Neste O ceu dos suicidas, Ricardo Lisias confirma estar entre os melhores escritores da literatura contemporanea no Brasil. Retomando o estilo nervoso de seus livros anteriores, desta vez a ansiedade vem ao primeiro plano, e o que vemos e uma pessoa completamente ferida a buscar uma resposta, mas a procurar tambem uma redencao impossivel. E um sujeito que expia sua culpa, dividindo-a com o leitor", escreve Pedro Meira Monteiro para a orelha do livro.
Para o professor da Universidade de Princeton, o narrador criado por Lisias "lembra um cacador sonolento que tentasse acertar o alvo no meio da noite, lutando para que seus olhos nao se fechem. Mas o cacador (que corre atras do sentido) e vencido sucessivas vezes pelo cansaco e pelo desespero, entregando-se impotente ao mundo dos loucos e dos momento em que o sujeito nao consegue fechar os ouvidos ao grito agonizante do que o cerca.
Ricardo Lísias nasceu em 1975, em São Paulo. Estreou na literatura em 1999 com o romance Cobertor de estrelas, traduzido para o espanhol e o galego. Publicou as novelas Capuz e Dos nervos. Lísias também é autor de Duas praças, Anna O. e outras novelas, finalista do Prêmio Jabuti de 2008, e do romance O livro dos mandarins, vencedor da Copa Brasileira de Literatura de 2011. Publicou os livros infantis Sai da frente, vaca brava e Greve contra a guerra. Graduado em letras pela Unicamp, é mestre em Teoria Literária pela mesma universidade e doutor em Literatura Brasileira pela USP. Em 2012 foi selecionado pela revista Granta como um dos vinte melhores jovens escritores brasileiros.
Comecei e acabei no mesmo dia. "O Céu dos Suicidas" tem um estilo muito parecido com "Divórcio" e ambos são muito diferentes de "O Livro dos Mandarins". Gosto dos dois estilos mas acho que "O Livro dos Mandarins" consegue ser mais surpreendente embora, talvez, mais despido de enredo e, por isso, um pouco mais difícil de ler. Os primeiros entram num estilo confessional, são as memórias de um narrador chamado Ricardo Lísias a viver momentos complicados. Utilizam as repetições, de frases ou temas, para obrigar o leitor a focar-se no essencial e para mostrar as perturbações psicológicas que sofre o protagonista, quase sempre relacionadas com ansiedade, revolta e obsessão. São retratos sombrios mas verosímeis. "O Céu dos Suicidas" trata da dor de perder um amigo que se enforcou e da necessidade de garantir que terá ido para o céu e deixado, finalmente, de sofrer. Para isso é essencial refutar todos os princípios enraizados da educação católica e de lutar contra quem os defende. No fundo é um livro sobre luto, solidão, abandono e culpa. Temas difíceis que o discurso muito direto e sem floreados acaba por aligeirar.
Achei ótimo, com vários ingredientes que me agradam bastante: linguagem ágil, estrutura idem (capítulos curtíssimos!), relato em primeira pessoa de personagem transtornado, discussões metafísicas... Só não chego a dar 5 estrelas mesmo porque, desse caldo de coleções, suicídio, culpa e desejo de afeto eu não consegui formar nenhuma grande "tese" que fosse aplicável à nossa existenciazinha.
o belo de um livro. aparentemente simples na forma e conteúdo mas que desenha bem algumas das dimensões humanas : a dos afectos, a da religiosidade, a das emoções, a da lucidez.... recomendo.
"Acho que é isso mesmo: vinte anos. Apenas olhei as pessoas, a estação de metrô e os arredores. E infelizmente não encontrei nada que me dissesse respeito."
"Reparo que todos estão mais ou menos conformados."
"O problema é que me sinto muito sozinho e estou com medo de que as pessoas não acreditem em mim."
Apesar das minhas leituras atuais, conclui este livro primeiro. Sempre me interessei pelo tema suicídio e, principalmente, pela autoficção. O "céu dos suicidas" conseguiu me agradar em ambos assuntos, apesar de pensar que a classificação do romance como autoficção ainda não seja pacífica. Sinto principalmente que o senso de humor de Líssias e o desencadeamento dos fatos da narrativa estejam mais para ficção. De toda forma, a graça do gênero é essa: saber que o autor não tem compromisso algum com verossimilhança.
O livro conta a história de Ricardo, um historiador e colecionador que vê sua vida mudada pelo suicídio do melhor amigo, André. Entendemos, por meio de capítulos curtos e ágeis, a reverberação do ato de André na vida do protagonista, que se vê inundado por sentimentos como culpa, raiva e ódio. Para evitar revelações sobre o enredo, posso dizer que a forma e o estilo do autor são leves. Tal leveza contrasta com os assuntos sérios e urgentes tratados por Lísias na narrativa.
Em suma, ótimo livro para ler de uma "tacada só", sem que passe como superficial ou de todo agradável. Afinal, a boa literatura também deve incomodar e inquietar seu leitor.
Ricardo é um historiador, especializado em coleções que se vê totalmente perturbado após o suicídio de André, sem melhor amigo. Perturbado pela sensação de culpa que carrega por considerar que poderia ou deveria ter evitado esse desfecho. Os capítulos são bem curtos e refletem com muita eficácia os sentimentos conflitantes e desarranjados do protagonista. Apesar do tema sensível o livro traz momentos de alívio cômico que são as explosões de mau humor de Ricardo, mandando a todo momento todo mundo praquele lugar.
"Uma coleção é como um amigo: é preciso saber tudo. Quem tem uma grande amizade sabe que, mesmo que estejamos longe dela, uma lembrança, sempre retorna."
Histórico de leitura "Essa pessoas, senhor Deus, merecem ir para o céu, mesmo que acabem se matando."
"Desde que tudo isso começou, tenho percebido que sentir saudades significa, em alguma parcela, arrepender-se."
"Sou um especialista em coleções, mas doei os meus selos há mias de dez anos. Tenho apenas um relógio, e dos meus avós herdei uma pequena quantidade de dinheiro e mais nada."
Algumas palavras - e/ou sentimentos - poderiam classificar este livro: intenso; perturbador; tragicômico e ambíguo são algumas delas. E, como pede a literatura de qualidade, ótimo que seja assim. Afinal, a interpretação de um bom texto literário deve sempre ser subjetiva. Cabe ao leitor sua versão dos fatos, unindo as pontas implícitas, deixadas propositadamente em aberto pelo escritor, sem que seja necessário compreender ao certo o que ele quis de fato dizer com o que escreveu. Aí reside uma das mágicas da Literatura. E Ricardo Lísias, mestre da autoficção e da literatura performática, assim o faz magistralmente em O Céu dos Suicidas. Texto cru, direto e incisivo, numa trama aparentemente simples, mas humana e profundamente complexa. Belo livro! A propósito, aos fãs de Lísias, recomendo a entrevista que ele concedeu ao meu EPÍGRAFES, no qual fala sobre as convergências entre realidade e ficção: https://youtu.be/T6k_GWdZgG0.
Não curti muito o livro, mas o autor conseguiu com eu chorasse ao ler a sua escrita. É uma obra meio autobiográfica. O personagem principal é muito irritante e chato pra caralho. Super arrogante. Ele é um colecionador que conta como ele lidou com a morte de um amigo que se matou.
A empatia tem que ser forte para que o leitor consiga entender um lado do Ricardo. Acho que foi isso que me fez chorar com livro. Além de ter me identificado com certas passagens.
É mais difícil lidar com a morte anunciada do que com a repentina? É mais difícil sobreviver quando quem amamos morre de infarto ou se enforca? O céu dos suicidas trata disso com delicadeza, choro, berros e palavrões muito necessários. Pesado e divertido como se é devido.
Tipo de história que te leva para espirais de insanidade (literalmente). Fácil de ler e, apesar do tema super sensível, diverte o leitor sem imbecilizá-lo. Dá pra ler num dia só. No fim, achei bonito. Um surto bonito da saudade de um amigo que escolheu não viver mais.
Li este livro depois de Ler Divórcio. A receita é a mesma e como li logo em seguida este me cansou um pouco. O estilo do autor é semelhante ao de um corredor. Ao final da leitura nos sentimos esgotados. Mas é um livro envolvente com questionamentos muito próximos a muitos de nós. Recomendo a leitura
Gostei muito do livro. Ricardo Lísias pode vir a ser um dos grandes escritores brasileiros. O livro tem uma boa história que se desenvolve bem. O livro não é pesado (apesar do título), mas a passagem do encontro dele com seu amigo suicida é muito intensa e incômoda. Vale a leitura.
Apesar de eu ter aproveitado mais a prosa de Divórcio, estou dando uma estrela a mais pra Céu dos Suicidas pelos questionamentos religiosos que deviam ser mais comuns (não necessariamente na literatura, mas culturalmente).
Um bom texto, boa linguagem, mas eu teria preferido um final diferente. Mas como não fui eu quem o escrevi, entendo a escolha do autor em ter um final mais certinho quando o caminho é alternativo.