Uma das evidências que ficam das falhas de Português é o mau domínio da pontuação. Ou não se ensina a pontuar, ou muito pouco do que se ensina, particularmente quanto ao emprego correto da vírgula. Há casos difíceis, duvidosos. E há as soluções de estilo: tanto podemos optar por um máximo como por um mínimo de vírgulas. Só não podemso optar por vírgulas erradas. A Vírgula, do mestre Celso Pedro Luft, cuida de todas estas situações, mostrando que no uso correto da virgulação prova-se a capacidade de raciocínio, a visão analítica, o sentimento das estruturas, a logicidade e equilíbrio do pensamento.
"Ouvido entende de pausa, não de vírgula. Não vá na conversa dele. É analfabeto."
"(…) Agora, em se tratando de estilo — linguagem subjetiva, afetiva —, cada um bota na frase os solavancos que ama e precisa. Questão de ritmo: deslizar de cisne não é pipoquear de metralhadora."
Achei engraçado a reação das pessoas nas outras resenhas aqui perante os comentários curtos & grossos (e ácidos) do Luft. Eu mesmo errava (e ainda estou fadado a errar) um montão de vírgulas que o Luft trata aqui como infantis, básicas. "Antes de citar Shakespeare, aprenda a colocar crase" lembrei da carta recebida na redação dalgum jornal famoso.
A diferença é que eu não levo meus erros para o pessoal e aceito as correções de peito aberto. Afinal, não sobra aqui nem pro Rui Barbosa "Rui era um fichário vivo dos clássicos. E daí? Nossa língua não defuntou com os clássicos. Não parou ali. Ela tem hoje, para outras necessidades, outras formas, outros ritmos e outros critérios. (…) Cá entre nós (que os túmulos e as carpideiras não nos ouçam!), os clássicos não sabiam pontuar. E os mais antigos nem sabiam o que fosse pontuação".
Esse livrinho aqui de menos de cem páginas é melhor que a seção de pontuação da maioria das gramáticas mais famosas e populares.
O que ele diz na abertura, quanto aos professores e a questão do QI/Pensamento tem lá seus exageros, mas também tem acertos. Ao contrário do que diz o comentário dos leitores, não há elitismo aqui. Não é muito diferente do que diz o americano Lukeman em "A Arte da Pontuação" ou a espanhola Adela Kohan em "Puntuación para no Escritores e Escritores". E não tem ninguém lá os chamando de elitistas.
E é sóbrio o suficiente, como na abertura, de dizer sobre a pontuação estilística/literária: "A linguagem subjetiva e afetiva dos escritores, isto é, da arte literária, é um universo à parte. Não liberto de leis, mas regido por leis próprias, que cada escritor deve descobrir. É aquela história de “cria o teu ritmo”, etc. Meu amigo poeta Quintana gostava de dizer que “o poeta, em seu ofício, é infalível”. A rigor, não se pode ensinar nenhum poeta a metrificar o seu poema. Nem a pontuar."
De resto, dá exemplos práticos, tira uma enxurrada de erros de jornais, dá exemplos de escritores famosos e modernos, e bate sempre na tecla que a pontuação é questão de sintaxe; para que se deixe de aplicar "bisonhas vírgulas de ouvido.", deixe de "divorciar sujeito e verbo", deixe de ensinar que o "e" nunca pode ser separado…
Há até uma boa dose de comédia: há exemplos do " maltratado pela pontuação", da pontuação do etc. fora da "questiúncula de gramáticos; gramatiquice.", da pontuação de ouvido "Sobretudo em falante que respira mal e faz pausas a torto e a direito"; a pontuação sempre depois do parêntese porque "Antes, é um atentado não só contra o bom senso senão também [contra] um elementar senso estético".
De resto, como disse, são exemplos práticos diversos. Recomendo a todos. Bom livro. Imediatamente útil a qualquer um.
Acho que o autor complica um assunto que não merecia mais de oitenta páginas. Também não gosto do tom de arrogância e deboche com que trata o ensino de português. Além disso, não concordo com todas as regras propostas. Creio que o estudante ficará mais confuso após ler o livro.
O autor fica mais tempo tentando ofender os professores e as pessoas que não sabem pontuar do que explicando as regras. Elitista e muito equivocado, ele dá a entender em diversos momentos que o intelecto está ligado à capacidade de saber regras de ortografia. Bem complicada essa visão.