A guerra entre Absolutistas e Liberais está ao rubro quando Vicente Maria Sarmento retorna a Chão de Couce, após receber a notícia da morte do pai. Mas esse regresso tem um sabor duplamente amargo; em Lisboa, onde viveu os últimos anos, Vicente Maria pertenceu a um bando de salteadores e esteve preso no Limoeiro, donde só saiu por obra e graça dos malhados, que assaltaram a cadeia para libertar os partidários de D. Pedro. Antes de seguir para casa da mãe, para sossego do corpo e do espírito, Vicente Maria dirige-se para a Venda do Negro, acabando a noite nos braços da puta Tomásia, que nunca esqueceu e a quem promete casamento e vida honesta. Contudo, o seu regresso reacende na vila antigos ódios e paixões e os seus inimigos estragam-lhe os planos. Não lhe resta, pois, senão juntar- se a um novo grupo de bandidos, esperando que as pilhagens lhe rendam o bastante para se pôr a milhas dali com a amada. Quem também se vê em apuros é D. Miguel, atacado por todos os lados, a quem as vénias dos corcundas já de nada servem. Projectado o assalto a uma família de fidalgos ricos em viagem, é numa curva da estrada que o bando intercepta uma carruagem, sem saber que os destinos de Portugal se jogam nesse preciso instante. E é pela ousadia de Vicente Maria que, afinal, se alterará o rumo da História, embora os livros injustamente o omitam. Com uma linguagem poderosa e um humor digno da melhor literatura picaresca, o presente romance é uma homenagem aos heróis anónimos que ajudaram a construir as respectivas nações e um fresco sublime das lutas liberais.
Paulo Moreiras nasceu em 1969, em Lourenço Marques, Moçambique. Publicou os romances «A Demanda de D. Fuas Bragatela» (2002), «Os Dias de Saturno» (2009) e «O Ouro dos Corcundas» (2011).
Sobre gastronomia e etnografia publicou «Elogio da Ginja» (2006) e uma série de opúsculos em colaboração com o Instituto de Estudos de Literatura Tradicional: o «BI da Cereja e da Ginja» (2007), o «BI do Palito» (2007), o «BI do Tremoço» (2008), o «BI da Perdiz» (2009), o «BI da Morcela» (2010), o «BI da Rede de Dormir» (2011) e o «BI da Fava» (2011).
Entre Setembro e Outubro de 2010, esteve na Ledig House International Writers Residence, em Nova Iorque. Desde Dezembro de 2009 é membro colaborador da equipa de investigação do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, Lisboa.