Há já uma semana que acabei de ler o livro do escritor chileno Luis Sepúlveda, mas só hoje é que me atrevi a escrever um comentário acerca do mesmo, pois o arrastar do confinamento para mim, que amo a liberdade acima de tudo, tem-me impedido de ter as ideias claras e de as transpor para a escrita. E, infelizmente, Luis Sepúlveda, que teria tanto ainda para escrever, faleceu no ano de 2020, vítima da doença que obrigou a transformar a vida da maioria dos habitantes deste planeta, para o bem e para o mal.
Gostei imenso do livro "Diário de um Killer Sentimental", constituído por três contos policiais, o primeiro que dá o título ao livro, e por outros dois a que o escritor chamou de "Jacaré" e "Hot Line", que foi publicado pela primeira vez no ano de 1996, o que parece já ter sido numa outra era.
Primeiro, porque o autor teve a capacidade de narrar três pequenas histórias em sítios tão distintos como Espanha, França, Turquia e México (o primeiro), Suíça, Itália e a floresta amazónica dos territórios do Perú e do Brasil (o segundo), e a região da Patagónia do Chile e a sua capital, Santiago do Chile (o terceiro), conseguindo no decurso das histórias descrever os sítios, as personagens e os acontecimentos, interligando-os uns com os outros e, ainda, abordar temas como o tráfico de drogas proveniente da Ásia e da América Central para os E.U.A., com passagem pelo México (o primeiro), o tráfico de peles de animais para a indústria têxtil, do calçado e dos seus acessórios na Europa e, consequentemente, o extermínio de tribos índias do Pantanal (o segundo), e, finalmente, o aparecimento de linhas telefónicas eróticas no Chile, no início dos anos 90 do século XX, que teve lugar com o fim da ditadura militar de Augusto Pinochet nesse país, cujos generais continuaram, não obstante, a ter ainda muito poder e a cometer crimes contra os exilados políticos que haviam, entretanto, regressado ao Chile.
Em segundo lugar, Luis Sepúlveda consegue a proeza de criar personagens interessantes, que nos ficam na memória. Até me fez simpatizar com um assassino profissional, contratado por avultadas quantias para matar pessoas, o que faz sem qualquer tipo de remorsos, mas que se apaixona perdidamente por uma jovem intelectual francesa, sentimento que vem interferir com a sua, digamos, "profissão".
Em terceiro lugar, aquilo de que tanto me faz gostar dos escritores latino-americanos, é o seu sentido de humor sublime, de que nestes contos policiais Luis Sepúlveda foi exímio, pois é capaz de, em temas de grande seriedade, introduzir elementos de uma graça genial, que nos fazem sorrir e rir, e que tornam as suas histórias inesquecíveis.
Vou ter muitas saudades de Luis Sepúlveda! Mas os livros que nos deixou e que pretendo continuar a ler, vão ficar até à eternidade!