ler maura é lindo
e cansativo
a loucura demanda. demanda atenção, engajamento, paciência, cuidado, empatia. é preciso estar absolutamente aberto ao que cambia, ao que muda constantemente. um dia a glória outro a derrota, um dia o amor outro o ódio, um dia o brilhantismo outro a burrice. tudo se sucedendo, de vez em quando numa só passagem, num só dia, numa só frase. e isso todos os dias (dos três meses que esse diário registra não há um dia que tenha passado sem anotação).
maura é. o tempo todo no presente. e sendo cansa, demanda. mas também sendo entrega-se. é possível acreditar em maura, acreditar que no momento em que ela escreve as palavras naquela página, naquele dia do final de 1959 ou início de 1960, ela acredita completamente no que está dizendo, no que está sendo, mesmo que seja uma mentira (maura é esperta), um floreio (maura é escritora) ou um delírio (maura é louca).
as denúncias que entremeiam seu relato não são poucos e não são irrelevantes. elas revelam o tempo em que maura está inserida. o tempo dos eletrochoques, das internações, do descaso. elas revelam em certa medida nosso próprio tempo também, porque não? naquele momento ainda eram incipientes os esforços de nise da silveira para garantir a dignidade da loucura (e a própria nise aparece algumas vezes no diário de maura), de lá para cá avançamos muito e os hospícios abriram as portas, mas o paradigma segue o mesmo: o louco continua sendo menos, continua sendo um improdutivo, um marginal. maura dá voz a essa experiência, seja ela confinada em um hospício - que tem "guardas" e não "enfermeiras, ah foucault! - ou nas ruas. o louco tem subjetividade, tem um interno de si que é insento e enorme.
o posfácio de natalia timerman agrega belamente para a obra, nos lembra de não pensar em maura como essa mítica escritora louca que mais tarde matou a colega de quarto em um surto psicótico, mas aprender a vê-la pela sua obra, pelo que ela quis dizer, pelo que ela derramou de seu interior como escritora. lembra que maura, longe de incoerente ou incompreensível, tem uma profunda inteligência e uma relação bela com as palavras, sabe moldar na página uma verdade tão real quanto ela pode ser.
e acredita nisso.
e nisso acredito eu.