Não adorei o livro — até porque contém alguns erros demasiado evidentes para serem ignorados. Mas adorei a história que ele procura contar. E talvez isso seja, afinal, o mais importante: por detrás das suas imperfeições, abre-se diante de nós uma Lisboa quase irreconhecível, uma cidade suspensa por alguns anos entre o medo e a esperança, entre a guerra que devastava a Europa e uma paz precária que ninguém sabia quanto tempo poderia durar.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Lisboa transformou-se num dos grandes palcos secretos da Europa. Pelos hotéis, cafés, cais e salões da cidade cruzavam-se espiões, diplomatas, agentes duplos, aristocratas exilados, judeus em fuga, conspiradores, aventureiros e refugiados que aguardavam desesperadamente um navio ou um visto que os conduzisse para o outro lado do Atlântico. Para muitos, Lisboa não era propriamente um destino: era uma última porta aberta para a liberdade.
Portugal conseguiu, com uma notável mestria diplomática, permanecer fora do conflito mais destrutivo da história da humanidade. Foi um equilíbrio delicadíssimo, por vezes quase acrobático. O país negociava simultaneamente com os Aliados e com a Alemanha, procurando oferecer o suficiente a cada lado para que nenhum deles tivesse interesse em transformar Portugal num inimigo.
Dois temas simbolizam particularmente bem essa diplomacia ambígua: os Açores e o volfrâmio.
Por um lado, Portugal acabaria por permitir aos Aliados a utilização dos Açores, cuja posição no Atlântico possuía uma importância estratégica extraordinária. Por outro, durante parte significativa da guerra, continuou a vender volfrâmio à Alemanha, matéria-prima essencial para a indústria militar do Reich. Assim, enquanto quase toda a Europa empobrecia, ardia ou era ocupada, a economia portuguesa chegou inclusivamente a beneficiar de determinados fluxos comerciais provocados pela guerra.
Mas a neutralidade nunca significou segurança absoluta.
Durante aqueles anos houve momentos em que Portugal correu um risco real de ser arrastado para o conflito: através de uma eventual invasão alemã, de uma intervenção espanhola ou até de ataques contra o território português. A paz que hoje, retrospetivamente, parece inevitável, esteve durante algum tempo dependente de equilíbrios extremamente frágeis.
E talvez nenhum episódio revele melhor as contradições dessa neutralidade do que aquilo que aconteceu nos últimos dias da guerra. Quando, em maio de 1945, chegou a Lisboa a notícia da morte de Adolf Hitler, Portugal decretou três dias de luto oficial e mandou colocar a meia-haste as bandeiras dos edifícios públicos. Foi um gesto extraordinário naquele momento — e que provocou protestos internacionais —, colocando Portugal entre o reduzidíssimo grupo de países europeus, juntamente com a Espanha de Franco e a Irlanda de Éamon de Valera, que ainda prestaram alguma forma de homenagem ou condolência oficial pela morte do Führer. Portugal, porém, foi particularmente longe na observância formal do luto. Era o derradeiro paradoxo de uma neutralidade levada quase até ao absurdo: poucos dias antes de celebrar publicamente a vitória dos Aliados, o mesmo Estado português cumpria escrupulosamente as formalidades diplomáticas pela morte do homem que acabara de conduzir a Europa à catástrofe.
E então, quase subitamente, tudo terminou. A guerra acabou. Os refugiados que podiam regressaram às suas terras. Os espiões desapareceram dos hotéis e dos cafés, como atores que abandonam o palco depois da última representação. Os militares regressaram aos quartéis. Os diplomatas deixaram de trocar mensagens cifradas. Os grandes transatlânticos deixaram de transportar multidões de homens e mulheres que fugiam de uma Europa em chamas.
Lisboa, durante alguns anos um dos centros secretos do mundo, voltou a ser Lisboa. Mais cinzenta. Mais pobre. Mais silenciosa.
Como se, depois de ter assistido de perto à grande tragédia europeia, a cidade tivesse fechado lentamente as suas portas e regressado à sua habitual melancolia atlântica.
E depois há o ouro.
Talvez a parte mais inquietante de toda esta história.
Uma parte importante do volfrâmio adquirido pela Alemanha era paga em ouro, frequentemente através da intermediação de bancos suíços. E uma parte desse ouro tinha uma origem profundamente sinistra: reservas saqueadas pelos nazis aos bancos centrais dos países ocupados e, em alguns casos, património retirado às vítimas da perseguição nazi, incluindo judeus deportados e assassinados.
Depois da guerra iniciou-se uma longa e complexa discussão sobre a restituição desse ouro. Nem tudo foi devolvido. Parte circulou por diferentes territórios e instituições, chegando mesmo a existir ligações dessa movimentação de ouro a outros pontos do império português, incluindo Macau.
E permanece ainda hoje uma imagem extraordinariamente poderosa — verdadeira ou envolta em alguma lenda — segundo a qual poderão existir nos cofres do Banco de Portugal barras de ouro provenientes daqueles anos, algumas delas ainda marcadas com o selo do Reichsbank.
A ideia é quase cinematográfica.
Por cima, no coração da Baixa Pombalina, passam todos os dias milhares de pessoas. Turistas fotografam as fachadas, os elétricos atravessam lentamente as ruas, os empregados dos cafés colocam mesas nas esplanadas. A cidade continua indiferente, ruidosa e luminosa.
E algures debaixo dela, talvez protegidas pela pedra e pelo silêncio dos cofres, poderão ainda repousar algumas barras de ouro que atravessaram uma das épocas mais negras da história europeia.
Um pequeno fragmento material do Terceiro Reich escondido no centro de Lisboa.
Um mistério — e, de certa forma, um tesouro sombrio — em plena Baixa Pombalina.