Descendente de armênios, Meliné cumpriu todas as expectativas ancestralmente depositadas casou-se com Zohrab, cuidou da casa e da filha, Aline, honrou e frequentou a família, os eventos, as práticas.
Um dia, em um telefonema, uma notícia invade seu mundo na frequência de um abalo sísmico. Incapaz de lidar com a mudança, Meliné mergulha em suas origens procurando se abrigar nas lembranças e particularidades da cultura armênia – costumes, uma língua própria, os pratos típicos da culinária – e nas vozes das mulheres, todas como ela.
Nesse processo, vive a delicada tensão entre submeter-se ou libertar-se de uma tradição que oprime, mas também acolhe; que amarra, mas também afaga; que protege, mas também limita.
Em Um amor de filha, Meliné compartilha protagonismo com a saga de sua família e as tradições da comunidade armênia. Assim, abre espaço para pensarmos a relação entre mãe e filha e a condição feminina. Tudo isso a partir de um ponto de vista até agora pouco explorado na literatura brasileira.
Mais do que (mais) uma história acerca de pais e filhos, como Simone de Beauvoir, Alba de Cespedes, Elena Ferrante, Annie Ernaux, Juliana Leite, Vivian Gornick e muitas outras mulheres que notavelmente abordam a questão em suas literaturas, Kalaigian traz aqui uma obra acerca do conflito entre a tradição e a atualidade, entre os costumes de um povo e as barreiras superadas por outra geração, tudo isso, envolvendo-se na história de Meliné e Aline, mãe e filha que são a representação do choque entre os temas citados.
Narrando, portanto, sob a ótica de Meliné, uma descendente de armênios, artista e já na meia-idade, o tumulto e caos que se instaura após uma ligação e quebra de expectativa e de confiança que ela gera, imerge no passado que até então não muda e não pode feri-la. Revisitando a causa armênia, a diáspora e perseguição que seu povo veio a sofrer, Meliné traz à tona não apenas a voz da mãe, das irmãs, das tias e da avó e sim, de toda uma geração de mulheres condicionadas pela tradição a serem exemplos de esposas, voltadas sempre ao lar e à família; excluídas das sucessões, sem incentivo a um aperfeiçoamento acadêmico, o mundo de muitas delas, embora pareça seguro, é frágil quando a figura do marido não mais está presente.
Enxergando uma nova realidade, vivenciando uma nova vida, Meliné, que tem um amor profundo pela única filha, precisa se decidir entre a tradição e a abertura, o que gera um novo olhar acerca de quem é Aline, o que deseja e quais os seus papéis como filhas, mães e mulheres na comunidade armênia e mundial, em uma obra interessante e de muita riqueza cultural, tornando, a mim, uma ótima leitura.
Um livro sobre a relação entre mãe e filha e trauma intergeracional, no caso o genocídio e o exílio forçado da população armênia no início do século XX. Ótima leitura, a narrativa não cai em clichês e nem em sentimentalismo. Romance curto e envolvente, que a gente lê rapidinho.
Gostei Comecei o livro sem ter ideia de onde a história iria dar. E saber mais do genocídio armênio foi bem enriquecedor e triste também. Como sempre, as mulheres maiores vítimas dos massacres. Sempre gosto da temática amor de mãe e filhos.
Fazendo minhas escavações atrás de livros do gênero mommy issues, acabei achando este. Não li resenhas ou sinopses antes de começar a leitura, então tudo foi uma surpresa.
A forma como Meliné se relacionava com todos à sua volta de maneira distante e mínima — ainda que fosse até mesmo com o marido —, como se isso pudesse manter uma barreira entre ela e a própria herança histórica e familiar, foi ricamente desenvolvida enquanto víamos esse mundo ruir, com Aline disposta a entender mais e melhor as próprias origens.
Uma narrativa angustiante de ponta a ponta. Sabemos logo no começo que se trata da derrocada da saúde da nossa narradora. A forma como o livro se constrói, com os diálogos já terminando nos pensamentos da personagem, me fez sentir algo análogo a uma sessão de terapia: alguém que escuta a história com os comentários de quem a conta, mas não deve interceder — apenas ir elaborando, até que em algum momento possa ajudá-la a metabolizar também. O sentimento crescente de angústia aumenta ainda mais quando lembramos que essa metabolização nunca virá; só podemos observar silenciosamente o caminho traçado por Meliné até que tudo se desfaça.
Um livro forte, bonito e visceral, que nos lembra que a história das mulheres em todo o mundo, por mais que tenha diferenças étnicas e geográficas, sempre se assemelha em sofrimento em algum ponto. E que as vezes não estar disposta a encara-lo pode nos destruir.
Gostei muito da história, principalmente do movimento que a autora faz de trazer memórias da protagonista como uma forma de mostrar características da cultura Armênia. A relação entre mãe e filha é uma temática sempre presente, mostrando as contradições e os choques de geração e de cultura. Também mostra a transição no relacionamento mãe e filha, quando a filha começa a ter mais independência e autonomia e a mãe muitas vezes tem dificuldade de entender essa nova dinâmica. No mais, acredito que o começo da narrativa é um pouco parado e não prende tanto assim, mas as últimas 50 páginas são super intensas e muita coisa acontece. A autora deixa o futuro em aberto, e gostaria de saber o que acontece com esses personagens tão únicos e potentes.
fiquei muito impressionada com esse livro. ele é contado da perspectiva de meliné, uma mulher e mãe, de ascendência armênica. a narrativa é flutuante, porque é como um relato dela, inclusive o livro tem marcas de oralidade muito fortes, que achei que ia me incomodar, mas gostei muito. fluxos de consciência, misturança de tempos, momentos... achei tudo delicadamente especial. é uma história que questiona e faz refletir o papel da mulher na cultura armenica, mas de modo geral também, porque apesar de não termos todos essa ascendência, nós sabemos que o que é esperado da mulher não muda muito nesse caso. é sensível, é intrigante e uma leitura fácil, não só porque o livro é pequeno, mas porque ele flui. o final é simbólico e misterioso, mas adequado. gostei bastante do todo.
O livro foca na vida de uma mulher paulistana, descendente de armênios, que conta de forma não muito cronológica sua vida a partir de um evento marcante. Ela narra do futuro, sobre um episódio recente e fica voltando para as diversas fases da vida, enquanto nos explica o quanto a herança dessa comunidade armênia afetou e influenciou suas decisões, seus rumos. Ao mesmo tempo, mostra uma relação não muito saudável com a filha, tentando fazer com que ela siga os seus passos, que foram os mesmos da sua mãe e avó.
Gostei bastante do andamento da história e achei o livro interessante, mas o final foi abrupto demais, preferia que tivesse alguma conclusão.
Apesar de ser introduzido com personagens de uma comunidade específica, a história que os entremeia pode ser espelhada para a vida de qualquer pessoa. Como tradições podem, apesar de reafirmar origens e culturas, prejudicar o andamento da vida de gerações distintas, a ponto de cegar muitos que desejam ir contra esses costumes. Ao mesmo tempo, as relações familiares, ligada pelos laços sanguíneos ou mesmo assinados, são também colocados a prova. Um enredo escrito de forma arrebatadora e que abraça qualquer leitor.
Não esperava que existisse um livro brasileiro fazendo referência ao genocídio armênio (a não ser que fosse um livro de não-ficção). Em relação ao enredo, achei interessante a perspectiva ser da mãe.
Uma reflexão profunda sobre esse lugar-papel-função social das mulheres, entroncado com o círculo social armênio de SP, dessa diáspora pós-genocídio que encontra raízes na manutenção das tradições. Uma relação crua de mãe e filha, perpassando questões universais ainda que sob uma ótica específica. Achei incrível como sabemos do futuro da protagonista a partir de fragmentos de parágrafos ao longo do texto e que seu ateliê artístico seja a materialização de tantas das suas questões!