Guiada pelo livro de Maria Lamas As mulheres do meu país , Susana Moreira Marques percorre o país ao encontro da memória das mulheres portuguesas do passado, numa viagem que vai em busca de uma herança esquecida. Pelo caminho, compõe um retrato de quem somos agora e redescobre um legado para o futuro. Lenços pretos, chapéus de palha e brincos de ouro é um livro mú Um relato de viagem que tem como guia As mulheres do meu país , escrito no final dos anos 1940 por Maria Lamas, figura de proa do activismo político em Portugal. Um ensaio sobre os textos que as mulheres não escreveram e as vidas que elas não viveram, e que poderiam ter mudado a visão da História. A narrativa autobiográfica de uma escritora que tenta encontrar e desvendar a sua própria história nas histórias das mulheres anónimas que povoam o nosso imaginário. Susana Moreira Marques viaja pelas aldeias ruidosas do passado e as aldeias-museu do presente; passa por hotéis modernos onde já chegou o progresso de ter um quarto só para si; encontra mulheres que ainda vivem no silêncio de antigamente; procura registar velhas memórias e fazer perguntas que sejam úteis começa a desenhar as mulheres do país do futuro.
Susana Moreira Marques (Porto, 1976) escreve para jornais e revistas desde 2004 e actualmente colabora com o Público e com o Jornal de Negócios. Entre 2005 e 2010 viveu em Londres, onde foi correspondente do Público e trabalhou na BBC World Service. O seu trabalho recebeu diversos prémios de jornalismo, de entre os quais se destacam, em 2012, o Prémio AMI — Jornalismo Contra a Indiferença e o Prémio Direitos Humanos e Integração, atribuído pela Comissão Nacional da Unesco e o Gabinete para os Meios de Comunicação Social. Vive em Lisboa com o companheiro e a filha.
Baseando-se no livro de Maria Lamas, As mulheres do meu país, a autora percorreu os caminhos de Portugal.
As mulheres retratadas por Maria Lamas nos anos de 1940 ainda existiam nos anos de 1970 e 1980. Mulheres que cultivavam a terra, que não sabiam ler nem escrever ou que só tinham ido à escola uns tempos, mas sem fazer o exame da quarta classe.
Ainda me lembro de ver mulheres como as que Maria Lamas retratou na minha aldeia. Com as suas saias e blusas, sempre com um avental. Se fossem viúvas, todas de preto integral. Nunca vestiram calças. Quando chegava a altura das colheitas, usavam o chapéu de palha para se protegerem do sol tisnante. Ainda me lembro de ver velhinhas na missa de domingo com o lenço na cabeça. Mulheres que começaram a trabalhar quando o tempo era de brincar, que cuidavam dos irmãos mais pequenos, que casavam muito cedo e muitas vezes mal. Que tinham filhos uns atrás dos outros porque eram precisas mãos para trabalhar as terras, pois a terra era tudo. Se hoje vissem o que foi feito das terras. Foi tudo atrás do dono.
Também me lembro das histórias que a minha mãe contava, ela que foi criada pela avó materna, uma mulher que poderia ter sido retratada por Maria Lamas no seu As mulheres do meu país. Durante a semana, trabalho no campo, alimentados a pão cozido para uma semana, ao domingo a ida à missa e ao terço, eram estes os entretenimentos das moçoilas da aldeia. Quando havia a festa da terra, aí já o nível de animação era maior, seria por lá que encontrariam um moçoilo e começariam a sua própria vida e família.
"A nossa vida era tão escrava que nem vale a pena lembrar."
P.S.: alguma alma de alguma editora que reedite As mulheres do meu país! Não é um livro que vá fazer furor no tik tok, mas é um importante retrato de Portugal e um trabalho excelente realizado por Maria Lamas e que merece todo o reconhecimento do mundo.
Reportagem. Etnografia. Enciclopédia. Álbum. Literatura. Sociologia. Arma de combate político. No texto promocional do projecto, Maria Lamas chama-lhe documentário e não reportagem, como se previsse que o livro se tornaria verdadeiramente importante quando deixasse de ser sobre a actualidade. Tinha o potencial de ser usado retroactivamente.
“As Mulheres do Meu País” de Maria Lamas é o ponto de partida de “Lenços pretos, chapéus de palha e brincos de ouro”, é o GPS de Susana Moreira Marques ao percorrer os mesmos caminhos que a obra publicada em fascículos entre 1948 e 1950...
Talvez todas as viagens – no país ou fora do país – sejam feitas para termos a certeza de onde vimos.
...é o texto que compôs depois de ter acompanhada a cineasta Marta Pessoa na realização do documentário “Um Nome Para o Que Sou”, é um livro escrito com a sensibilidade que já lhe reconhecera em “Agora e na Hora da Nossa Morte”, desta vez sobre a condição feminina de hoje em contraste (ou não) com aquela época, a “história passada” recordando a sua avó, a “história futura” pensando nas suas filhas.
Muitas das mulheres com quem Maria Lamas fala não sabem ler. Algumas apenas sabem escrever o nome. Algumas foram à escola mas não chegaram a fazer a quarta classe. (...) Não escrevem cartas de amor. Não escrevem cartas a parentes distantes, a não ser por mão alheia. Não escrevem diários. Não escrevem impressões. Não escrevem histórias. Não escrevem poemas de juventude. Não escrevem memórias. Não escrevem nada para que depois fique.
E em paralelo temos a voz intimista de Susana Moreira Marques.
Embora não possa escrever por ela Tudo o que escrevo É para compensar o que a minha avó não escreveu
A avó de Susana Moreira Marques, também ela pouco escolarizada, é um dos eixos desta viagem, ainda que a neta não passe na terra onde ela nasceu, mais uma das mulheres silenciosas e invisíveis, praticamente sem registos fotográficos da sua presença, que como muitas avós de então e dos dias de hoje são um complemento ou até mesmo um substituto total das mães na rotina diária das crianças.
Algumas mulheres preferem, ainda agora, não falar. Reconhecem, de entre tantos direitos conquistados, o direito à continuação da invisibilidade. (...) O livro de Maria Lamas não terá chegado à minha avó. Os livros onde pessoas como a minha avó apareciam não chegavam às pessoas como a minha avó.
O que leva a autora a concluir: “Será que é isto que quer dizer que o pessoal é político?” Eu acredito que sim, no fundo, tudo é político, e isso é flagrante no facto de o livro de Maria Lamas não estar disponível para que eu pudesse conferir as suas palavras e visualizar as inúmeras fotos que tirou a mulheres de todo o país há mais de 70 anos. Teria sido um cotejo sem dúvida enriquecedor, se não existissem menos de seis exemplares na maior rede de bibliotecas do país, a de Lisboa, quase todos eles de acesso reservado ou de somente consulta nas instalações. Porque são edições muito antigas, poder-se-ia pensar. Mas não, já que houve uma reedição em 2002. Onde estão portanto essas raridades? Foram guilhotinadas pela editora Leya. Política editorial portanto. * A mesma política editorial e de perseveração de acervos que sempre divulgou e guardou os livros dos contemporâneos de Maria Lamas, mas não o seu. Nem na biblioteca municipal mais modesta faltam decerto os clássicos modernos de Alves Redol, Fernando Namora, Manuel da Fonseca e Soeiro Pereira Gomes entre outros, e no entanto...
Ela tem também afinidade com o movimento neo-realista mas os neo-realistas são todos homens. Escrevem romances épicos, maioritariamente sobre heróis masculinos, sejam eles pescadores, camponeses, meninos operários ou homens feitos que emigram para terras distantes. Ela tem a intuição de não fazer o mesmo: para escrever um romance épico sobre as mulheres, talvez fosse preciso primeiro provar que elas mereciam o épico.
* Para quem tiver paciência, parece que há um jornal que desde Abril está a vender "As Mulheres do Meu País" em 15 fascículos, como aconteceu originalmente.
"Lenços pretos, chapéus de palha e brincos de ouro" de Susana Moreira Marques, revisita o livro "As Mulheres do Meu País" da autoria da escritora e jornalista Maria Lamas. Maria Lamas percorreu Portugal, entre 1947 e 1949, retratando as mulheres e as suas condições de vida. Este livro foi publicado em fascículos, entre 1948 e 1950.
Cerca de 70 anos depois desta publicação, a realizadora Marta Pessoa quis fazer e filmar uma viagem semelhante, realizando o documentário "Um nome para o que sou", e convidou a autora deste livro para escrever o argumento e para a acompanhar na viagem.
"Talvez todas as viagens - no país ou fora do país - sejam feitas para termos a certeza de onde vimos." (pag. 25)
As mulheres do livro de Maria Lamas, poderiam ter sido as minhas avós ou outras das mulheres que viviam na aldeia onde os meus pais nasceram. Fizeram-me lembrar, principalmente a minha avó materna, que sempre vi a trabalhar no campo. As meninas, vestidas de mulher, poderiam ter sido a minha tia ou a minha mãe, as filhas mais velhas dos nove filhos que ela teve.
Ao mesmo tempo que nos vai descrevendo a forma como Maria Lamas escreveu o seu livro, a autora vai fazendo paralelismos com as mulheres do nosso tempo, com a vida da sua avó, com a sua vida e das suas filhas.
Em setenta anos, muita coisa mudou. Houve uma Revolução. Mas são precisas muitas pequenas revoluções para que a mudança chegue a todas as mulheres. Ainda hoje.
"Como fazer heroínas inesquecíveis dessas mulheres que cantaram para espantar os males, que coscuvilharam, que assustaram crianças com os seus medos, que embalaram carinhosamente outros, que contaram histórias das quais se perdeu a origem, que se calaram em momentos-chave, que escutaram e que tanto esperaram, que nos irritaram com os seus modos antigos, que nos inspiraram com os seus modos antigos?" (pag. 114)
Este é um livro fundamentalmente reflexivo, sobre o passado e a sua influência no nosso presente e futuro. Senti que, também eu, tenho algo destas mulheres em mim, das mulheres que me precederam, da minha mãe e das minhas avós.
Fiquei com muita vontade de conhecer o livro de Maria Lamas e já o reservei na biblioteca. Também vou tentar ver o documentário que deu origem a este livro, com um título tão português, de que gostei muito.
“Maria Lamas viaja para denunciar a falta de condições de vida. Escreve sobre pobreza, fome, maus-tratos. Excesso de trabalho. Analfabetismo. Ignorância. Isolamento. Mas também escreve - com satisfação e algum choque - sobre a música, o riso, a vitalidade que encontra por todo o lado, mesmo durante as estações mais frias e nos lugares mais escuros do país. Grande parte das mulheres sobre as quais escreve são raparigas e aqueles anos de juventude são o tempo mais alegre da vida delas. Seja o que for para o país.”
A intenção deste livro não é só a de resgatar a obra “As Mulheres do Meu País” de Maria Lamas, mas também nos fazer recordar algumas das mulheres que existiram nas nossas vidas… Recomendo!
Este foi o meu primeiro contacto com o trabalho literário de Susana Moreira Marques e foi uma óptima experiência.
Estamos perante um livro de não ficção onde, logo de caras, destaco a beleza da escrita. E numa narrativa que flui sem percalços, muitos são os questionamentos que nos são propostos ao longo das 128 páginas, questionamentos que sugerem análises sobre um passado onde pouca (ou nenhuma) relevância era dada às mulheres portuguesas de um país mergulhado em ruralidade, analfabetismo e pobreza. E em perspectiva, quão diferentes são as mulheres que se seguiram àquelas do final da década de 1940? Ou, pelo contrário, quão idênticas?
Este é um trabalho que sugere uma aproximação às mulheres da nossa família. Às que já partiram mas que só desaparecerão quando já não existir mais ninguém que delas se lembre. As avós, em especial, esses seres de elevado destaque nesta caixa de emoções que trazemos dentro mas cujas ambições e projectos de vida desconhecemos. Mas este é também um trabalho de incentivo ao pensamento. O que levou a minha avó a casar já com trinta e poucos anos? E se em vez de ter levado uma vida de dedicação à família e às filhas, nunca se tivesse casado? Teria pensado em estudar além da quarta classe? Porque não permitiu que as filhas o fizessem?
Estou imensamente curioso com o trabalho que a activista política e feminista Maria Lamas desenvolveu no seu ‘As Mulheres do Meu País’, livro que serviu de inspiração a este de Susana Moreira Marques (para além do filme ‘Um Nome Para o Que Sou’ no qual esta última participou enquanto argumentista).
Já viajei por muitas memórias, por muitas vivências em muitos livros que li. Mas não sabia que um livro ia levar-me à história da minha própria família.
Este livro aborda a experiência de Susana Moreira Marques durante a gravação do documentário sobre o livro As Mulheres Do Meu País de Maria Lamas. A autora decidiu retratar as pessoas, os espaços e as sensações de estar e passar nos mesmos sítios que Maria Lamas passou e a ousadia que esteve presente em escrever o que escreveu naquela época. É um livro que deve ser lido, Susana Moreira Marques acaba por encontrar vozes que ainda não estão longe daquela época e pensa nestas mulheres, mulheres como nós, as mulheres do futuro.
Tive o prazer de conhecer a autora no Festival Literário de Manhouce e partilhei com ela que tinha a sensação que umas das mulheres que Maria Lamas encontrou na Gafanha da Nazaré era a minha avó. Mas era apenas uma desconfiança, pois não tinha como confirmar, tendo em conta que o livro de Maria Lamas estava e está esgotado. Na altura comecei a comprar o livro de Maria de Lamas por fascículos, que continua a ser lançado pelo Público, mas ainda não tinha saído a parte que incluía a Gafanha da Nazaré. Só tive mesmo a certeza quando vi o documentário, Um nome para o que sou, de Marta Pessoa. Ouvi o nome da minha avó, vi a fotografia da minha avó: Domingas. É incrível encontrar livros/filmes que nos levam à história da nossa própria família. Já conhecia a maior parte destas vidas, mas consegui dar uma imagem às memórias que me foram transmitidas pela minha avó e pela minha mãe.
Este livro é o relato de uma viagem feita pela autora, numa tentativa de replicar aquela que foi feita entre 1947 e 1949 pela escritora e jornalista Maria Lamas. Maria Lamas percorreu Portugal de norte a sul para recolher a informação que daria origem ao livro «As mulheres do meu país».
Cerca de 70 anos mais tarde, Susana Moreira Marques parte em viagem após consultar o espólio de Maria Lamas na Biblioteca Nacional. A descrição deste espólio, e as reflexões sobre a relevância de diferentes tipos de registos foi uma das partes que mais gostei neste livro. Também gostei da forma como a autora vai tentando desvendar a sua própria história nas histórias das mulheres anónimas que encontra ou imagina. Deixou-me a pensar nas histórias das mulheres da minha família, nas inúmeras fotografias a preto e branco dispersas por álbuns e caixas em casas de pais e avós, e nas memórias que se vão perdendo.
Mais do que um repetir da viagem de Maria Lamas, este livro é, parece-me, uma reflexão sobre aquilo que mudou e o que não mudou na vida das mulheres deste país.
Uma mulher que espera, mas de modo diferente. Uma mulher que espera tecnologicamente. Pelo final do ciclo de lavagem de várias máquinas. Pelo final dos programas de televisão das crianças, Pelo final do programa de televisão de um homem. Pelos corações a subir como balões sobre uma história do Instagram. Por mais um like. Por uma mensagem do marido, que já devia ter chegado. Pelo alarme da manhã para acordar antes de toda a gente na casa e fazer o que não poderá fazer depois. Ou assim imagino, depois de voltar à estrada.
Esperam por quê ? A resposta prática é que esperam pelos outros : esperam que a comida termine de cozinhar, esperam que seja hora de ir buscar os filhos à escola, esperam que alguém termine de comer para levantar a mesa, esperam que alguém se levante para elas se sentarem, esperam que alguém as peçam em casamento, esperam engravidar, esperam nove meses, esperam que os filhos cresçam, esperam até poderem comprar uma casa melhor, esperam por oportunidades de carreira, esperam pela reforma. Mas a melhor resposta talvez seja que esperam que o mundo lhes seja mais favorável, que esperam por dias melhores.
Estes são apenas dois excertos de um livro nostálgico e bonito, que nos deixa com vontade de ir por esse país fora e registar aquilo que vemos e ouvimos e de mergulhar nas nossas próprias memórias e nas dos mais velhos que ainda cá estão. Porque como diz Salman Rushdie « Eles serão lembrados da forma que eu tiver escolhido lembrá-los », porque « As palavras são os únicos vencedores ».
Acabo de ler este livro; é extraordinário. Fui à Biblioteca ver o livro de Maria Lamas, digo ver e não ler, porque o livro de raro não pode ser requisitado. A minha avó era analfabeta e era, também ela, o retrato vivo das mulheres do meu país de Maria Lamas. Parte da minha mãe é-o ainda e as suas “franjas” dissolvidas em costumes, sacrifícios, esperas e silêncios. Desfazer esta origem é corromper o que somos sem saber de onde vimos.
Mais um pequeno grande livro… muito à semelhança do que já tinha acontecido com Agora e na Hora da Nossa Morte. A autora brinda-nos com uma prosa de uma delicadeza poética, lindíssima (mais uma vez). Uma obra que é ensaio, memórias, ficção, mas acima de tudo, um prazer enorme de ler. Para mastigar, degustar e reflectir! Não resisto: “Viajo como quem lê, encontrando ligações entre lugares distantes ou personagens que não se conhecem, e que não existiriam de outro modo. E, nos momentos em que estou parada, continuo a viagem como quem continua uma história escrita por outrem.”
"Ela não é da classe social da maior parte das mulheres com quem fala para escrever As Mulheres do Meu País, mas há uma classe de que todas fazem parte — que faz com que mulheres tão diferentes possam entender-se, como se falassem um esperanto só delas — e que tem a ver com o sofrimento implicado nos seus corpos: ainda em potência ou já uma memória, de uma forma ou de outra, um sofrimento ao qual não se pode fugir."
Assim que li o título deste livro a minha curiosidade despertou imediatamente. Sabia que tinha que o ler. Gosto muito de livros que retratam o passado do nosso país, das suas vivências, hábitos e costumes.
Aqui, Susana Moreira Marques, parte em busca de mulheres anónimas, no seguimento do livro de Maria Lamas “As mulheres do meu país”. Um retrato das mulheres portuguesas, nas suas dificuldades e com as particularidades das suas vidas.
Um livro que considero importante porque todos nós nescendemos dessas mulheres, mulheres de força, garra, mas silenciosas, porque assim o tempo e o regime o ditava.
Emocionei-me bastante com algumas memórias da autora que me fizeram revisitar as minhas. Histórias que passaram entre gerações e que hoje com o conhecimento que tenho valorizo ainda mais o que passaram “as minhas mulheres” assim como as mulheres do meu país.
Como diz Luís Ricardo Duarte da revista Visão, “um livro para um futuro que não esqueça o passado”.
“Tendo a esquecer aquilo que não me permite conceber o país que desejo recordar.”
maravilhoso! nota máxima para o tom da escrita da autora. num registo tão pessoal, senti quase, como se se tratasse da partilha de um diário sobre uma das viagens (ouso dizer) mais importantes da sua vida.
Uma mulher a escrever sobre si, sobre outras mulheres, biografia de gerações, expondo o passado e o presente, para questionar o futuro. Um livro que inspira outro livro e a forma como as mulheres anónimas vinculam gestos, modos, palavras, quase como fizessem uma enorme corrente colectiva. Uma viagem a partir dessa outra viagem que Maria Lamas fez para escrever "As mulheres do meu país ".
Este livro devolve à memória um passado tão próximo de ser mulher em Portugal. É um livro que comove, que emociona e que me fez voltar ao passado e a enquadra lo de forma mais realista. É fundamental também para que não esqueçamos o caminho percorrido e as conquistas feitas na liberdade e autonomia das mulheres. Gostei imenso!
Um bocadinho aquém do que esperava, para além de que a páginas 92 se saiu com esta: "Dos sonhos das mulheres que estão vivas e que, como os daquelas que estão mortas, não foram realizados, tomo nota dos mais românticos: um sonho de percorrer o mundo a ajudar os outros; um sonho de pegar num instrumento musical e dizer tudo com ele. Mas a maior parte dos sonhos são, de certa forma, banais, até comezinhos, e têm a ver com a ideia de posse, de segurança, do distanciamento do tempo da fome e da violência extrema que vem com a fome. "Vale a pena tomar nota do sonho de ter casa própria? Um sofá? Uma grande televisão moderna? Ou que os filhos tenham tudo isso, em compensação do que eles não tiveram?" Fiquei realmente incomodada com este preconceito, estes juízos de valor, que não estava à espera numa obra deste tipo. Penso que estes julgamentos defraudam as pessoas que, genuinamente, lhe concederam algum do seu tempo a falarem dos seus sonhos.
Gostaria mesmo muito de ler As mulheres do meu país, de Maria Lamas, mas parece que o único exemplar que havia na Biblioteca, disponível para empréstimo, também já desapareceu 😕
Um relato de viagem que tem como guia As mulheres do meu país, escrito no final dos anos 1940 por Maria Lamas.
“Unes pontos no mapa. Observas o desenho. Perguntas se é isso o país. Levas cadernos, canetas, câmaras, instrumentos digitais ou analógicos, mas sempre com a mesma função de registar o que se vive. Levas também um livro. Levas o livro como se fosse um guia de viagem, mas um guia que poderia servir para muitas outras viagens para o resto da vida, oferecendo várias possibilidades e não um só percurso. Leva-lo como se leva uma bíblia, para ter perto da cama quando se descansa, à mão em momentos de grandes dúvidas e receios. Leva-lo como um manual que torna mais fácil a compreensão da vida prática que tem sempre que ser desvendada. Ou como se fosse um volume esotérico, um instrumento mágico, que dará acesso ao que há muito está desaparecido. “
Fazemos uma pequena viagem por um Portugal esquecido, que nos ajuda a percebermos melhor o país que fomos e que, em muitos casos, continuamos a ser.
Convidada por Marta Pessoa a percorrer Portugal, como Maria Lamas em "As mulheres do meu país", Susana Moreira Marques procurou os lugares e mulheres que fizeram o livro de Maria Lamas. Nesta viagem SMM encontra óbvias mudanças e refletiu acerca da condição da mulher de há quase 80 anos. Gostei muito que a autora, no início do livro, tivesse incluído "Algumas imagens para acompanharem a leitura" pois transportaram-me para para os locais visitados. No final, a autora apresenta-nos "Alguns sons para ficarem como memória de leitura" que me aconchegaram. Houve, neste livro, uma procura por parte de SMM de encontrar/escrever as suas próprias histórias.
"Talvez todas as viagens - no país ou fora do país - sejam feitas para termos a certeza de onde vimos."
Reflexões muito bonitas e tristes que nos fazem pensar no passado do nosso país, da nossa família e do nosso. Faz com que apreciemos os actos das nossas avós que agora nos parecem pequenos mas que requeriram uma imensa coragem. Mais do que tudo dou 5 estrelas por me ter aberto horizontes ao trabalho inspirador e visionário de Maria Lamas. Uma de muitas mulheres maravilhosas deste país, assim como a amiga q me ofereceu este lindo livro.
Uma obra tão individual quanto coletiva, tanto exercício de diálogo com um passado analfabeto, com uma escritora pouco lembrada, com todas as mulheres que habitam, na História, o tempo da opressão e da tirania do corpo, como um testemunho poético de um futuro ainda por terminar. A escrita de Susana Moreira Marques tem a qualidade literária de atravessar a pele e deixar lá a cicatriz da sua leitura.
Muito interessante: um relato sobre um relato do passado pela mão de uma escritora concisa e agradável de ler. Deu-me a oportunidade de conhecer o trabalho de Maria Lamas no tempo da censura e da falta de liberdade de expressão.
Este livro acabou por ser algo diferente do que esperava. Quando comprei esperava algo com uma descrição crua de uma viagem, e diria que este livro baseia-se no livro com essa descrição crua, o livro de Maria Lamas. Este livro acaba por ser mais uma reflexão pessoal da autora, que recria a mesma viagem feita por Maria Lamas e vai comparando com a atualidade e até com a história da sua família, principalmente da sua avó.
Enquanto pessoa nascida e criada na beira baixa, é bastante fácil identificar-me com a realidade retratada, tanto da pobreza geral, da ligação ao campo, da estórias, provérbios e dizeres característicos, mas também com o papel da mulher e limitações que tinham (e ainda prevalecem muitas vezes).
Há dois excertos que reti especialmente: "Eu não sei qual era o sonho da minha avó. Nunca lhe perguntei. Nunca Ihe perguntei o que é que ela gostaria de ter sido, que profissões se teria dedicado, se não tivesse sido flha, esposa, mãe, irmã, avó. Minha avó"
A verdade é que também nunca fiz esta pergunta à minha, e se perguntasse acho que a resposta já eu a sei, "que as filhas e netos tenham uma vida melhor". A minha avó não foi à escola e só tinha conhecimento da vida do campo, provavelmente nunca pensou que poderia ter um sonho sequer.
"Tantas, tantas coisas que hoje ocupam as tuas mãos. Mas são talvez as tuas mãos vazias- os largos períodos de mãos vazias - a maior prova de progresso"
O progresso existiu visivelmente, mas continua a ser necessário progredir, não é difícil arranjar exemplos dessa necessidade. Apesar de tudo, nunca serei a melhor pessoa para comentar o assunto, se calhar nem devia comentar de todo, só ler, porque tal como a autora diz:
"A história depende de testemunhas, mas parte das testemunhas relevantes nunca é chamada a prestar o seu testemunho"
Nota: acho engraçado a utilização da 2ª pessoa em maior parte do livro.
Maria Lamas é uma mulher sozinha a viajar num tempo em que as mulheres não viajam, muito menos sozinhas. Mas, se isso faz com que algumas pessoas fiquem desconfiadas, traz-lhe outras vantagens. As mulheres sentem que têm que acolhê-la, mesmo que ela seja de outra cidade, de outra classe, na prática, de outro país, fluente numa língua que soa como a delas mas é tão diferente. Ela regressa a Lisboa como uma intérprete de outro mundo, para o qual falta fixar quase todo o vocabulário de viver. Maria Lamas escreve, então, frases que as mulheres lhe dizem, porque está consciente da linguagem particular delas - que não poderia ser inventada por nenhuma escritora - e de que falta registar essa linguagem, parte dela prestes a desaparecer. E também eu fico atenta às frases que não poderia criar, tentando discernir quais valem a pena salvar do esquecimento.
«Outra frase que se ouve muito é que não têm tempo. Não têm tempo para se perguntarem se são felizes ou infelizes. Não têm tempo nem para o sonho nem para a ficção. Ou seja, não têm tempo para procurar outras possibilidades nem para encontrar alternativas à narrativa da sua própria vida.»
«Mas a maior parte dos sonhos são, de certa forma, banais, até comezinhos, e têm a ver com a ideia de posse, de segurança, do distanciamento do tempo da fome e da violência extrema que vem com a fome.»
«Eu não sei qual era o sonho da minha avó. Nunca lhe perguntei. Nunca lhe perguntei o que é que ela gostaria de ter sido, a que profissões se teria dedicado, se não tivesse sido filha, esposa, mãe, irmã, avó. Minha avó. Um sonho que não estivesse incluído naquela resposta genérica de querer que os filhos - e os netos - tivessem uma vida melhor.»
Fiquei com muita vontade de ler "As mulheres do meu país" escrito por Maria Lamas. Não gosto do preconceito pelo meio rural, não é num encontro breve ou numa só conversa que se vai perceber como é a pessoa sendo que as mulheres ficam resumidas e limitadas a conceitos que penso que não sejam verdade. "A minha avó vai com o meu avô. Provavelmente, vota no que ele diz." - muito redutor mesmo, basta ler um diário da época e percebemos que as mulheres não eram assim tão "tacanhas" e de olhos tapados. A escrita e a apropriação excessiva do original também não funcionaram para mim.
Este livro é as minhas avós, a minha mãe, as minhas tias, a minha irmã e eu e a minha filha. Estes livro somos todas, numa só. Porque o caminho por onde vou e por onde irá a minha filha, começou lá atrás, bem lá atrás, num país pobre e rural, de mulheres a quem lhes foi negado tudo, até a tristeza. Parabéns Susana!
Adorei ter lido este livro depois d’As Mulheres do meu País. Uma linda homenagem, um divagar filosófico que consegui acompanhar e compreender, e agora quero muito ver o filme “Um nome para o que sou”.
«O bem que se vai espalhando pelo mundo depende em parte de actos que não são históricos; e que eu e tu sejamos menos desafortunados do que poderíamos ser deve-se em grande medida aqueles que viveram fielmente uma vida invisível, e que jazem em túmulos nunca visitados.» GEORGE ELIoT, Middlemarch
Dos registos de Maria Lamas, as perguntas que fazia: «O homem da região emigra muito? Há canções e danças especiais nesta região? A mulher também emigra para as cidades? As mulheres levam os filhos doentes ao médico ou aos postos de assistência ou descuidam o seu tratamento, preferindo fazer-lhes mezinhas? Há muitos filhos ilegítimos?
São inúmeras as passagens que sublinhei deste livro. Como são inúmeras as mulheres que aqui são retratadas. Feliz e infelizmente. Agora resta-me a vontade de ver o filme e, de alguma forma, chegar ao livro da Maria Lamas. Quanto a este livro: um retrato do que foram as mulheres do nosso país, do que ainda são. Das imagens que ficam. Dos sons que ficam. Das histórias que constituem esta viagem.
Uma agradável surpresa e uma escrita como gosto: simples, crua e bonita.
pensei várias vezes em que avaliação dar. hesitei entre o 4 e o 5, embora nenhuma delas faça jus ao trabalho da Susana, embora tenha terminado o livro a chorar e a querer ir para a beira da minha avó, embora saiba, no fundo, desde o início da leitura, que há livros aos quais não se dá pontuação, porque não há forma de os pontuar de modo justo e não há pontuações para coisas assim. na semana em que perdemos Maria Teresa Horta, acabo de ler Susana Marques, que me leva a Maria Lamas e a todas as mulheres que, entre elas, foram capazes de narrar. quando os livros são assim -- revolução, história, tempo, espaço, feita de pessoas e para pessoas que nunca estiveram em livros nem em revoluções --, não há pontuação que encapsule o seu valor. por isso, vai cinco estrelas. mas só porque a Susana é brilhante, e vale a pena apontar nisso nesta escala que não vai mais longe. no entanto, não faz sentido e não chega. não é esta a medida certa. talvez só se meça o que quer que seja, ou só se valorize, de facto, o livro, quando o lemos. há livros que só honramos lendo, e dizendo às pessoas para os lerem, até ao fim.