O muro de Berlim mal havia caído quando João Ubaldo Ribeiro se mudou para a Alemanha. Era convidado do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico de Berlim e iria passar um ano no país. Em troca, além de participar de eventos literários, escreveria uma crônica mensal para o Frankfurter Rundschau com impressões, experiências e reflexões de como um brasileiro enxergava a vida em Berlim. João Ubaldo morou com sua família em uma das regiões mais conhecidas da capital alemã, fez as crônicas que lhe pediram, e em 1995 publicou um livro com elas, chamado “Um brasileiro em Berlim”, título que o próprio autor achava “chocho”.
A imprensa alemã não está acostumada a um gênero como a crônica. E provavelmente nem ao humor mordaz de João Ubaldo. Mas é de se imaginar que também tenham se divertido ao longo das míseras 15 crônicas escritas pelo cronista em sua viagem. Há muito que se lamentar por não terem sido crônicas semanais, quem sabe até diárias. É livro pra ler num fôlego só, mas com cuidado para não engasgar enquanto puxa o ar e dá risada ao mesmo tempo.
Como foram poucas as crônicas, João Ubaldo centrou os seus temas em episódios de sua vida cotidiana, apenas tangenciando os acontecimentos políticos ainda bastante recentes na cidade. Os inevitáveis choques culturais sempre rendem histórias divertidas nas mãos de um prosador hábil. João Ubaldo faz com Berlim mais ou menos o que o Ivan Lessa fazia com Londres, aproveitando a ironia pra desmitificar preconceitos mútuos.
O alemão de Berlim, por exemplo – pelo menos esses que o João Ubaldo encontrou – não concebia a ideia de que um brasileiro não conhecesse a Amazônia e nunca houvesse visto um índio. Quando o cronista afirmou que nunca havia visto a Amazônia, seu interlocutor, visivelmente chocado, raciocinou: “Mas então já está tudo desmatado?”. Com o tempo, um brincalhão João Ubaldo passou a admitir a existência de índios caminhando normalmente – pelados, claro – pelo Rio de Janeiro.
As expectativas de João Ubaldo com o país também são confrontadas. Imaginem que, estando na Alemanha há quase um ano, ele descobriu que na verdade não havia conhecido um único alemão. Explicaram a ele que Berlim não era a Alemanha verdadeira. E mesmo quando decidiu passar em Munique não encontrou alemães: “Em Munique há bávaros, e não alemães”, disseram.
Todos esses conflitos, e ainda outros envolvendo dinheiro, trânsito, comida, inverno e a tradicional organização alemã são escritos em textos inteligentes e cheios de boas sacadas. A única coisa que destoa é a crônica final, feita à pedido, e que não tem nada a ver com a Alemanha, mas com as leituras de João Ubaldo na infância. Mas ela ajuda a explicar como se formou esse sujeito que nos arrancou boas gargalhadas ao longo do livro.