É difícil a tarefa de descrever este livro, justamente por passar longe de ser o que, tradicionalmente, se vê como estudo histórico. A verdade é que o trabalho de Lilia Schwarcz nessa obra é um grande feito: não apenas há história como há indagações das mais pertinentes, aliadas a um conteúdo de fácil leitura e entendimento, reforçado por dezenas de imagens — estas não exclusivas das duas grandes seções de documentos coloridos, senão presentes em todos os capítulos, ainda que em preto e branco.
Ainda que se proponha a analisar como protagonista D. Pedro II, a obra "As Barbas do Imperador" faz uso de tantos mais artifícios que, finalmente, se torna evidente o intuito progressivo do livro de produzir duas análises antagônicas, mas complementares, do monarca. De um lado, temos Pedro II associado, inquestionavelmente, às festas do império, à nobreza, à cultura que se pretendia criar e erudir na época, o país que se ambicionava polir. Evidenciam-se essas pretensões e predisposições já nos capítulos iniciais, que tratam do imperador ainda sob os cuidados da corte, aguardando o fim da regência. O que fica evidente é que Pedro usou e foi usado pelas forças de seu tempo, imiscuindo-se-lhes em prol de estabilidade e governança, e orquestrando sua entrada no imaginário popular.
A segunda análise do império é, conquanto, dissociativa, e começa a ganhar força conforme o próprio monarca se afasta do simbolismo sobre o qual operou nas primeiras décadas de atuação. De fato, a partir do décimo-primeiro capítulo, onde relata a Guerra do Paraguai, a própria autora explicita que, dali em diante, surgiriam visões diferentes do imperador: aquela figura hegemônica, inabalável, indivisível, se começa a reduzir a fatiga e desgaste da monarquia; o magnânimo tenta buscar um tempo para si.
Mas discutamos agora os capítulos, analisemos a evolução do livro. Os dois primeiros são de brevidade notável, uma espécie de acréscimo interpretativo à obra, que expõe a lógica sob a qual a autora analisará e apresentará o segundo reinado sob a figura Pedro II. No primeiro, uma reflexão sobre a história de "A roupa nova do rei", onde evidencia-se que, para a historiadora, a monarquia depende de um grande teatro, uma constante atração que sacralize as imagens da realeza, uma "dissimulação", como ela muito destaca. Já o segundo é munido de mais valor histórico, uma recapitulação da fuga da corte e períodos subsequentes, para situar o começo da jornada de Pedro II.
No terceiro capítulo, é vez de prestigiar o nascimento do monarca, sem deixar de notar que sua imagem é magistralmente esculpida, como a de seu pai durante os conflitos por independência, para atender aos anseios daqueles que não mais aguentavam as instabilidades regenciais. Vincula-se, aqui — e por essa reflexão, que se não me fosse pela autora incidida, nunca me viria à mente —, a primeira das manifestações de "dissimulação" por parte do futuro imperador: as representações oficiais transpareciam seu olhar penetrante, mas indecifrável, expondo sua educação focada em negócios de Estado.
No quarto capítulo, passado o golpe da maioridade, é que as forças associativas começam suas empresas. Com uma coleção surpreendente de imagens do jovem monarca, a autora torna mais evidente o processo de teatralização do sistema, onde diferentes artistas retratam de estranhamente diferentes maneiras o imperador, seja acrescendo-lhe barba, altura, ou feição confiante. Até mesmo para retratar a aclamação de Pedro, as vestes do líder têm suas proporções adequadas à importância do momento nas obras, muito embora não tenha sido esse o caso na realidade.
Ainda focado na juventude do protagonista, o quinto capítulo esquematiza mais a lógica do poder, desta vez focando-se em seu casamento com Teresa Cristina, do processo de procura ao de efetivação. Em uma das páginas, o relato: D. Pedro, ao ver sua futura esposa em pessoa pela primeira vez, teria chorado de decepção. Mais uma vez, a associação pungente entre vida pública e privada é exposta: manter a realeza tem seus muitos sacrifícios de pessoalidade.
No sexto capítulo, o leitor é apresentado à sociedade burguesa da época, e o foco é transferido de Pedro II para os fidalgos e os que aspiravam à fidalguia. Como é comum por toda a obra, Lilia utiliza diversas citações de descrições estrangeiras e crônicas satirizando o contexto, de modo a melhor caracterizar a sociedade em torno da corte. É aqui que o poder da monarquia sobre as classes urbanas mais abastadas se manifesta, junto com as contradições das tentativas de importação de vezos europeus para um país tropical. Não menos interessantes são as abordagens sobre o desenvolvimento socioeconômico da capital e os manuais de boa convivência, que encontram interessantes nuances atuais.
Os quatro capítulos subsequentes tratam, respectivamente, do IHGB — e a participação do imperador nessa importante instituição —, da nobreza — e sua história, desde os tempos das cruzadas, como se adaptou aos séculos e suas especificidades no Brasil—, dos palácios do imperador — seus propósitos e suas histórias — e das festas do império — festas oficiais, dia de reis, procissões, festa do divino, cavalhadas, congadas, batuques, entrudo, carnaval, D. Sebastião, São Jorge e a figura do imperador em meio a essa mistura de europeísmo com africanismo.
Diria que esses últimos quatro capítulos foram, quiçá, meus favoritos, tanto pelo grosso aglomerado de informações quanto por fornecerem um panorama da situação do império em começo e meados do segundo reinado.
Os capítulos 11 e 12 lidam, respectivamente, com a guerra do Paraguai e a ideia de "monarca-cidadão". Admitidamente, o primeiro, que conta com 24 páginas, pode ser um tanto confuso devido ao pouco espaço dado para um conflito que durou, dos pretextos ao fim da guerra, dois decênios. Também é aqui que o livro toma um aspecto estranho de especulação a respeito da figura do monarca e suas ações, escolha da autora que falho em compreender.
Enfim, no capítulo 11, percebe-se a evolução do monarca de figura praticamente divina para militar convicto, e disso para, no capítulo 12, um cidadão. Se interpretarmos a situação da mesma maneira que Lilia, como uma "dissimulação", vemos nela uma clara polarização: o imperador desejava modernizar seu império, e para isso adotava uma apresentação mais burguesa; ao mesmo tempo, mundanizava-se, perdendo, aos poucos, a graça que dava sustento ao seu regime.
Nos três capítulos que se seguem, temos a revolução do daguerreótipo, as viagens do imperador e as exposições universais como voga. As relações entre eles são evidentes, já que destacam um pouco mais dessa tentativa de modernização do país. Ao mesmo tempo, dilui-se na leitura a noção de que D. Pedro II, cada vez mais distante do Brasil em momentos cruciais de sua existência, começa a perder as rédeas do sistema.
Finalmente, os quatro capítulos finais: as chacotas com o imperador, o golpe da república, o exílio da família real e os efeitos póstumos da morte de Pedro II sobre o imaginário brasileiro.
No fim da obra, Lilia ainda tece alguns comentários acerca das relações entre história e mito — parte dos quais tive dificuldade de entender, talvez seja uma seção mais dedicada a historiadores e relacionados.
Ao todo, são dezenove capítulos, mais um seção de comentários a respeito da figura do monarca. Como já destaquei aqui, a leitura é prazerosa, compreensível e rica em detalhes. Sinto que os únicos defeitos do livro se concentram justamente nos capítulos em que o imperador é o centro das atenções. Estes — ao contrário dos capítulos que descrevem o país, que são extremamente detalhados — parecem carecer de personalidade, de introspecção, o que não é de todo incompreensível, já que compreender Pedro II como um indivíduo é dificílimo e arrisca parcialidade — algo que, respeitável e admiravelmente, Lilia evita.
Ademais, parece que o conjunto da obra não visa, exatamente, ser uma biografia de Pedro II e suas relações pessoais — se o fosse, a ausência de personagens como o Barão de Mauá seria um crime —, mas de suas relações com o país, sua maneira de fazer persistir no Brasil o sistema e o pensamento monárquico.
Caso surjam dúvidas, a maioria delas pode ser sanada pelas notas da autora, também extremamente grossas, junto com sua bibliografia. Certamente foi bastante trabalhoso organizar todas essas informações e concatená-las de modo a produzir livro tão extenso e racional.
Pode-se considerar o objetivo da obra atingido, já que as análises de Lilia explanam bem o que e por que funcionou ou falhou entre as ideias do imperador. Por esse motivo e os previamente apresentados, o livro tem minha recomendação.