Livro da antiga coleção Primeiros Passos, da Brasiliense. Gostei mais da primeira parte, em que ela trata da genealogia do conto. Primeiro separa o conto folclórico do conto literário. Depois, analisa esse último a partir de alguns dos seus grandes expoentes. De um lado, Poe e Maupassant. De outro, Tchekhov. Sommerset Maugham afirmou que "é mais fácil escrever histórias como as de Tchekhov do que histórias como as de Maupassant. Inventar uma história que seja interessante por si mesma, independente do modo de contar, é uma coisa difícil; o poder de fazê-lo é um dom que poucos possuem. Tchekhov tinha muitos dons, mas não esse. Se tentarmos contar uma de suas histórias, verificaremos que não temos nada para contar" Talvez, a coisa seja mais complicada. O conto na sua forma clássica do século XIX tem a sua base no acontecimento, isto é, um desenrolar de eventos que ao final terão um final cheio de efeito. Tchekhov bagunça essa fórmula clássica. Segundo ela, e me parece bem observado, para o autor russo, nada na vida é conduzido para um fim e um objetivo. Os acontecimentos exteriores são irrelevantes. Os efeitos são abandonados, bem como a ideia de acontecimentos. Deixar de contar uma estória que se passa do ‘lado de fora’ dos personagens. São retratos da vida interior, marasmo de consciências entorpecidas pela podridão do tédio. Górki observa que “ninguém compreendeu tão lúcida e finamente como Anton Tchekhov a tragédia das trivialidades da vida; ninguém antes dele mostrou aos homens, com tão impiedosa verdade, o retrato terrível e vergonhoso de suas vidas, no turvo caos da existência cotidiana”. A segunda parte é menos interessante. É a que trata do conto no Brasil. Mesmo assim, ainda vale a pena da leitura. Enfim, um daqueles livrinhos da coleção Primeiros Passos em seus melhores momentos: sucinto, mas capaz de oferecer uma visão geral do tema.
Um livro curtinho que, apesar do título, não se propõe a definir o conto, mas a mostrar as diversas formas que um conto pode ter. Reflete sobre a arte, a contracultura e as formas de expressão dos artistas frente aos males de seus tempos. Mais informativo do uma simples definição estrutural de um conto.
Do primordial ato de contar como resistir à morte, ao abraço ao efêmero por meio das narrativas contemporâneas... o conto nos serviu, em suas diversas formas, para parar, pausar, observar outras possibilidades de ser e viver, e nos transportar até elas. Mesmo que muito brevemente.
Livrinho cheio de indicações de autores intrigantes, brasileiros ou não. Com certeza uma ótima escolha para quem está em dúvida sobre quais caminhos literários seguir, seja para a leitura, seja para o contato referencial.