No ano de 1533, sendo rei D. João III, vivia na ilha de Porto Santo um homem chamado Fernão Nunes, por todos chamado Fernão Bravo. Na mesma ilha vivia uma sobrinha sua, moça de dezasseis ou dezassete anos, chamada Filipa Nunes, que estava havia alguns anos na cama, paralítica. Dizendo-se inspirados pelo Espírito Santo, tio e sobrinha declararam-se profetas. A sua pregação convenceu pobres e ricos, que renunciavam às suas vestes preciosas e partilhavam os alimentos, e até eclesiásticos, que na missa invocavam «São Pedro e São Paulo e o beato profeta Fernando». A heresia não podia ser tolerada. Após dezoito dias de «abusões» dos falsos profetas, os hereges foram presos e levados para a vila de Machico, sendo depois enviados para Évora. Fernão e Filipa foram aí expostos à porta da Sé, ela vestida e ele nu da cintura para cima, com um letreiro dizendo «Profeta de Porto Santo».
Este é um facto histórico, que conhecemos pela pena de Gaspar Frutuoso e ainda hoje é bem recordado em Porto Santo. Com base neste facto histórico, Alice Vieira recria de forma vívida os antecedentes e os dias exaltantes da pregação, os tormentos e mortes infligidos pelas autoridades, e ainda a vida na Lisboa quinhentista, cidade cosmopolita e bela mas sobre a qual se adensam as nuvens da Inquisição e do desastre nacional. Fiel à História mas não ocultando simpatias, com a voz desassombrada e a mestria da escrita que unanimemente se lhe reconhecem, Alice Vieira oferece-nos em Os Profetas um romance histórico forte que não deixará de empolgar - e comover - os leitores.
Alice Vieira nasceu em 1943 em Lisboa. É licenciada em Germânicas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 1958 iniciou a sua colaboração no suplemento «Juvenil» do Diário de Lisboa e a partir de 1969 dedicou-se ao jornalismo profissional. Desde 1979 tem vindo a publicar regularmente livros tendo, editados na Caminho, mais de cinco dezenas de títulos. Recebeu em 1979, o Prémio de Literatura Infantil Ano Internacional da Criança com "Rosa, Minha Irmã Rosa", em 1983, com "Este Rei que Eu Escolhi", o Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura Infantil e em 1994 o Grande Prémio Gulbenkian, pelo conjunto da sua obra. Foi indicada, por duas vezes, como candidata portuguesa ao Prémio Hans Christian Andersen. Trata-se do mais importante prémio internacional no campo da literatura para crianças e jovens, atribuído a um autor vivo pelo conjunto da sua obra. Alice Vieira é uma das mais importantes escritoras portuguesas para jovens, tendo ganho grande projecção nacional e internacional. Foi igualmente apresentada por duas vezes, como candidata ao ALMA (Astrid Lindgren Memorial Award).
Conheci a escrita de Alice Viera, como a maioria dos leitores, através da série Uma aventura. Gostei de alguns livros, mas nunca foi muito entusiástica por eles. Sei da sua boa reputação para escrever livros infanto-juvenis, muitos incluídos no PNL. Mas não chegaram a ser obrigatórios no meus anos de ensino médio, apenas a minha irmã foi obrigada a ler "Chocolate á chuva".
Por isso, comecei esta leitura com zero expectativas. Sabia tratar-se de um livro pequeno e indicado a um publico mais adulto. Gostei da capa pois retrata um Portugal histórico, e eu sempre gostei de ler narrativas que relatassem os tempos passados.
O livro acabou por revelar-se uma grande surpresa. Não apenas explora a inquisição portuguesa, como nos dá a conhecer uma histórica verídica do Porto Santo. Fiquei completamente petrificada com o relato de Filipa Nunes, e recomendo a sua leitura a todos como eu acreditam que o conhecimento pode mudar o mundo.
Um registo muito fluido, como costumam ser os livros desta autora, mas num teor diferente que faz com que não esteja na prateleira dos juvenis. É uma história triste, que mostra como mesmo em pleno século XVI, no auge do Império, a maioria das pessoas é completamente ignorante e passa fome. Muito interessante conhecer esta história baseada em acontecimentos reais. O conhecimento é realmente o maior inimigo da ignorância. E a leitura prejudica seriamente a ignorância. Por isso era tão perigosa no século XVI. Por isso o desfecho dificilmente seria diferente.
Este livro lê-se num ápice, graças à forma simples (mas não propriamente simplista) de narrar de Alice Vieira. Confesso que houve um ou outro apontamento histórico que me deixaram dúvidas (quando se escreve um romance ou uma novela histórica, é sempre uma tentação para um autor tentar fazer um certo "revisionismo" que apresente as personagens mais modernas aos nossos olhos do que o próprio contexto histórico em que elas estavam inseridas...). O Portugal do século XVI era tremendamente religioso e supersticioso, pelo que a personagem de Filipa Nunes me parece um pouco desajustada à época. Até a própria acção dos Profetas me parece muito "moderna" (basicamente, Alice Vieira diz-nos que a pregação deles se baseava na ideia de que a ignorância deveria ser curada com a leitura e os livros, o que não me parece que tenha sido o que os verdadeiros Fernão Bravo e Filipa Nunes tenham pregado...). Em todo o caso, este é um livro que se lê muito bem e com o qual se faz uma simples, mas suficientemente fidedigna, recriação histórica do período abordado. Gostei e recomendo, principalemente a jovens leitores.
“Os profetas” é de um registo histórico que narra o percurso de Fernão e Filipa Nunes, tio e sobrinha, que percorrem a ilha de Porto Santo a declarar a palavra da verdade e da libertação, quais profetas inspirados pelo Espírito Santo, depois de a rapariga ter sido capaz de andar após anos de paralisia. Depois de poucas semanas a pregar a palavra, são presos e levados para Évora para serem punidos e, mais tarde, encaminhados para Lisboa, uma cidade retratada como moderna, culta e imponente, que sofre do terror da Inquisição e do sofrimento e medo consequente.
Trata-se de um romance simplista, sem grandes floreados ou pormenores, que nos conta o percurso de Fernão e Filipa pela voz de uma apaixonada contadora de histórias. A trama é simples, mas dotada de uma enorme fragilidade concedida pelo realismo de sentimentos da protagonista e pelas dúvidas e emoções que a assolam durante toda a sua vida.
Conhecemos com detalhe a história de Filipa, que assume o papel de protagonista, entre a sua infância passada entre ovelhas e vacas, a adolescência deitada numa cama, o início da vida adulta como uma herege e o resto da vida como uma mulher muda e quase invisível. Filipa detecta os momentos que mudaram a sua vida e que são os responsáveis por estas transições drásticas, ponderando vagamente sobre eles quando no-los conta e aceitando-os como parte do seu destino, sem questões ou ressentimentos. Esta postura dormente e desinteressada relacionam-se com a sua aceitação dos factos e com a conformidade de quem não pode voltar atrás no tempo, embora a rapariga carregue, até à sua morte, o peso da dor que lhe foi infligida e a incompreensão da sua cura miraculosa em Porto Santo.
Parte da minha infância foi passada entre os livros de Alice Vieira, pelo que esperei ansiosamente por abrir as páginas d’”Os profetas”, o primeiro romance que não pertence à categoria de literatura infanto-juvenil da autora. Independentemente do género e formato adoptado para o mais recente romance, é muito difícil não identificar as características da escrita de Alice Vieira, visíveis a olho nu para quem conhece a sua obra. As pausas, as observações e a simplicidade de narração estão claramente presentes e conferem ao livro um pequeno trago de nostalgia.
Este livro está escrito como uma memória, com os saltos entre assuntos que uma pessoa a contar as suas memórias tem.
Eu gostei da história, apesar de triste, e gostava de saber muito mais, mas um manuscrito de memórias acaba quando acaba, e este acaba em aberto, com a suposta morta da suposta autora / narradora.
Gostei especialmente da maneira como a história está contada, com todos os seus saltos entre pensamentos e personagens que são mencionada e só muito depois são apresentadas.
Apesar de inspirada por factos reais, há um ou 2 detalhes da história que soam um pouco modernos, mas não enquanto estava a ler, durante a leitura, a história simplesmente fluia, com um bom ritmo.
Uma história de profetas e perseguição, de cegueira e de conhecimento passada em Porto Santo e depois em Lisboa no século XVI. Vale sempre a pena pela forma como a autora nos enreda na trama e nos envolve numa história triste e inevitável.
O livro está viciado por uma estranha insistência em frases demasiado curtas, criando a impressão de paragens e arranques soluçados, ao que não ajuda a profusão excessiva de parágrafos. Também o tom solene com que se repetem constantemente frases como "desde esse dia, a minha vida nunca mais foi a mesma" se torna algo enjoativa. Há também alguns problemas de concordância gramatical no que respeita aos tempos verbais, mas é algo, infelizmente, muito comum. De todo o modo, a história é tão trágica quanto interessante e era bom que mais escritores se aventurassem nestas experiências de narrar factos que não merecem ser esquecidos.
Muito bem escrito e tema interessante, sobre a inquisição em portugal e sobre o isolamento e pobreza das ilhas ( neste caso porto santo). Consegue fazer reviver o terror desses tempos e a limitação da liberdade. Sente se o sofrimento das pessoas.