com quem diz que um dia irá casar.
Os anos passam e vemos como estão atualmente. Pedro, já com 27 anos, continua as lides da lavoura na casa do pai sem se preocupar com casamentos e outras coisas complicadas até que um dia ouve Clara cantar no riacho enquanto lava roupa.
Daniel regressa formado em medicina, pronto a exercer na aldeia, e é apresentado à noiva do irmão e à sua irmã, Margarida. Enquanto Margarida, de personalidade mais tímida, mas não menos forte e decidida imediatamente relembra as suas tardes com Daniel enquanto andava com as cabras nos montes, este nem se lembra da sua paixão de infância, e pior, cria-se nele a impressão de que está apaixonado por Clara, o que leva a muitos constrangimentos e tristeza para Margarida.
A partir do regresso de Daniel muitos acontecimentos se dão. Mas no final tudo acaba como eu já previra no início do romance.
Gostei bastante dos personagens, principalmente de Margarida e do seu bom carácter. O reitor também é uma personagem de mente aberta, apesar da idade e de a sua função de padre na altura, finais do século XIX, poder ser propensa a uma mente mais tacanha e a beatices, não é isso que sucede. É aliás uma pessoa muito inteligente e que se apercebia do que se passava ao seu redor e preocupava-se muito com as suas pupilas, Margarida e Clara.
Pedro, apesar de ser um personagem importante, acaba por quase passar por despercebido na história.
Um bom romance, como os outros que já li de Júlio Dinis.
I recently saw that this year is the 150 anniversary of the death of Júlio Dinis, and after seeing an enjoyable review by Célia, with a link to images of the time, it was time to tackle this well respected Portuguese author.
I quite enjoyed this book. It’s a sentimental but a very charming romance. Written in 1863 and published in 1867, it tells the stories of two brothers and step sisters living in rural Portugal.
Young Daniel is smitten with a Margarida (Guida’s) singing but the village priest intervenes. Daniel’s father decides to send the boy to study medicine while the older boy Pedro, will follow in his father’s steps, as a farmer.
After losing her mother, Clara is now step sister with Guida. Pedro asks for Clara’s hand in marriage when Daniel returns home, now as a doctor. However Daniel seems more interested in Clara, but that is just his “big city” influence as a libertine. Clara seems to do no wrong. Let’s just say the rural people scrutinized their every move and Daniel is in the hot seat; Guida lives with rejection.
Now where does the village priest, Senhor Reitor fit in? Apart from his teaching and spiritual guidance, he is man of morality and, well, match-making. He wields a lot of power. And a few laughs along the way.
Dinis weaves together a classic tale of love with all the accidents, bumps and mis-informed lovers. One could say the simple life has its charms and it’s faults. And that makes for an enjoyable story.
I must point out in my e-book edition (Apple books) there is a great introduction to the author, which I knew almost nothing. Sadly Dinis died at age 31, leaving the literary world only a handful of book. This will not be my last.
As Pupilas do Senhor Reitor é, talvez, o livro mais famoso e mais readaptado do escritor portuense Júlio Dinis. Publicado em folhetins em 1866, esta história passada numa aldeia portuguesa inominada foi ilustrada pelo artista Roque Gameiro em 1904 e 1905. Segundo Roque Gameiro, que percorreu o norte do país para procurar a paisagem adequada ao enredo, a ação teria lugar em Santo Tirso. Deixo algumas das esmeradas ilustrações de Gameiro, que sem dúvida me ajudaram a visualizar este romance soberbo. Tratando-se do terceiro livro de Júlio Dinis que leio este ano, começo a sentir algum cansaço face a um certo estilo de narrativa e a certo conteúdo temático (uma espécie de puerilidade que percorre todo o enredo). No entanto, se a primeira metade do livro considerei algo enfadonha, a segunda recordou-me do porquê de apreciar tanto as tramas do autor.
Este romance conta a história de duas meias-irmãs, Margarida e Clara. Quando ficam órfãs, o reitor da aldeia toma-as sob sua proteção. Ainda que financeiramente independentes, são as meninas dos olhos do reitor, e com ele realizam projetos de caridade, ensinam crianças a ler, levam conforto aos moribundos e etc. Gozam, portanto, da alta estima do povo da aldeia, malgrado sejam as duas muito diferentes.
Clara é alegre, espontânea e imprudente. O seu coração leve impede-a de se proteger de possíveis maldades alheias, e acaba metida numa grande confusão quando, já noiva, acaba por se colocar em situações comprometedoras com outro rapaz da aldeia. Quanto a Margarida, sinto ter já experienciado este espírito feminino noutras obras do autor. Tanto Jenny, de Uma Família Inglesa, como Berta, de Os Fidalgos da Casa Mourisca apresentam as mesmas qualidades. Próxima da canonização, Margarida é abnegada, perdoa facilmente e vive uma vida de recato. Pratica caridade, é adorada por crianças, velhos e moribundos, e é uma espécie de santa da aldeia, sendo inclusivamente assim apelidada por outras personagens em vários trechos. Esta santa, que se sacrifica para limpar a honra da irmã estouvada, é um tipo de mulher que Júlio Dinis parecia muito admirar, e que me suscita algumas reflexões. Primeiro, antevejo um laivo de romantismo nesta figura idealizada: ninguém é tão perfeito, tão doce, tão ponderado, tão apto a deixar-se sofrer e prejudicar, como as Jennys, as Bertas e as Margaridas desta literatura. Por outro lado, agrada-me a ideia, também exposta noutros romances do autor, de que os nossos protagonistas – por muito que amadureçam, por muito que se regenerem, nunca chegam realmente a “merecer” este tipo de mulher. E de facto há uma aura de etéreo em torno destas jovens, penso que talvez por Júlio Dinis ter perdido a mãe muito cedo, e por isso as mulheres terem sido para ele, quem sabe, uma entidade mística de superioridade moral, a salvo da inconstância masculina.
Gosto sobretudo do retrato de Portugal que, apesar de sitiado nos anos 60 do século XIX, me parece ainda muito recente. Nesta aldeia as mulheres e crianças passam necessidades enquanto os maridos desperdiçam a pouca renda na taberna. O padre é uma entidade espiritual, mas também moral, e há sempre quem o siga de olhos vendados: é ele quem manda os homens para casa, entregarem os parcos soldos à prole. Como as aparições de Lourdes tinham tido lugar em 1858, causando com certeza grande impressão na sociedade portuguesa, havia mulheres que buscavam essa santidade pelo caminho da sacristia e da beatice. Aqui o autor deixa uma mensagem clara: a bondade, a santidade, são coisas distintas da devoção religiosa, o que me sugere que observava com ceticismo os costumes da época. O que não apreciei neste livro foi, uma vez mais, a volatilidade dos sentimentos da personagem principal masculina, a leviandade com que professam o amor. Em Uma Família Inglesa, Charles é um estouvado até conhecer a jovem mascarada, e a partir daí redime-se sem mais. Em Os Fidalgos da Casa Mourisca é Maurício, uma personagem secundária, quem morre de amores pela nossa protagonista, e de repente esquece-a sem hesitar. Por fim, neste romance, é Daniel quem, depois de escrever versos a outras raparigas da aldeia, e de cercar Clara por não conseguir esquecer-lhe os modos alegres e os olhos negros, descobre que afinal o seu coração pertence a Margarida, à Margarida a quem nunca dedicou uma palavra em três quartos do livro. Resumindo: fiquei emocionada quando ele lhe retribuiu o seu amor de juventude, foi por isso que terminei o livro de um ápice. Porém, não pude deixar de concordar quando ela própria declara que em breve a afeição dele esvoaça para outra moça, os sentimentos deste médico da cidade não são de fiar, e isso desgosta-me neste tipo de romance, porque recai mais no romantismo de décadas anteriores do que no realismo que o autor se propôs a adentrar. O amor tudo redime, e o casamento é final feliz garantido.
De qualquer modo, recomendo vivamente, mesmo pelas gargalhadas que certas cenas me provocaram. Romance incontornável na literatura lusófona.
Deixo link para as ilustrações completas de Roque Gameiro numa edição antiga do romance, bem como estudos para as mesmas. Lindíssimo!
Eça de Queiroz disse sobre Júlio Dinis “As suas aldeias são verdadeiras, mas são poetizadas: parece que só as vê e as desenha quando a névoa outonal esfuma, azula, idealiza as perspetivas.”Era sobretudo um paisagista, disse ele.🎨
Eu sempre tive livros de Dinis em casa, desde que me lembro. As minhas antepassadas legaram-me livros de Dinis, Camilo Castelo Branco, Pessoa e Eça. Mas nunca tive particular interesse em pegar neles. Creio que os primeiros pertencem a uma literatura romântica que não acreditava que me fosse prender. Recentemente, tenho estado numa vaga de leituras mais leves, otimistas e que me façam acreditar na beleza da vida.💞
A estreia com Dinis não correu mal de todo. Li “As pupilas do senhor reitor” com uma atenção redobrada, a que a própria edição da Guerra e Paz, com magníficas ilustrações de Roque Gameiro terão contribuído para a experiência positiva.
D.Luís, irmão de D.Pedro V e filho de D.Maria II e D.Fernando ( o mesmo que esteve por detrás da história do palácio da Pena), teve um reinado próspero, cujas décadas de 1860, 1870 e 1880 são, para a maioria das pessoas, o sinónimo do esplendor do século XIX em Portugal.
“Quando um dia a máquina agrícola fizer ouvir nas aldeias portuguesas o silvo estridente do vapor; quando a força prodigiosa das suas alavancas, o movimento das suas rodas gigantes e complicadas articulações dispensar o concurso de tantos braços, nestes trabalhos rurais; quando a musa pastoril, resignada, trocar as vestes primitivas, por a blouse do artista e esquecer as antigas cantilenas para aprender as canções das fábricas; lembrar-se-ão com saudade das esfolhadas os felizes que as puderam ainda gozar.”🌻
Isso refletiu-se na escrita de Dinis, extremamente pueril, caraterizada por um mundo cor-de-rosa, onde as pessoas se regem por princípios de bonomia e integridade moral e psicológica. Este senhor, que poucos anos viveu devido à sua condição de tuberculoso, inicia com “Pupilas do senhor Reitor” uma história que eu chamaria de…portuguesa.❤
Narrativa que decorre numa aldeia do interior, para os lados do Ovar, concilia a vida das gentes simples do campo, as raízes populares das cantigas, a labuta diária dos camponeses, a desfolhada e as festas populares. O reitor, tutor das nossas protagonistas, Margarida e Clara, duas irmãs com caraterísticas tão diferentes, é a força moral da história, o elo singular que concilia o cenário dos bastidores, da gente rural e a intriga familiar de Daniel e Margarida.💞
Uma história que roça o humor, que concilia o belo da História portuguesa, provavelmente inocente demais em algumas partes mas que não deixa de ser, ainda assim, uma história admirável e fofinha de se ler. De umas das maiores vozes da literatura portuguesa.✨
Dou por mim a pensar, cada vez mais, porque é que existe este “mito” sobre os clássicos portugueses de que são entediantes e um bicho de sete cabeças para ler. Porque a verdade é que constato que se trata apenas disso mesmo… de um mito! “As Pupilas do Senhor Reitor” foram a minha estreia com Júlio Dinis, a qual gostei muito! Gostei, acima de tudo, da escrita despretensiosa, da proximidade do autor com o leitor (acho delicioso que Júlio Dinis converse directamente com quem o lê) e da caracterização da vida numa aldeia do interior norte de Portugal. Gostei particularmente do humor!
Apesar de ter sido o livro de maior sucesso do autor, não me parece tão bem conseguido como: A Morgadinha dos Canaviais. Conforme o enredo se vai aproximando do fim, começa a faltar credibilidade à relação de Daniel e Margarida, torna-se sentimentalmente desequilibrada, com prejuízo para a personagem feminina. De assinalar também a presença no livro, de uma das mais famosas personagens da literatura portuguesa, João Semana, que José Malhoa pintou.
Peca pelo desfecho meio enxovalhado, mas não deixa de ser uma leitura muito agradável, principalmente devido à caricatura muito assertiva do povo coscuvilheiro.
Ora bem, está na altura de o abandonar porque já notei que estou a forçar-me para o ler e não vale a pena. Não dá, não dá. Havia partes que gostava, outras nem por isso. A linguagem foi assim uma pequena chapada, porque já não estou habituada de todo a ler algo assim, não facilitou a sua leitura. Outros haverão de o ler e gostar.
4,5* Primeira obra lida do autor, um clássico da literatura portuguesa. Gostei muito da sua forma de se dirigir ao leitor, fez-me lembrar a escrita de Machado de Assis. O livro retrata-nos a realidade das aldeias do interior português do séc. XIX com uma inocência um pouco exacerbada e que não seria bem assim. Gostei imenso do padre acutilante, interventivo e bem inserido na comunidade. Para mim a personagem principal deste livro que conduz toda a história e o seu desfecho. Li uma edição posterior e ilustrada pelas aguarelas de Roque Gameiro, um artista que descobri por acaso num passeio em Minde onde hoje podemos visitar a casa-museu com as suas obras.
Gostei imenso deste livro, principalmente porque não estava à espera que fosse tão divertido nem escrito num tom tão alegre. Adoro a forma jovial com que Júlio Dinis escreve, com uma simplicidade ternurenta e um tom brincalhão.
É difícil associar este despreendimento e alegria na escrita a uma pessoa que passou tanto tempo da sua vida doente.
«Há poucos momentos de mais felicidade para mim do que aqueles em que me absorve a atenção a composição de um romance.» ( ~Júlio Dinis) «Hoje, a única maneira de minorar os sintomas morais da minha doença é andar com a cabeça pelos mundos da imaginação.» ( ~Júlio Dinis)
Júlio Dinis retrata-nos a sociedade da época de forma maravilhosamente relaxada - todo o conservadorismo aliado às intrigas que se geram numa comunidade pequena, as más interpretações que podem levar a fofocas que se espalham por todo o lado. Mostra-nos a importância da fachada e das aparências na época. A forma rápida como os coscuvilheiros e interesseiros mudam a sua opinião e a velocidade com que construíam ou destruíam reputações alheias.
A história é, de certo modo, imprevisível, carregada de dramatismo e situações hilariantes e caricatas.
Neste romance bucólico, Júlio Dinis conta a estória dos amores e desamores de Daniel, e de como põe toda a aldeia em alvoroço. Com uma escrita simples mas de qualidade, arrasta-se um enredo expectável e sereno que serve mais como caracterização da vida campestre da época que como romance.
Diria que o maior defeito deste livro é precisamente a sua previsibilidade. Não há grandes reviravoltas, nenhum desenvolvimento chocante; mas ainda assim, é uma obra agradável, pese a ter partes mais aborrecidas. Longe de ser dos meus livros favoritos, mas vale a pena a leitura.
Uma história com personagens estremamente bem desenvolvidas, com peripécias e acontecimentos que nos fazem refletir sobre a vida nos meios pequenos. Mais uma história brilhante de Júlio Dinis.
O clássico de Júlio Dinis é uma bonita história de paixões no meio rural, adornada com personagens fortes e idiossincráticas (como, aliás, é típico nos grandes clássicos da literatura portuguesa) e algumas reviravoltas.
Ainda que um clássico, o livro sabe a uma daquelas leituras leves de Verão. A escrita não é extraordinária, mas também se adequa ao público-alvo e à história. A história tem um enredo bem construído, mas bastante simples e linear (quem diria que se trata de um livro de 300 páginas). As personagens, essas parecem simples caricaturas mas dotadas de uma profundidade impressionante (uma verdadeira lição para escritores mais modernos que só sabem escrever complicações para dotar as suas personagens de alguma profundidade).
Não posso dizer que tenha ficado rendido à história de Pedro e Clara, e Daniel e Margarida (e as paixões trocadas que aqui acontecem). Não posso dizer que tenha ficado rendido à escrita de Júlio Dinis. Guardo sim na memória e quão apaixonado fiquei quando li há muitos anos “Uma Família Inglesa” (já não me lembro do que li, mas ficou o sentimento). Ainda assim, para leituras de Verão, continuem a vir os Júlios Dinises em vez do que por aí se escreve hoje.
Fiquei agradavelmente surpreendida pelo tom coloquial e simples com que este livro estava escrito, considerando que os contemporâneos ingleses têm uma escrita tão formal e trabalhada. Este lia-se quase como uma conversa, sem qualquer dificuldade. Também gostei do foco da narrativa, onde se apresenta algo mais próximo da "classe média" do que alguma vez se encontra nos livros ingleses, e os protagonistas não têm nada a ver com aristocratas ou ricos. Quanto à história em si, é uma coisa simples, sem grandes surpresas, que vai exactamente para onde se esperava quase sem sobressaltos. Foi uma leitura leve e agradável, mas não me deixou uma impressão muito marcada.
"As Pupilas do Senhor Reitor" de Júlio Dinis é uma leitura totalmente distinta do meu curto histórico literário. Logo no início do livro, sentimo-nos transportados para tempos antigos, com palavras desconhecidas na narrativa e expressões nunca ouvidas nos diálogos, o que dificulta a compreensão e a leitura. Apesar disso, chegados a certo ponto da história, sentimo-nos já habituados à linguagem e até, de certa forma, apaixonados por aquela mais virgem língua portuguesa. A determinada altura, escreve o Autor: "Clara não se fartava de rir" - eu, que costumo dizer que alguém se "farta de rir", encontrei aqui enorme sentido, pois se a pessoa se fartasse de rir parava, mas não se fartando não pára. Damo-nos também conta que sustemos o riso com certas manias e teimosias de personagens que já conhecemos como se de nossos familiares se tratassem. É assim, com esta linguagem de época e desta forma divertida, que Júlio Dinis nos apresenta, falando de quando em vez directamente para nós, leitores, as gentes da aldeia daquela época. Parece que o povo lusitano não mudou assim tanto em 150 anos: o mesmo povo intrometido e cochicheiro, mas também alegre e sempre pronto a ajudar o próximo. São-nos apresentados como personagens principais dois pares de irmãos, dois irmãos e duas irmãs, e ambos entre si incrivelmente distintos: Pedro, alto e corpolento com grande gosto pelo trabalho no campo, Daniel, mais baixo e franzino e verdadeiro intelectual, Margarida, rapariga triste e de vida difícil e Clara, alegre e despreocupada. Daniel, desde cedo, revelou o seu desinteresse pelo trabalho no campo e foi por sugestão do Sr. Reitor que começou a estudar para padre. Acontece que, ainda criança, conhece Margarida e percebe logo o Sr. Reitor a falta de vocação de Daniel para o destino que lhe era traçado. Assim, Daniel acaba por ir estudar para a Cidade, a bela Invicta, de onde volta de diploma em punho, médico formado, como o Autor que o criou. Já Margarida ficara durante todo esse tempo sem o seu amigo de infância, tristeza que juntou à sua difícil vida de "Cinderela", escravizada pela sua madrasta, ainda que auxiliada pela sua meia irmã Clarinha. Mais sobre a história deste quarteto não irei contar. Deixo-vos apenas a apresentação. Personagem também de destaque é, claro, o Sr. Reitor, que nos acompanha em todos os capítulos, aconselhando as suas pupilas, Margarida e Clara, e os filhos de José das Dornas, Pedro e Daniel. É uma história simples, mas que, retratando tão bem o povo português e sendo um clássico, deverá fazer parte de qualquer biblioteca :)
Eça é um dos meus amores e Júlio Dinis tornou-se outro.
Desde pequena que a minha avó me falava de ler As Pupilas do Senhor Reitor e desde pequena que sempre quis ler.
ADOREI! A narrativa é maravilhosa e muito cómica em certas partes, as personagens são realistas pois têm os seus defeitos. Gostei imenso de nunca saber se ia acabar como eu queria ou se ia haver desgraça (muito cómica devo acrescentar).
Livro fantástico, com muito humor e um final muito feliz.
Júlio Dinis merece mais atenção por parte dos leitores. A sua escrita é elaborada mas de fácil compreensão, as suas personagens são reais, tendo as suas virtudes mas também alguns defeitos. Este livro foi absolutamente fantástico.
Personagens moralmente corrompidas. Acção alimentada a mexericos e intrigas. Escrito a pensar nos aplausos das multidões degradadas. O autor é Júlio Dinis, mas, pelos modos, poderia ser Júlio Dantas.
Tenho alguma reticência aos clássicos literários dos autores portugueses de outrora e estou certo que este sentimento foi motivado pelos tempos de escola, altura em que éramos obrigados a ler tudo menos aquilo que realmente nos interessava. Agora, passados já uns bons anos, as surpresas acontecem. E que bela surpresa esta obra de Júlio Dinis, a primeiríssima que leio do autor e, certamente, não a última.
O romance, publicado em 1866, apresenta-nos personagens em situações típicas de uma aldeia portuguesa do séc. XIX. Desde a donzela orfã que sofre de amor, passando pelas intrigas e coscuvilhices dos habitantes do local, até ao rapaz que, renunciando à carreira eclesiástica, é enviado para a cidade para mais tarde voltar e instalar a confusão. Ok, ninguém morre de tuberculose… mas até aqui nada de novo, certo?
O que me fez gostar bastante desta leitura está relacionado com a capacidade de Júlio Diniz criar personagens cuja ironia bem humorada é uma constante. O reitor, por exemplo, é uma personagem que apesar do moralismo característico da época e da função que desempenha enquanto padre, apresenta uma personalidade engraçada, muito despachada e nada tacanha. Sem dúvida uma figura de relevo em toda a trama. Os diálogos são bem construídos e nada enfadonhos. De uma hora para a outra, somos transportados para aquele local e, na presença daquelas pessoas, passamos a assistir a tudo de camarote.
As 5 estrelas só não aconteceram porque achei o final apressado. De qualquer maneira, gostei bastante e recomendo a sua leitura, sem hesitações.
O estilo de Júlio Dinis, embora de um nível inferior, pode ainda assim comparar-se ao de Eça de Queirós. "As Pupilas do Senhor Reitor" é uma obra bucólica, romântica, de leitura fácil, escrita de forma simples e com humor. A história, que nos leva a reflectir sobre os diferentes tipos de amor (entre pais e filhos, irmãos, professores e alunos, e namorados), é interessante e imaginativa.
Este é o primeiro livro que leio de Júlio Dinis, aliás este é o primeiro livro que leio de um autor clássico português (não sei bem que o poderei chamar assim). O livro é leve e simples, mas muito bem escrito, com uma história que achei realmente bonita e de que nos faz ver as diversas formas do amor.
Embora perceba que talvez hoje o livro não seja muito crítico, acredito que à data da sua publicação foi visto de forma diferente. Por outro lado devo dizer que se em algumas coisas a nossa sociedade parece estar a anos-luz da representada no livro. Por outro lado, o destaque dados aos mexericos e fofoquices continua muito actual na vida das nossas aldeias, aliás mesmo nas nossas cidades.
Acho que este livro me abriu uma porta para começar a explorar a literatura portuguesa de finais do século XIX.