Nascido em Trancoso no dia em que D. Dinis dava os últimos suspiros, D. Fuas Bragatela estava destinado a ser alfaiate, mas nele outros sonhos fervilhavam. Saiu, por isso, de casa muito novo, serviu a vários amos (com quem nada aprendeu senão os rigores da vida) e, depois de muitas peripécias, acabou a combater na batalha do Salado, donde não trouxe honra nem glória, apenas uma fome dos diabos. Arribou seguidamente a Salamanca, fazendo-se passar por licenciado em Medicina, e regressou à pátria com o cheiro da peste colado às narinas. Mas foi então que descobriu a demanda da sua vida: um dos maiores tesouros da Cristandade... Num romance que constitui um retrato notável do Portugal medieval - e no qual não faltam alcoviteiras que fabricam hímenes, clérigos que vendem pedaços de céu, meirinhos corruptos, estalajadeiros manhosos, donzelas a transbordar de carnes e rapagões esfomeados -, Paulo Moreiras oferece- nos as irresistíveis aventuras de uma personagem quixotesca, na qual existe um pouco de todos nós, portuguesinhos à beira-mar plantados.
Paulo Moreiras nasceu em 1969, em Lourenço Marques, Moçambique. Publicou os romances «A Demanda de D. Fuas Bragatela» (2002), «Os Dias de Saturno» (2009) e «O Ouro dos Corcundas» (2011).
Sobre gastronomia e etnografia publicou «Elogio da Ginja» (2006) e uma série de opúsculos em colaboração com o Instituto de Estudos de Literatura Tradicional: o «BI da Cereja e da Ginja» (2007), o «BI do Palito» (2007), o «BI do Tremoço» (2008), o «BI da Perdiz» (2009), o «BI da Morcela» (2010), o «BI da Rede de Dormir» (2011) e o «BI da Fava» (2011).
Entre Setembro e Outubro de 2010, esteve na Ledig House International Writers Residence, em Nova Iorque. Desde Dezembro de 2009 é membro colaborador da equipa de investigação do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, Lisboa.
Para além de ser uma excelente obra de um estilo que muita falta faz na literatura portuguesa (novela picaresca), também se realça o magnífico trabalho de linguagem, tornando o tempo e as personagens vívidas num espaça que, apesar de distante, ainda é reconhecidamente nosso.
Divertido, com bastante rigor histórico e contextual (do que me lembro de História e da Cultura Medieval), linguagem corrente e adequada e bastante próxima da linguagem oral medieval, porém nem sempre acessível ao leitor do português corrente e sem qualquer contacto com as poesia trovadoresca ou com as crónicas/ documentos históricos da época. É possível que algumas das expressões e termos continuem a ser utilizados no "Portugal profundo".
Mas que belo trambalazanas me saiu este D. Fuas! Tudo lhe sucede...
Vale principalmente pela linguagem! Houve momentos que me senti uma miúda a ouvir a minha avó a falar com os irmãos! Tantas expressões ainda usadas em Trancoso e arredores :D
Esta história é de peripécias de rir e rir. E ainda assim, o final consegue estar guardado quase até à última página e consegue deixar uma lágrima de emoção no conto do olho!
Este é um romance pícaro e muito divertido, em que o uso de vocábulos coevos, que percebemos pelo contexto, traz um especial sabor. D. Fuas vive de expedientes rocambolescos e inventivos, sempre cheio de fome e de criatividade. Passa pela Batalha do Salado, faz-se passar por físico com fama e proveito, escapa-se da peste, conhece D. Beatriz e finge-se enviado do rei. Um Pedro Malas-Artes medieval, muito divertido e amável. A narrativa toma a forma de um testamento que D. Fuas deixa ao seu filho. O livro só peca por alguns, minúsculos, anacronismos, perdoados pela desenvoltura da narrativa.
«Quando não se tem sorte faz-se por ela, nem que seja a forjar o destino, burlando e mentindo aos outros, que é o que toda a gente faz.» P. 115.
Chamar a este livro “um retrato notável do Portugal medieval” não é um exagero - é um EMBUSTE, uma ALDRABICE: não é um retrato e muito menos notável. Quanto muito será uma caricatura, em traço grosso… Ao certo, é um livro de aventuras, divertido e, verdade!, muito bem escrito com a particularidade de recorrer apropriadamente a uma “linguagem de época” colorida por numerosos vocábulos que caíram em desuso: recomendo ter por perto um bom dicionário…
Várias e irresistíveis aventuras, com uma personagem que mais parece o Indiana Jones medieval português, uma história repleta de humor e crítica. Um romance pícaro, com recurso à linguagem de época.
"Quando decidi ler este livro, não houve nada que me conquistasse à primeira. Apenas o quis ler, ponto final. Nunca tinha lido nada deste género sobre Portugal Medieval e este de D. Fuas pareceu-me bem."
Pode ter sido a idade das trevas... mas o autor consegue iluminá-la com humor hilariante. Uma viagem no tempo com barrigada de riso do princípio ao fim, muito bom!