Marca o debate cinematográfico nos primeiros anos da década de 1970 com sua defesa incondicional do filme brasileiro. Constatou o enfraquecimento do Cinema Novo, o desespero da nova geração que poderia renová-lo e associou o subdesenvolvimento à estética do cinema nacional - como já havia feito Glauber Rocha no ensaio "Uma estética da fome". Com Paulo Emílio Sales Gomes, a crítica de cinema atingiu a maturidade no Brasil e se revelou um instrumento privilegiado de interpretação da nossa vida social. Observador perspicaz de nossa realidade, Paulo Emílio examina as condições de possibilidade dessa arte no Brasil do atraso e suas realizações mais reveladoras.
Paulo Emílio Sales Gomes foi um historiador, crítico de cinema, professor, ensaísta e militante político brasileiro. Foi figura central na fundação da Cinemateca Brasileira, na criação do Festival de Brasília e dos cursos de Audiovisual da Universidade de Brasília e Universidade de São Paulo, onde lecionou até o final de sua vida. Paulo Emílio transformou-se também em defensor ferrenho do Cinema Brasileiro após uma conversão que chamaria de "descolonização" contra a cinefilia estrangeira. Sua defesa foi pioneira em favor de políticas culturais que sustentassem a produção cinematográfica brasileira, como o financiamento estatal. Sobretudo, sua influência como crítico de cinema e ensaísta inspirou os diretores do movimento cinematográfico brasileiro Cinema novo. Foi casado com a escritora Lygia Fagundes Telles.
Livro obrigatório para qualquer faculdade de cinema que acabei enrolando para ler. Incrível como é atual.
"A razoável continuidade do filme brasileiro de enredo durante os últimos anos pode levar o observador superficial à conclusão de que existe uma indústria cinematográfica funcionando normalmente em nosso país. Tal não acontece. Os interesses do comércio cinematográfico nacional firam em torno do cinema importado, prosseguindo o mercado atual saturado pelo produto estrangeiro. São obrigados os nossos filmes a enfrentar o desinteresse e consequente má vontade do comercio, conseguindo exibição graças apenas ao amparo legal. Uma das consequências dessa situação injusta é levar produtores e cineastas a se preocuparem demasiadamente com a exportação dos respectivos filmes, superestimando a importância dos festivais internacionais. As inteligências e energias ficam assim distraídas do único objetivo que realmente importa ao nosso filme: o público e o mercado brasileiros.
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Em cinema, o subdesenvolvimento não é uma etapa, um estágio, mas um estado: os filmes dos países subdesenvolvidos nunca passaram por essa situação, enquanto os outros tendem a se instalar nela. O cinema é incapaz encontrar dentro de si próprio energias que lhe permitam escapar à condenação do subdesenvolvimento, mesmo quando uma conjuntura particularmente favorável suscita uma expansão na fabricação de filmes. "
Ler isso em 2020, no dia seguinte após o presidente Jair Bolsonaro enviar Regina Duarte para cuidar da Cinemateca Brasileira, fundada pelo mesmo Paulo Emílio, é revoltante.
Infelizmente, o final do livro, escrito há quarenta anos, parece ser uma eterna profecia que nunca será cumprida.