Amy Bloom vocaliza de forma corajosa e assertiva a frustração, o medo, o cansaço, o desespero e a sensação de impotência que só pode sentir quem é ou quem foi cuidador principal de uma pessoa com uma doença terminal ou degenerativa, seja ela mental ou física.
Começo a barafustar contra o sistema de saúde americano, contra a nossa recusa em deixar as pessoas morrerem de um modo digno e confortável, contra o dinheiro que muita gente ganha à custa do sofrimento alheio, contra os médicos incapazes de enfrentar os seus próprios limites em prol das necessidades dos doentes. (..) Eu digo palavrões a torto e a direito, palavrões pouco imaginativos.
“Ninguém pode falar sobre isto”, digo. “Ninguém parece saber o que está a fazer. Não há, literalmente, forma de tratar a doença. A mais avançada investigação do mundo diz apenas: Comam a porra dos mirtilos. E vejam lá se dormem o suficiente.”
“Amor e Perda”, que ouvi narrado pela própria autora, provocou-me calafrios praticamente desde o início e levou-me a comprar o livro em formato físico e a relê-lo. É, ainda assim, um livro que traz consolo e paz por saber que Amy e o seu marido conseguiram aquilo que almejavam desde que receberam o diagnóstico de Alzheimer, cerca de três anos antes: que Brian conseguisse suicidar-se com ajuda médica antes de perder por completo a memória e as capacidades cognitivas, antes basicamente que a sua mente morresse muito antes do resto do corpo, deixando-o praticamente em estado vegetativo e induzindo aqueles que o rodeiam, como diz a autora de uma amiga, a desejar “que a pessoa amada se esqueça de como engolir”.
A escritora Amy Bloom estava casada em segundas núpcias com Brian Ameche, de 65 anos, há somente 13 anos quando este recebeu o diagnóstico peremptório de doença de Alzheimer, no fundo, a amarga confirmação das suspeitas da mulher. Brian era um homem afável, charmoso, activo, um arquitecto recém-reformado, um homem de causas como a Planned Parenthood, uma organização pró-aborto, que demorou menos de uma semana a decidir “que não queria sujeitar-se à “longa despedida” do Alzheimer”.
Às vezes, ponho-me a pensar que uma esposa melhor, decerto uma esposa muito diferente, teria dito que não, teria insistido em manter o marido neste mundo até que o seu corpo desistisse de existir. Parece-me que estou a fazer a coisa certa, ao apoiar o Brian na sua decisão, mas seria melhor e mais fácil se ele conseguisse tratar de tudo sozinho e eu fosse apenas o patinho obediente que seguisse atrás dele. Claro que, se conseguisse tratar de tudo sozinho, não teria Alzheimer.
Coube-lhe, então, a ela pesquisar na Internet uma forma mais ou menos legal, infalível e o menos dolorosa possível de Brian pôr termo à vida, num país onde só em alguns estados a morte medicamente assistida é permita a quem tem menos de seis meses de vida, depois de pelo menos duas pessoas chegadas se oferecerem para lhe dar um tiro “acidental” durante uma caçada e outra para lhe emprestar a garagem. Foi assim que acabou por encontrar a Dignitas, na Suíça.
Segundo os dados recolhidos pela Dignitas, 70% das pessoas que recebem a luz verde provisória nunca mais voltam a contactar a Dignitas: basta-lhes a certeza dessa possibilidade, a garantia da opção em aberto. Não foi o nosso caso.
Em “Amor e Perda” acompanhamos também esse processo até ao derradeiro momento, quando Brian bebe o pentobarbital de sódio de mão dada com a mulher, com vários flashbacks respeitantes aos anos felizes do casal e aos primeiros sinais de que algo não estaria bem. Amy Bloom é brutalmente honesta neste seu relato e, tal como não se coíbe de expressar o amor pelo marido e o sofrimento que a ideia da sua precoce partida lhe causa, também não se acobarda na confissão da exaustão mental que é conviver com uma pessoa que aos poucos deixa de ser independente e começa a perder a sua personalidade.
Todos os actos que impliquem a interrupção voluntária da vida são controversos e ferem susceptibilidades, mas pessoalmente faço minhas as palavras inequívocas de Amy Bloom:
Se pensas que uma vida longa é de grande valor só porque se trata do único tempo de que dispomos aqui na Terra, ou porque aprecias o que Deus te atribuiu, ou porque acreditas que pode existir a possibilidade de um tratamento, ou cura, para o que nos apoquenta na nossa vida, bastando para isso que o tempo de existência seja suficientemente longo – então, a tua visão é muito diferente da minha.
“Amor e Perda” é um livro tocante, que termina com um voto de casamento, uma promessa de amor eterno.
Sinto que ainda tenho mais coisas para lhe dizer, mas não consigo. Estamos de mãos dadas, encostados um ao outro, agarrados. Sussurro-lhe ao ouvido, Todos os dias da minha vida, e ele murmura, Todos os dias da minha vida.