Jump to ratings and reviews
Rate this book

Poesia

Rate this book
Desaparecido em plena juventude, António Maria Lisboa deixou uma obra escassa mas nem por isso menos fulgurante. Preocupado com uma verdadeira aproximação às culturas exteriores à tão celebrada civilização ocidental, há na sua poesia uma busca incessante de um futuro tão antigo como o passado. Pode, e decerto deve, ser considerado o mais importante poeta surrealista português, pela densidade da sua afirmação e na "direcção desconhecida" para que aponta. Assim nos é apresentado o jovem poeta pelo amigo e companheiro surrealista Mário Cesariny, organizador deste volume de toda a produção de António Maria Lisboa.

238 pages, Paperback

First published November 1, 1995

1 person is currently reading
79 people want to read

About the author

António Maria Lisboa

7 books5 followers
António Maria Lisboa nasce em Lisboa e a Lisboa vem a morrer depois de duas estadias em Paris, em 1949 e 1951, onde em vão procurará fixar-se, sem recursos próprios e carente de qualquer auxílio. Sobretudo, a segunda estadia ser-lhe-á fatal, pois parte de Portugal já doente e regressa com um pulmão destruído e o outro seriamente afectado. Em qualquer país - e em qualquer época - a sua procura incessante «de um impossível realizado» «no acto mágico que somos», o «exceder-se de tal forma que não seja possível conceptuar-se», a recusa, quasi, ou como, de cátaro, em ingerir o alimento geral, seria propósito perigoso e difícil de manter. No entanto, o tempo vivido sob a Ditadura de Salazar, sob a qual «o ar era um vómito e nós seres abjectos» agravaria temivelmente os custos do seu propósito. Desaparecido em plena juventude, António Maria Lisboa deixou um obra escassa mas nem por isso menos fulgurante. Preocupado com uma verdadeira aproximação às culturas exteriores à tão celebrada civilização ocidental, há na sua poesia uma busca incessante de um futuro tão antigo como o passado. Pode, e decerto deve, ser considerado o mais importante poeta surrealista português, pela densidade da sua afirmação e na «direcção desconhecida» para que aponta. (Mário Cesariny)

Ratings & Reviews

What do you think?
Rate this book

Friends & Following

Create a free account to discover what your friends think of this book!

Community Reviews

5 stars
18 (32%)
4 stars
27 (49%)
3 stars
8 (14%)
2 stars
2 (3%)
1 star
0 (0%)
Displaying 1 - 5 of 5 reviews
Profile Image for Katya.
487 reviews2 followers
Read
December 2, 2021
Livro XII
Certos Outros Sinais
"Navegamos por águas longe e pelo nevoeiro. A bordo do nosso navio fantasma SOMOS O QUE SOMOS e ao nosso redor apenas o chapinhar das águas misteriosamente calmas de encontro ao casco nos impressiona e informa. Acreditamos que jamais o homem será escravo enquanto houver um só Poeta, isolado e ignorado que seja, a reclamar a si mesmo a decisão ou indecisão magníficas."
215


António Maria Lisboa condensa em si a epítome do surrealismo português. Companheiro de trabalho de Mário Cesariny, Carlos Eurico da Costa, Henrique Risques Pereira, Pedro Oom ou Fernando Alves dos Santos, o poeta apresenta também, talvez de forma algo inesperada, uma faceta muito próxima de Fernando Pessoa.

Nascido em 1928, e vivendo uma curta vida de apenas 25 anos (viria a morrer de tuberculose depois de muitas entradas e saídas de hospitais), nunca deixou de acreditar que a poesia e o surrealismo são a plataforma para a liberdade plena. Isso mesmo, uma crença quase mística na arte, leva a uma abordagem esotérica e ocultista que recupera temas caros a Pessoa, lembrando muitas vezes poemas como Iniciação: "Não dormes sob os ciprestes,/Pois não há sono no mundo/O corpo é a sombra das vestes/Que encobrem teu ser profundo./Vem a noite, que é a morte/E a sombra acabou sem ser./Vais na noite só recorte,/Igual a ti sem querer.(...)/A sombra das tuas vestes/Ficou entre nós na Sorte./Não estás morto, entre ciprestes./Neófito, não há morte."

Assim também, para António Maria Lisboa, não há morte que represente verdadeiro perigo, a morte é metafísica (novamente recordarmos o Guardador de Rebanhos:" Há metafísica bastante em não pensar em nada"):

A poesia feita por todos
Livro I
Mistérios Medida e Mais Coisas
"(...) o perigo não nos vem da morte mas da vida. A morte é uma consequência de viver, ou do viver demasiado. A força da morte é metafisica, a da vida é real. Não é a morte que mata a vida, mas esta que vai morrendo. A vida somos nós e nós vamos caindo de cansaço. A vida é a única força. A morte é consequência da sua quebra."
[Com Henrique Risques Pereira]
30


Os seus seis poemas (poemas visuais) apresentados neste volume são obras grandiosas do automatismo psíquico que o surrealismo consagrou - poucas exceções se podem fazer aqui, a não ser talvez a da abordagem intelectual de Magritte nas belas artes.

E se o facto de a sua vida ser de curtíssima duração neste mundo em muito contribui para a aura de misticismo que rodeia A.M.L, saber que perdemos parte da sua obra (quão grande não se sabe) às mãos de pai e irmã, fixados em a destruir, só pode servir para lamentar tudo de que não sabemos este autor ainda capaz. Este volume - de cerca de 400 p. - compreende toda a sua obra sobrevivente o que, por si só, é um facto assustador.

No total, António Maria Lisboa não figura nas minhas listas de imperdíveis. Eu, no que a poesia diz respeito, vou mais por outro tipo de trágico. Fico para já pelo eterno Mário de Sá-Carneiro e por Miguel Rovisco - outro grande desconhecido! - cujos temas me dizem mais.
No entanto, A.M.L é um marco incontornável das letras a ser redescoberto com urgência.
O mercado editorial nacional, pejado de "bestsellers" contemporâneos internacionais, é completamente cego e insensível para a verdadeira arte das Letras que urge recuperar com estes e outros grandes nomes injustamente obliterados dos nossos programas.


Se tiverem oportunidade não deixem de ver Palavras Vivas, o programa de outro GIGANTE, Mário Viegas, sobre A.M.L e todos os outros poetas por ele merecidamente reconhecidos (curiosamente, Viegas era um grande amigo de Rovisco a quem este último deixou um cartão de despedida antes de se suicidar. Mas esta é história para outro espaço).
Profile Image for André.
114 reviews75 followers
July 10, 2020
Rêve Oublié

Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas
neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim
nesta minha mania de te dar o que tu gostas
e depois esquecer-me irremediavelmente de ti

Agora na superfície da luz a procurar a sombra
agora encostado ao vidro a sonhar a terra
agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba
e depois matar-te e dar-te vida eterna

Continuar a dar tiros e modificar a posição dos astros
continuar a viver até cristalizar entre neve
continuar a contar a lenda duma princesa sueca
e depois fechar a porta para tremermos de medo

Contar a vida pelos dedos e perdê-los
contar um a um os teus cabelos e seguir a estrada
contar as ondas do mar e descobrir-lhes o brilho
e depois contar um a um os teus dedos de fada

Abrir-se a janela para entrarem estrelas
abrir-se a luz para entrarem olhos
abrir-se o tecto para cair um garfo no centro da sala
e depois ruidosa uma dentadura velha
E no CIMO disto tudo uma montanha de ouro

E no FIM disto tudo um Azul-de-Prata.

(in “Ossóptico e outros poemas”, pág. 67)

*

«A verdade não se pensa — sabe-se; o que se pensa é a explicação da verdade.» (pág. 28)


(Apenas em vinte e cinco das 242 páginas que compõem este livro figuram poemas — e, no entanto, é de Poesia que falamos. Entenda-se que a poesia, em particular a surrealista, tem muito pouco que ver com se escrever poemas. Há poetas que nunca escreveram um poema, assim como há poemas onde não se descobre qualquer poesia. Há quem, tendo vivido uma vida inteira em termos daquilo que imaginava escrito, nunca tenha ousado pegar numa caneta, e outros que tanto escreveram sem nunca prestarem a menor atenção a esse gesto. E é por a poesia ter tão pouco a ver com se escrever poemas que dizemos de tantas coisas que são poéticas: da dança, que é poesia em movimento; do cinema, que é poesia transmutada em imagens; e por aí fora. Na sua forma mais pura, a poesia não tem pretensões de explicar ou reflectir o que quer que seja. Ela mostra, revela: é uma verdade. Não surpreende, por isso, que tantos filósofos e pensadores a tenham colocado no mais alto pedestal das concretizações humanas e que tanto se possa crer nela como única forma de expressão capaz de fender esta «redoma fechada» em que nos movemos.

Sobre António Maria Lisboa, que tão prematuramente se furtou à existência, pode enfim dizer-se que foi um desses que nasceu e morreu poeta, ou, se quisermos ainda, que fez da própria vida um acto poético. Deixou-nos uma obra «pequena mas que é enorme» (Mário Cesariny), digna de muito maior reconhecimento.)
Profile Image for MT.
201 reviews
March 16, 2022
“Aqui ama-se sem leis, sem regras, no leito, em quartos abruptos e selvagens, ama-se na angústia, em seios de mãe, nos ângulos invisíveis de olhos enormes e belos, escuros e magníficos distendidos pelo universo,
ama-se através do silêncio com monstros desmedidos que habitam os abismos, ama-se num ponto indeterminado do horizontabismado sacudido por um vento vermelho que os vampiros trazem para dar de comer aos amorosos que habitam todo o universo ignorado. Ama-se matando, recordando todos os assassinatos da história do mundo, todos os jogos maléficos.”

Excerto de O AMOR DE ISIDORE DUCASSE COMTE DE LAUTRÉAMONT



“As formas, as sombras, a luz que descobre a noite
e um pequeno pássaro

e depois longo tempo eu te perdi de vista
meus braços são dois espaços enormes
os meus olhos são duas garrafas de vento

e depois eu te conheço de novo numa rua isolada
minhas pernas são duas árvores floridas
os meus dedos uma plantação de sargaços

a tua figura era ao que me lembro
da cor do jardim.”
Profile Image for Maria Inês.
29 reviews
August 11, 2025
“O Homem move-se numa redoma fechada, sem oportunidades, não sabendo o que existe para além do vidro baço que o limita. O conhecimento é-lhe negado, a acção restringida, o pensamento embotado e a sensibilidade cloroformizada. Por fim falta-lhe a coragem para correr o risco da aventura. (…) não existe sobrevivência na escravatura, mas na não aceitação desta. «Ser Livre» é possuir-se a capacidade de lutar contra as forças que nos contrariam, é não colaborar com elas”.

“O Poeta já não apela para a lógica do espectador (antes a nega), nem tão-pouco para a sua memória da natureza — mas para a sua
Imaginação.
Trata-se de INVENTAR O MUNDO! Descobrir as semelhanças e dissemelhanças, pôr a nu o rendilhado que une o Invisível ao Visível, estabelecer um Arco-voltaico entre o Consciente e o Inconsciente, entre o Passado e o Futuro, provocar um Curto-circuito para os destruir isolados, perfurar a Razão com a Loucura e vice-versa - todas as formas são boas, todas as conjugações”.

“ACENTO
Vem dos montes friíssimos da Noruega onde te sonhei para beberes estrelas e caminhar a custo entre as cascatas onde a ternura é um escadote e o ar um caracol de planetas nas órbitas.”
Displaying 1 - 5 of 5 reviews

Can't find what you're looking for?

Get help and learn more about the design.