"Na época, era considerado necessário que a figura do detective tivesse uma qualquer idiossincrasia distintiva, ou, melhor ainda, uma colecção delas. Holmes tinha o seu violino, a sua cocaína e o seu cachimbo; o padre Brown tinha o seu guarda chuva e o seu ar enganadoramente distraído: Lord Peter Wimsey tinha o seu monóculo, o seu criado de quarto e a sua colecção de livros antigos. (...) Por isso Poirot foi criado belga com o seu bigode, as suas celulazinhas cinzentas, a sua jactanciosa vaidade, tanto intelectual como vestimentária, e a sua mania da ordem. O único erro de Christie foi fazê-lo, em 1920, um membro reformado da força policial belga; o que, por sua vez, significou que, em 1975 e em Cai o Pano - O Último Caso de Poirot, estava a entrar na sua décima terceira década. Claro que, em 1916, Agatha Christie não fazia ideia de que o pequeno belga lhe sobreviveria."
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Há diversos problemas que se prendem com a publicação deste [tipo de] livro. Alguns:
1. Trata-se de uma abordagem académica de um repositório de ideias que, juntas, formam o processo criativo de uma escritora;
2. Esse processo é errático e está incompleto;
3. O repositório original encontra-se inacessível pelo que temos de acreditar nas transcrições/suposições e seleções do autor;
4. O autor está longe de ser academicamente imparcial e extrapola frequentes vezes acerca de apontamentos que estão incompletos ou não identificados;
5. O leitor comum, confrontado com as transcrições escolhidas, fica limitado à visão do autor...
Posto tudo isto, compete esclarecer que John Curran não tem outro remédio a não ser apresentar os apontamentos de Christie tal como os encontra. É sabido que a escritora sofria de disgrafia - razão pela qual evitava a todo o custo escrever, preferindo o seu bom velho dictafone. Além disso, e a julgar pelos testemunhos da sua Autobiografia, as suas capacidades de organização não eram das melhores e, por isso mesmo fazer uma "leitura" dos seus cadernos deve ser qualquer coisa como uma tarefa hercúlea.
A ideia no seu todo é interessante e compele os fãs à procura deste volume, mas a fórmula simplesmente não funciona - não tem como. O material não é facilmente legível ou descoficável e obriga a um conhecimento de fundo de uma obra que supera os 80 títulos...
Em última análise temos um conjunto de ideias incipientes, tal qual surgem na mente da escritora, para futuras histórias... mas as ideias são isso mesmo, incipientes, e acabam por se transmutar, e por vezes ficam muito difíceis de reconhecer na obra final - apesar da melhor vontade do autor em apontar cada uma a um título específico posteriormente publicado.
Ainda assim, a incursão tem o seu interesse, compondo a imagem de uma escritora com uma imaginação ímpar e, na falta de acesso aos originais, funciona certamente como uma importante ferramenta de estudo para quem, na área, se interesse.
De todas as formas, é sempre melhor publicar do que não publicar este tipo de documentação. Não funciona para todos, mas certamente serve a alguns.
Eu saltei alguns capítulos que apresentam soluções para títulos que ainda não li - e esse é, na minha opinião, o maior handicap do livro. Ao leitor que ainda não tenha lido toda a obra de Agatha Christie, a seleção, organização e apresentação destes cadernos deixa um certo agridoce.
A sua compilação é, além disso, nada regular - acredito que porque também a escritora o era. Não se facilita a leitura e não se poupa o leitor à descoberta de certos desfechos que, muitas vezes, nem são tratados nos cadernos.
Mas também... ninguém é forçado a comprar ou ler o que seja.
A introdução, e os primeiros capítulos, recheados de pequenas curiosidades sobre o mundo profissional de Agatha Christie, e a deixar transparecer toda a admiração de Curran pela escritora, são de longe, arrisco dizer, a parte mais interessante de todo o livro.
Por fim, a sua ideia de apresentar dois "inéditos" (na verdade, duas versões descartadas pela autora de um conto - inserido em Os Trabalhos de Hércules, e daquilo que viria a ser um futuro romance, Testemunha Muda) não pode deixar de parecer forçado e sem qualquer cabimento a não ser o de alimentar a curiosidade do leitor comum e fã da autora - mas, uma vez mais, venha todo o marketing e publicidade que vier, ninguém é obrigado a consumir seja que pedaço de literatura for contra sua vontade.
Pessoalmente, não desgostei de olhar para dentro do processo criativo de Agatha Christie - mas não era nada disto que esperava do livro.
"É possivel ler um novo livro de Christie todos os meses durante quase sete anos, e, neste estádio, é possível recomeçar de novo seguro no conhecimento de que o anterior já estará esquecido. E é possivel assistir a uma nova dramatização de uma obra de Agatha Christie todos os meses durante dois anos. Muito poucos autores, em qual quer área, igualaram este recorde."
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