Ao longo dos tempos, a História tem sido registada, escrita, analisada, comentada e, em boa verdade, dominada pelos homens. Por que razão as mulheres permitiram - e muitas vezes encorajaram - uma tão flagrante distorção da realidade? Se hoje em dia sabemos que as mulheres são perfeitamente capazes de levar a cabo todas as tarefas tradicionalmente desempenhadas exclusivamente pelos homens, se o ser do sexo feminino é tão provido de génio criativo quanto o ser do sexo masculino, se, ao contrário do que foi apregoado durante séculos, o cérebro feminino e o masculino se completam em vez de se excluírem mutuamente, como explicar o facto de as mulheres, na sua esmagadora maioria, se terem mantido arredadas dos centros de decisão, remetidas a um recatado silêncio e a uma inércia e submissão insondáveis, ao longo de milénios? E, apesar do obscurantismo a que o género feminino foi votado, apesar das perseguições, das repetidas humilhações, da violência e da incompreensão, como explicar a ação de mulheres que, mesmo em turbulentos e muito pouco propícios momentos da História, quebraram rígidas regras e severas leis, soltando-se da servidão e revelando-se em toda a sua grandeza e glória, por vezes?
Helena Vasconcelos nasceu em Lisboa e cresceu na Índia - em Goa - e Moçambique. Tem vivido, com algumas interrupções, em Portugal. Escreve para o jornal Público e para a revista ELLE. Dedica-se à promoção da leitura em colaboração com bibliotecas, universidades, a Culturgest e a Fundação Calouste Gulbenkian, entre outras entidades. Ganhou o Prémio Revelação do Centro Nacional de Cultura com o livro de contos Não Há Horas para nada. É também autora de uma monografia dedicada a Mário Eloy.
Se, à semelhança de Lisístrata e das mulheres de Atenas no famoso texto de Aristófanes, escrito 400 anos a.C., as mulheres, para além de greve ao sexo, se abstivessem de trabalhar, de tomar conta da casa e dos filhos, de tratar dos pais, mães e outros familiares a seu cargo, se decidissem cruzar os braços nem que fosse por uns minutos, o País, pura e simplesmente, pararia com elas. Convém que não esqueçamos este facto.
Helena Vasconcelos é uma das exemplares mulheres portuguesas que vivem para excisar preconceitos. A mesma voz que apelidou Trump de «palhaço sem graça e assustador» quando tudo aquilo que agora vivemos não passava de uma piada de mau gosto e ainda vinha longe o glitch no nosso matrix (a realidade, afinal, revelou-se ainda mais assustadora do que um simples deja-vu), é uma mente permanentemente ocupada com as implicações de uma viragem, direi mesmo, de um recuo civilizacional. E, embora Humilhação e glória seja anterior a esse momento, é precisamente nessa corrente (despreconceituosa e apostada na evolução social) que se insere. Desligado do discurso académico e mais voltado para uma perspectiva pessoal, prima pela abordagem sociológica e pelo constante procurar de um paralelismo entre o presente e os caminhos que nos trouxeram até ele, fazendo a ponte entre Portugal e o ocidente nas questões ligadas à história das mulheres. Cronológica e tematicamente organizado, é um livro que rebusca os estudos femininos, desde o século XVIII, com Wollstonecraft, terminando no antifeminismo de Paglia, já em pleno século XXI e se espraia por temas como Mulheres e cidadãs, A ascensão segura das mulheres de letras (onde se alonga sobre a obra de Germaine Greer, Virginia Woolf ou Simone de Beauvoir), O círculo das Belas-Artes e Em nome da ciência (onde se contam, em grande destaque, a vencedora do pulitzer, Natalie Angier, e Helen Fisher, antropóloga votada à biologia humana), dedicando ainda um capítulo inteiro ao Corpo das mulheres, numa dissertação sobre amor, sexo, aborto, biologia e genética:
É difícil compreender que alguém (do sexo masculino ou, mais estranho ainda, do sexo feminino) não queira que as mulheres sejam protegidas no caso de uma gravidez indesejada. O que as campanhas antiaborto proclamam, na sua essência, é que a mulher, ao engravidar, mesmo intencionalmente, deixa de ter um direito que, à partida, todos aceitam, em princípio, como garantido, isto é, o direito de planear a sua vida e de pôr em prática as suas escolhas. Nas palavras de Joan Smith, ao recusarem (o aborto legal) «...estão a negar à mulher o seu estatuto de ser humano independente, forçando-a a voltar para um estado infantil e subserviente no qual outros, por ela, tomam as decisões sobre aquilo que ela quer ser e fazer».
Para fundamentar a sua tese, que visa responder a duas perguntas principais (Porque é que as mulheres demoraram tanto a tomar as rédeas das suas existências? e O que é as impediu de mostrarem, em pleno, todos os seus dons e capacidades? Porque se deixaram humilhar e dominar?)*, Helena Vasconcelos não se coíbe de chamar os bois pelos nomes. Desde logo, Darwin e os doutos homens da ciência vitoriana são chamados à barra. George Savage (o médico que proibia Virginia Woolf de escrever) e Isaac Baker Brown (ginecologista) são dois dos visados para demonstrar como a sujeição feminina tem sido um modelo concertado de comum acordo, feito de vilipêndio, da complacência masculina e do jugo socialmente aceite do "forte sobre o fraco" (nem sempre só masculino sobre feminino):
Dr. Isaac Baker Brown, membro da eminente Sociedade de Obstetricia de Londres, convencido de que a loucura era causada pela masturbação, fez carreira na prática da excisão do clítoris a inúmeras mulheres(.)entre 1859 e 1866, operou mulheres e meninas, epiléticas, deficientes motoras e deficientes mentais e até mulheres com problemas de visão. Entusiasmado com o sucesso, aventurou-se a operar esposas que tinham ousado pedir o divórcio e que, depois da sua intervenção, voltavam humildemente para os maridos.
Terminando com um capítulo intitulado Misoginias, no qual se debatem a mitologia cristã, os doutores da Igreja, Gil Vicente e D. Francisco Manuel de Melo, Catarina da Rússia, Shakespeare, George Sand e Amis - pai e filho -, Humilhação e glória leva-nos num périplo pelo obscurantismo histórico a que as mulheres são frequentes vezes votadas, recuperando não só figuras que marcam a evolução da condição feminina ao longo da história, como o contexto político, filosófico e cultural que as vê nascer, desvendando para o leitor a fina teia de influência social que assenta sobre a desvalorização e a autonomia femininas:
Intrinsecamente ligadas às forças do Mal, as mulheres foram, durante séculos, sistematicamente perseguidas, reprimidas e remetidas para um lugar secundário e por vezes perigoso para a sua própria saúde e sobrevivência. Gabadas ou vilipendiadas em igual medida, com palavras de adoração e de apreço ou de escárnio, indiferença e até ódio, as mulheres têm sido catalogadas com base em preconceitos originados por dogmas religiosos e por normativas sociais.
O caminho que justifica a tese de Helena Vasconcelos faz-se, portanto, a partir dos primeiros textos em defesa da mulher e dos subsequentes movimentos sufragistas e feministas (sem esquecer as primeiras convenções contra a escravatura e a favor dos direitos das mulheres), passando pelas pioneiras republicanas, a onda de choque dos anos 60/70 - e, em Portugal, a libertação de Abril -, a Declaração Universal do Direitos Humanos e terminando, finalmente, na atual (e não ainda completa) mobilização feminina.
É a nossa vez de demonstrar quão melhores somos a administrar os «bens» morais, físicos, materiais, afetivos - que estiveram durante tanto tempo tão longe do nosso alcance.
Fruto de uma incursão na ensaística e com tonalidade de manifesto, Humilhação e glória é um contributo generoso (e já não tão recente assim) para a história das mulheres em Portugal e uma tentativa de incorporar a interdisciplinaridade num campo de estudos cada vez mais badalado.
De notar que, ao contrário do que foi estabelecido ao longo de séculos, os especialistas na matéria acham que as mulheres são melhores a criar e a dirigir e os homens são melhores a desenvolver e a executar. Quer dizer, portanto, que o mundo seria muito melhor, mais equilibrado e pacífico se as tarefas fossem inteligentemente repartidas, isto é, se os papéis tradicionais se invertessem: em vez de ser o homem a mandar e a mulher a obedecer, tería sido muito melhor o contrário, o que constitui um aviso sério à navegação nas águas, por vezes turbulentas, do poder instituído.
*As perguntas de Helena Vasconcelos continuam com «Será possível manter e melhorar o estatuto atual da mulher ocidental? Finalmente, qual a importância do legado das figuras femininas sobre as quais me proponho falar?».
Encontrei este livro na Feira do Livro de Lisboa, num daqueles caixotes de promoções onde os livros se empilham uns nos outros. Estava muito escondido, lá no fundo, semi tapado por outros títulos. No mesmo caixote, em destaque, um livro intitulado "As mulheres deviam vir com livro de instruções". Este pequeno momento exemplifica perfeitamente o motivo por que a temática que Helena Vasconcelos aborda é absolutemante necessária e atual, servindo este "Humilhação e Glória" como uma espécie de introdução ao feminismo e um ponto de partida para explorar o porquê e o como tem sido levado a cabo o silenciamento da mulher ao longo da história, mas também o porquê e o como ela tem levado a cabo a luta por se fazer ouvir, pela igualdade. São-nos dadas ainda a conhecer algumas mulheres mais ou menos conhecidas que desempenharam papeis importantes nas mais diversas áreas. Tudo regado por uma escrita fluida e uma ponta de humor que facilmente nos levam a esquecer que se trata de uma tese académica.
No final, "As mulheres deviam vir com livro de instruções", escrito por um homem, custava três vezes mais que "Humilhação e Glória", outro sinal da disparidade masculino-feminino existente na nossa sociedade. Neste caso, pode ser que funcione a favor, levando mais pessoas a comprar o livro de Helena Vaconcelos.
"Quando as mulheres se queixam - e com razão - de que acumulam tarefas e que a 'falta de tempo' é um inimigo constante que contraria as suas legítimas ambições e desejos, é possível - e isto é apenas uma hipótese - que isso aconteça porque a dinâmica das suas vidas, que evoluiu e se modificou consideravelmente, não está em consonância com a estrutura de base, com as 'fundações' da arquitetura familiar, onde se perpetuam rituais, hábitos e tiques que pertenceram a organizações sociais muito diferentes e distantes no tempo. (...) Quando as mulheres se lamentam da falta de tempo é porque continuam a desempenhar, em termos estereotipados, os papéis de 'esposas', de mães, de donas de casa (...) e, simultaneamente, assumem outras tarefas, trabalham, estudam, investigam, tomam parte na vida cívica e política, acumulam funções sem contar com o tempo de lazer e divertimento a que, obviamente, têm direito."
Apesar de ser um ensaio, o que torna logo este livro um tanto-quanto académico, Helena Vasconcelos tem uma escrita muito fluída e dei por mim a lê-lo tão bem como se de uma história se tratasse. Terminei o livro a saber muito mais e com os olhos bem mais abertos para aquilo que é a luta do sexo feminino ao longo dos tempos sobre coisas tão simples como sair à rua.
esteve dois anos na estante simplesmente porque eu tinha medo que fosse demasiado académico e com uma linguagem difícil de compreender.
mas estava enganada!
vejo este livro como uma introdução ao feminismo, e nomeadamente à história de algumas mulheres que tiveram papéis importantes nesta luta. a escrita é simples e fluida. a palavra “ensaios” pode assustar, mas é um livro muito fácil de ler, e podemos ainda de usufruir de um pouco de humor e ironia por parte da autora.
aprendi coisas como o início da perda do poder das mulheres, quando os homens se sedentarizaram e investiram na agricultura; o facto de há alguns anos se acreditar que a educação e cultura poderia desencadear doenças na mulher, como a histeria e anorexia nervosa; e que só na segunda metade do século a Ciência veio comprovar que as mulheres não são débeis mentais.
o que mais gostei foi conhecer melhor as primeiras feministas portuguesas e o seu papel no início desta luta no nosso país. é um bom livro para quem gosta de biografias, pois temos um cheirinho sobre várias mulheres como Ana de Castro Osório, Carolina Beatriz ngelo, Carolina Michaelis ou Domitila de Carvalho. Foram escritoras, professoras, cientistas, políticas, e foi tão bom conhecer melhor cada uma delas.
a autora também faz referência a várias mulheres conhecidas internacionalmente como Virginia Woolf, Mary Wollstonecraft e Marie Curie, entre muitas outras. no entanto senti falta de referências a mulheres negras importantes nesta luta como Angela Davis, Maya Angelou, Audre Lorde ou Bell Hooks e não encontro motivo para não terem sido incluídas.
apesar deste aspeto menos positivo, adorei esta leitura e terminei-a com muito mais cultura geral, principalmente no que toca à luta pela igualdade destas nossas conterrâneas.
não conhecia a autora, Helena Vasconcelos, mas já que este livro celebra mulheres portuguesas, falemos também desta nossa jornalista, escritora e promotora de leitura!
só para terminar, se ainda não ficaram convencides apenas pelo tema que o livro aborda, desafio-vos a irem ver quanto custa, em euros, adicioná-lo à vossa estante. 🤭