Jump to ratings and reviews
Rate this book

Os teclados & Três histórias com anjos

Rate this book
Plano Nacional de Leitura Livro recomendado para o Ensino Secundário como sugestão de leitura. Esta edição reúne num mesmo livro dois dos mais elogiados escritos de Teolinda Gersã a novela Os teclados (de 1999, que recebeu o Prémio Fernando Namora e o Prémio da Crítica da Associação Internacional dos Críticos Literários) e o livro de contos O mensageiro e outras histórias com anjos (2003). Sobre o último, Christophe Tison escreveu na "Este livro é tão breve que, se o resumirmos, tudo ficará dito. Tudo, excepto a incrível poesia, a incrível linguagem de Teolinda Gersão. Este pequeno livro é um grande romance. Muito tempo depois de o termos fechado, ouvimos a voz de Ilda, gostaríamos de levá-la connosco e continuar a ouvi-la. É essa a marca das obras-primas."

122 pages, Paperback

First published January 1, 1999

1 person is currently reading
20 people want to read

About the author

Teolinda Gersão

47 books79 followers
TEOLINDA GERSÃO nasceu em 1940, em Coimbra. Licenciada em Filologia Germânica e Doutorada em Literatura Alemã, com a tese Alfred Döblin: indíviduo e natureza (1976), pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Foi Assistente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Professora Catedrática da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa e Leitora de Português na Universidade de Berlim.
Autora de vários trabalhos de crítica literária, recebeu duas vezes o prémio de ficção PEN Clube, atribuído ao seu livro de estreia, O Silêncio, em 1981, e ao romance O Cavalo de Sol, em 1989. Foi também galardoada com o Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores em 1995 e, na Roménia, com o Prémio de Teatro Marele do Festival de Bucareste (adaptação da obra ao teatro) com o romance A Casa da Cabeça de Cavalo. Em maio de 2003, o seu livro Histórias de Ver e Andar foi galardoado com o Grande Prémio do Conto 2002 Camilo Castelo Branco, da Associação Portuguesa de Escritores. À edição inglesa de A árvore das palavras (The Word Tree, Dedalus, 2010) foi atribuído o Prémio de Tradução 2012.
A ficção de Teolinda Gersão desenvolve, na escrita contemporânea, uma poética romanesca original, abrindo a narração, a que o respeito pelas categorias de espaço, tempo, personagens, intriga confere certa verosimilhança, a uma irradiação de sentidos que decorre de um metaforismo assumido de forma estrutural pela narrativa. Não que as personagens e as suas relações, os temas ou os seres se reduzam a um carácter alegórico: o que ressalta é que por detrás da "história" estão em conflito pulsões humanas universais, frequentemente centradas sobre a dinâmica dos opostos (homem/mulher, caos/cosmos, racionalidade/loucura, entre outros). A ilusão da transparência, obtida por uma ordem sintagmática nítida, pela simplicidade da frase, despojada de tudo o que é acessório, pela redução do número de personagens, pela simplificação da ação, confere, então, às suas narrativas o estatuto de uma escrita mítica, cujo objetivo não é a representação, mas o conhecimento. Ao mesmo tempo, cada uma das suas narrativas, desenvolvendo até à exaustão algumas metáforas centrais (o cavalo, o teclado, etc.), desfibra todo o tipo de alienação social e mental subjacente à rutura dos princípios de harmonia invisível e de unidade íntima do homem com o universo. Como a pianista (e a romancista) de Os Teclados, Teolinda Gersão, diante de um "mundo fragmentário" e "indiferente", onde "as pessoas não formavam comunidades e só havia valores de troca", um "mundo vazio", persiste em tentar desvendar enigmas, como se a escrita e a exigência de rigor fossem "a transcendência que restava": "Aceitar o nada, o mundo vazio. E apesar disso, pensou levantando-se e sentando-se no banco - apesar disso sentar-se e tocar."

Ratings & Reviews

What do you think?
Rate this book

Friends & Following

Create a free account to discover what your friends think of this book!

Community Reviews

5 stars
10 (25%)
4 stars
19 (48%)
3 stars
8 (20%)
2 stars
1 (2%)
1 star
1 (2%)
Displaying 1 - 11 of 11 reviews
Profile Image for Katya.
485 reviews
Read
April 15, 2024
Não sei se a reedição de uma obra ainda em circulação é aposta que eu faria, mas também acredito que a Porto Editora sabe bem o valor da marca que sustenta e não me parece de todo impossível que na hora da escolha, olhando à disponibilidade, o leitor se incline para a compra da edição mais recente. No meu caso, não se pôs essa hipótese. Esta leitura acaba por ser fruto de uma das muitas trocas de livros que defendo e a que acedo às vezes por pura curiosidade. Dentro desse espírito, a própria leitura acabou por sobrepor este a outros livros da autora que já tinha por aqui, e a experiência, inesperada, correu bastante bem.

Composto por uma novela e três contos, não está mal conseguida a coesão do volume, mas suspeito que a que a recomendação do PNL, como sempre, seja forçada e pouco certeira... Este pequeno livro oferece pano para mangas.
Não seja isso, no entanto, que nos detém. Os Teclados e Três Histórias com Anjos funciona, no mínimo, como elemento de introdução à obra da autora.

Os teclados
⭐⭐⭐⭐
Iniciando o volume com uma obra metalinguística de elevada densidade, em Os teclados, Teolinda Gersão cruza o diálogo entre literatura e música - criação diegética e criação musical -, diálogo esse que se repercute na própria estrutura narrativa podendo o leitor diferenciar três secções cujas correspondentes musicais seriam qualquer coisa como: exposição (apresentação do tema), desenvolvimento (variações) e coda (recuperação dos elementos da exposição).

A exposição equivale à infância de Júlia, menina prodígio da música, criada num lar em que habitam dois estratos, duas categorias de atores - o tio Octávio (elemento opressor) e a tia Isaura (elemento oprimido), - no seu conjunto a demarcar o domínio real; o tio Eurico, velho e louco, e Arménia, a criada surda (elementos marginais), - a marcar o domínio onírico.

Num reino familiar assim desgovernado, onde o pater-familias preside, providencia e controla, Júlia encontra refúgio na música.
O tio defende altivamente Beethoven (representando ação), Júlia defende silenciosamente Mozart (representando passividade).

Ouvir era deixar o mundo entrar em si. Ficava sem defesa, escutando. O som seguia o seu curso e ela deixava de existir separadamente, tornava-se parte do que acontecia. O que era também um risco. Quase de morte, pensava às vezes. Porque a música, de algum modo, estilhaçava-a, fazia-a sair de si mesma e arrastava-a para um estádio indiferenciado, não humano, contra o qual a música finalmente triunfava. Um triunfo imperfeito, contudo, porque a música tinha sempre de recomeçar, de acontecer de novo, para que o caos não se instalasse. Enquanto durava (mas nunca duraria para sempre), a música era uma forma de ultrapassar o caos, obrigando-o a caber numa medida. Ouvir era talvez isso: tomar parte na luta entre a medida e o caos.


O que leva às variações que acontecem durante o desenvolvimento e que na novela correspondem ao momento em que Júlia é confrontada com a voz/criação feminina como meio de resistência e de independência, e com o papel da música enquanto instrumento de expressão e ferramenta transcendente de descodificação do mundo:

Era uma entrevista, a propósito de um livro. Um romance, parecia. Havia uma fotografia da mulher que o escrevera(...). A mulher estava ligada ao teclado(...), ele fazia parte da sua vida. Mas em último caso o teclado não existia, era uma pura transparência. Ela procurava alguma coisa que não era da ordem das palavras, embora só pudesse transmiti-la em palavras, algo talvez comparável à música, embora não equivalente. Ondas de energia, que se organizavam numa determinada estrutura - sim, talvez se pudessem por as coisas nesses termos, não sabia ao certo.
(...)
os livros aconteciam no tempo. Como a música. Os romances, sobretudo. Eram, como a música, uma forma de medir e de organizar o tempo.


Finalmente, num terceiro momento, que retoma as problemáticas da primeira secção, a que corresponde a coda (ou recapitulação), Júlia [re]encontra refúgio e escape na verdadeira essência da música (como da vida): o que a deixa, essencialmente no ponto de partida - em busca de respostas, em busca de um sentido:

A música curava as almas. Ela também acreditara nisso. (...) Era tudo ilusão, pensou. O mundo talvez não fosse um cosmos, um universo ordenado. Provavelmente não tinha medida, nem escapava ao caos.
(...)Ela também não tinha medida nem fronteira. Estava presa à existência, mas não fixada nela. Ligada num só ponto, como uma folha num caule. Por isso vibrava excessivamente ao menor contacto com as coisas, que acabavam sempre por triunfar sobre ela.


Maravilhosamente próximo da ideologia de John Cage, o texto exprime a essência musical dos silêncios e a sua capacidade de transcender as limitações linguísticas do indizível, propondo a música/escrita como exercício de maturidade e individualidade:

Podia aceitar que assim fosse, pensou olhando em volta as cadeiras desertas. Aceitar o nada, o mundo vazio.
E apesar disso, pensou levantando-se e sentando-se no banco, apesar disso sentar-se e tocar.



Por outro lado, as três pequenas Histórias com Anjos são pequenos deleites estéticos que fantasiam três encontros comos seres etéreos :

A Velha (um pequeno exercício sobre o prazer das pequenas coisas)
⭐⭐⭐⭐
Uma vez por ano, jogava na lotaria. Nunca tivera sorte, mas gostava de tentar. Uma vez por ano dava-se ao luxo de perder e fazia essa extravagância. Mas jogava também outros jogos, que de repente lhe vinham à cabeça: todas as semanas procurava na montra da loja da esquina os números que lhe pareciam mais prometedores. Assentava-os num papel e depois ia ver os números premiados, no dia em que andava a roda. Nunca acertava e metia com satisfação num mealheiro o dinheiro que não gastara. E assim tinha um duplo gozo tinha-se divertido com a escolha do número, o palpite e a expectativa, e ainda por cima arrecadava o dinheiro, rindo-se da sua própria esperteza.


O Mensageiro (uma belíssima versão sobre a conceção e educação de Jesus)
⭐⭐⭐⭐
Talvez com o tempo todos se esquecessem realmente deles e da história louca que Maria contara. Era isso o que ele mais desejava: que fossem uma família igual a todas, numa casa igual às outras, a salvo das bocas venenosas do mundo. Ele voltaria do trabalho à tarde, como os outros homens, e a família estaria reunida em volta da mesa, onde, segundo o uso, ele distribuiria o sal e partiria o pão, sem que nada os distinguisse dos demais.


Os anjos (um eloquente relato de uma infância traumatizante)
⭐⭐⭐
lamos ficar à noite à lareira, como sempre sem dizer palavra, o meu pai bebendo da garrafa até adormecer, a minha mãe sentada no chão, olhando em frente sem pestanejar, como se quisesse cair dentro do lume.
Às vezes estendia as mãos sobre as chamas até se queimar. A pele ficava vermelha e devia doer-lhe, mas ela nunca se queixava. Untava a mão com azeite, enrolava-a num lenço, voltava a sentar-se e continuava a olhar o fogo. Se eu me punha na frente ela não me via. Os olhos pareciam vazios, como se tivesse ficado cega de repente. Nunca sorria quando lhe sorríamos, nem se voltava para nós quando a chamávamos.
Profile Image for diario_de_um_leitor_pjv .
781 reviews143 followers
January 1, 2025
[COMENTÁRIO]
⭐️⭐️⭐️⭐️
"Os teclados & Três histórias com anjos"
Teolinda Gersão

Uma pequena intensamente reflexiva sobre o poder da musica e da arte na construção da humanidade. E tres contos algo fantásticos mas belos sobre multiplas tradições em torno dos seres alados a que chamamos anjos.
Um livro de Teolinda Gersão com a destreza da sua escrita e construção narrativa.
Partilho convosco um pedaço de reflexão sobre escrita e leitura que me parece ser um bom texto para começar o ano:

"Era verdade que o tempo parecia ter sido terrivelmente encurtado (Kant, Platão, Wittgenstein em dezasseis minutos, prometiam nas bancas livros magros como folhetos). Mas os livros aconteciam no tempo. Como a música. Os romances, sobretudo. Eram, como a música, uma forma de medir e organizar o tempo.
Poderia falar-se, pelo menos a prazo, da morte do leitor?
Ela gostaria de pensar que o leitor era como o escritor, de certa maneira a sua outra face, disse a mulher: Aceitava os mesmos riscos, passava as mesmas noites em claro, tropeçava nos mesmos escolhos, sonhava os mesmos sonhos. Para depois reagir sobre eles, eventualmente contra eles. Reinventava o livro, como o intérprete tocando a partitura. Por vezes numa direcção muito diferente. Era verdade que ela gostava - ou gostaria - de pensar nisso, repetiu depois de um silêncio. Mas, num mundo em que os valores eram de troca, tudo ser tornara de certo modo indiferente. O leitor, como o escritor, tornara-se uma personagem rara."

[Li de 24/12/2024 a 01/01/2025]

#livro #literatura #leitura #literaturaportuguesa
Profile Image for Vouateali.lerumlivro.
71 reviews3 followers
March 5, 2024
Os teclados & três histórias com anjos
Teolinda Gersão

Os teclados
“Mas nada disso era verdade… As pessoas não formavam comunidades, cada um
estava só.
As que viriam ouvi la queriam duas horas de divertimento e mais nada. Por isso pagavam. O mundo era um mercado. Só isso.
No entanto a vida não podia ser comprada, porque não tinha preço. E ela não seria manipulada, porque nunca se deixara manipular. A não ser pelo universo.”

Três histórias com anjos

A velha
“O mal de muita gente era não saber dar o devido valor ás coisas. A maioria esbanjava tempo e felicidade, da mesma forma que esbanjava dinheiro. Se se fosse a ver, poucos sabiam aproveitar o que tinham.”

O mensageiro
“Não tenhas medo, ele dissera no início. O que tens dentro de ti é um filho -do Altíssimo.
Era verdade os anjos, afirmou. Também a ele um anjo aparecera. Em sonhos.
Porque nenhuma dor é maior do que a morte de um filho, do que ser culpada pela morte de um filho.
Até que levantou a cabeça e viu que não era culpada.”

Os anjos
“São espíritos que andam com ela. A tua mãe tem de saber o que querem. De contrário nunca a vai deixar em paz.
O que são espíritos? São anjos.”


Um livro bom com escrita incrível e repleto de ótimas histórias.
Profile Image for Margarida Galante.
465 reviews43 followers
December 22, 2024
Uma edição que reune dois livros. A novela "Os teclados" e um livro de contos, "O mensageiro e outras histórias com anjos".

Foi a minha estreia com esta autora e fiquei com a certeza de que quero explorar a sua obra. Esta novela e os três pequenos contos, aguçaram-me o apetite. A escrita é poética, mas com uma simplicidade que faz parecer que é fácil escrever assim.
Profile Image for Alexandra Maia E Silva.
429 reviews
February 9, 2024
Adoro a escrita da TG, mas já sempre tanto sofrimento, desencontros, morte, que fico num espaço em suspenso, entre o deslumbramento e o deprimida.
As três histórias com anjos são incríveis, imperdíveis mas a amargura que fica ao mesmo tempo é difícil de dissolver
Profile Image for Pedro João.
42 reviews2 followers
February 23, 2025
a saciar a minha antiga curiosidade sobre Teolinda Gersão, finalmente, com "Os teclados": cristalino, de fluidez despretensiosa, sobre o estado criativo inerente a uma pessoa (pianista, trapezista, escritora) e como guardá-lo para si própria, privar o mundo desse talento, pode ser o melhor ato de autopreservação. sobre performance, pretensão e loucura socialmente certificada, também. o fim não foi o momento genial que esperava, mas, na verdade, este conto sempre prometeu um anti-clímax.

“A velha”: quando se cresce num país onde o fascismo ensinou que a pobreza dignifica, é difícil saber onde acaba a finta ao desencanto fatal, e onde começa a romantização da indigência. não que este conto seja granuloso ao ponto de refletir sobre classe e privilégio (há apenas um ou outro detalhe sugestivo). Gersão continua a pensar a felicidade na banalidade, a recusa do supérfluo.

“O mensageiro”: a ponderar mover um processo judicial contra a Teolinda por me ter encurralado com uma versão da história de Jesus. mas continuamos firmemente no duelo entre simplicidade e ambição, modéstia e húbris; a semente do megalomania. ok!

"Os anjos": não me apeteceu escrever sobre este conto, mas foi estupidamente bonito e triste e talvez o dia mais feliz esteja realmente para te acontecer. e demorei uns 20 dias para acabar este, só porque a tese me tira vontade de ler.
Profile Image for rosana.
160 reviews613 followers
March 31, 2025
Lido com o objetivo de realizar um projeto universitário. - Os teclados

Leitura bastante agradável e com uma abordagem incrível quanto à representação feminina.
Profile Image for Maria Carmo.
2,056 reviews51 followers
May 4, 2012
An inspiring book, powerful in its images which take us back to early childhood, a book full of color, intensity and wonder... Characters that can look and SEE what is aroung and BE HAPPY with simple things...
The first part of the book (Teclados) is a short Novel, followed by three short stories "with Angels".
Teoling Gersão has the ability to find new perspectives for daily life which transform all little things and illuminate reality... I loved it and recommend it as a Good read...

Eis um livro inspirador, poderoso de uma imagética fértil e que nos transporta à infância, um livro cheio de cor, de intensidade, de maravilhamento... Com personagens que sabem olhar em volta e VER e ser felizes em função de coisas simples...
Os Teclados é uma pequena novela, seguida de três contos "com Anjos".
Há em Teolinga Gersão uma capacidade de encontrar novos ângulos para a quotidianidade que transmutam as coisas simples e as nimbam de luz... Adorei e recomendo!

Maria Carmo

Lisboa 04 Maio 2012.
Profile Image for José Pereira.
388 reviews22 followers
August 11, 2024
Variam em grau, mas todas as histórias são aborrecidas e vulgares.
A narração não funciona, consegue ser simultaneamente elementar e embaralhada. Os “cameos” dos anjos são de bradar aos céus.
Displaying 1 - 11 of 11 reviews

Can't find what you're looking for?

Get help and learn more about the design.