Luiz Pacheco era capaz das loucuras mais desapiedadas, mas também de actos de grande generosidade. Pessoa cheia de contrastes e incoerências, tinha uma enorme facilidade para relacionar-se com os outros e, depois, para cortar relações. Impulsivo e inconstante, aparecia e desaparecia de repente. Capaz de prescindir de tudo e de começar do zero, durante anos viveu em pensões manhosas, de onde muitas vezes era expulso por falta de pagamento. Era um especialista em dívidas e em não as pagar. Conheceu a miséria, o vício e a degradação. Gostava de estar perto dos marginais e das ovelhas ranhosas, porque com aqueles que não têm nada a perder conhecem- se melhor os labirintos da alma humana. Fundador da Editora Contraponto, conhecia bem o campo da edição e o meio das letras, onde fervilhavam as intrigas e as capelinhas, e contra tudo isso lutou, recusando-se a participar na engrenagem dos manejos literários. Desmascarou os falsos prestígios e maltratou alguns intocáveis da cultura. Alguns viam Pacheco como um apocalíptico, um herdeiro da tradição dos grandes inconformistas. Mas foi simultaneamente um produto do próprio meio literário. Capaz de aparecer nu no meio do Montijo ou de pijama no Largo do Carmo, no 25 de Abril, em torno de Luiz Pacheco criou-se uma lenda, histórias e boatos que circulavam e que quase nunca se incomodou em desmentir, porque, como alguém disse, essa era a melhor forma de chegar a génio.
JOÃO PEDRO GEORGE nasceu em Moçambique, a 13 de Fevereiro de 1972. Licenciado em Sociologia, Mestre em Sociologia Económica e Histórica e Doutor em Sociologia da Cultura, com a tese Luíz Pacheco: maldição e consagração no meio literário português, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde leccionou entre 1998 e 2008, como professor assistente convidado. É autor de obras como O Meio Literário Português (1960-1999), Não é Fácil Dizer Bem, Puta que os Pariu! A Biografia de Luiz Pacheco ou O Que é um Escritor Maldito? Estudo de Sociologia da Literatura. Em paralelo, depois de ter colaborado na imprensa (O Independente e Periférica), na secção de crítica literária, divide a sua actividade como tradutor, editor de textos, revisor tipográfico e ainda como escritor-fantasma, trabalhos que lhe permitiram, durante anos, viver exclusivamente da escrita.
Não tenho por hábito ler biografias, não que tenha algo contra o género, simplesmente nunca aconteceu. "Puta que os pariu!" será provavelmente a primeira e escolhi-a com base num só critério - animado pela entrevista da Anabela Mota Ribeiro quis saber mais sobre as peripécias do célebre Luiz Pacheco. Motivo aparentemente frívolo para transformar a leitura de uma curta entrevista num tomo de mais de 500 páginas, mas a promessa de picardia era demasiado atractiva.
Se até à data não li qualquer biografia que não esta, então nada do que aqui escrevo pode ser fruto de um objectivo, na medida do possível, estudo comparativo. Entrei portanto virgem e saí veterano de velhos deboches, por pessoa entreposta, está claro. É pois por instinto que presumo que a maioria das biografias seja ou hagiografia ou reportagem biográfica. O texto de João Pedro George, não fosse ele na sua génese uma tese de doutoramento, não pertence a nenhuma das categorias. George contraria a tendência, diagnosticada por António Guerreiro, de fazer da biografia "a biografia" e não "uma biografia", ou seja, uma tentativa de fixar o seu objecto, de o cristalizar de modo definitivo.
Luiz Pacheco deixou um longuíssimo rol de textos autobiográficos, fez aliás da sua vida literatura, sem as pessegadas que os nossos contemporâneos teimam em impingir aos leitores acerca das suas rotinas diárias e dos seus pensamentos ordinários. Cultivou, além dos volumosos diários, o género epistolográfico e tanto do que escreveu, arrisco-me a dizer quase tudo que não a crítica literária, lhe saía da vida, às golfadas. Há pois tanta pegada do Pacheco que escrever-lhe uma biografia não necessitaria de grande arqueologia, e de qualquer dos modos escrever a biografia de um tipo que morreu em 2008 estará sempre mais próximo do jornalismo que da historiografia. Não há espaços particularmente omissos da vida do Pacheco, tudo está escarrapachado, por ele próprio, em milhares e milhares de linhas. Escrever-lhe a biografia seria nada mais nada menos que fazer um fac-símile dos livros e folhas volantes e demais papelada et voilà. Dir-me-ão — isso é autobiografia. Pois com certeza, a obra dele foi uma enorme autobiografia, para que diabo preciso de uma biografia quando tudo está a nu e não há história para esgravatar?
A resposta de João Pedro George a esta pergunta é uma biografia em formato de estudo sociológico. Cumprindo o necessário percurso biográfico do autor, citando-o copiosamente (e que extraordinário escritor era o Pacheco, mas falar disso fica para outras núpcias), George nunca teima em tentar fixar O Luiz Pacheco. Sonda a personagem biografada, mas retém a académica distância de quem não se deixa enamorar com facilidade. Às tantas o próprio Pacheco é removido do centro. Esta biografia é um exercício para, citando George, «compreender o social partindo do singular», pois «a singularidade só pode ser verdadeiramente compreendida se estudarmos o lugar que ocupa na intersecção de diferentes configurações sociais».
Seria fácil fazer desta biografia um pagode, e acreditem que há do Pacheco histórias bastantes para muita barrigada de riso, um rol de paródias e insultos e pilhéria e desgraça sem fim. Capaz de resistir à tentação de fazer de Luiz Pacheco um bombo da festa, George empreende aqui um estudo sério que nunca desumaniza, antes pelo contrário, onde se vê, nítido, mas sem rigidez, um Pacheco e o tempo em que viveu. O Pacheco, esse, está morto e enterrado
Aviso prévio: a introdução e a conclusão são dispensáveis enquanto partes da biografia (seriam um excelente sumário-ensaio, mas como parte autónoma). Quanto à biografia em si, é monumental, cruzando as diversas camadas de vida de Pacheco com os próprios textos, num encadeamento tão perfeito que quase nos perguntamos se vale a pena ler o biografado. Exagero, claro está. Porque a pulsão da sua essência e pragmática deve ser bebida directamente da fonte. Pacheco fica tão bem retratado quanto um sofisticado e brilhante FDP o deve ser. Bravo!
Prefiro este livro à biografia pelo Cândido Franco, pela forma e por ter mais um episódio ou outro; mas, sobretudo, por tê-lo lido primeiro. Há muitas histórias repetidas. Venha a reedição dos textos do próprio Pacheco! Lê-se muito sobre o homem mas depois torna-se difícil encontrar os livros caríssimos.
As biografias sabem sempre a pouco. O escritor maldito aparece desfocado na fotografia. Ele não gostaria de ser fotografado. Leia-se biografado. Esta obra merece ser lida. O autor trabalhou para isso, o biografado é que é difícil.
Monumental, esta biografia, e interessantíssima a dissecação do fenómeno do "autor maldito" que Luiz Pacheco tão bem encarnou. Há anos que não lia uma coisa tão boa escrita em português.
«Puta que os Pariu!» foi a última resposta de Luiz Pacheco na entrevista que deu à revista Ler em 1995.
João Bonifácio - "Uma autenticidade obsessiva" Jornal Público - 4 de Janeiro de 2012 "João Pedro George coloca com veemência a hipótese de a produção literária de Pacheco ser um produto da sua biografia: no meio das prisões, dos imensos filhos, das separações, ser-lhe-ia difícil escrever algo com maior fôlego, e de facto, lido "Puta que os Pariu", a hipótese faz todo o sentido.
Esta biografia reconstrói a vida de Pacheco com um detalhe verdadeiramente inacreditável - e recria também várias épocas e a sua evolução, sendo igualmente uma admirável composição sobre a família e o meio literário português.
Não deixa, no entanto, de estar cheia de histórias que vão do escabroso ao delirante, pelo que o leitor comum terá por certo muito por onde pegar."
Soberbo! Pelo rigor, pela abrangência, pelo biografado e a riqueza da sua história de vida e da sua obra, que nunca sabemos onde acaba uma e começa a outra. Gostei muito, a melhor biografia que li até hoje.