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244 pages, Paperback
First published January 1, 1969
Vacilante e pensado com vagar, em meio em muitas outras linhas de pensar inacabado, o dever de que as que lhe nascessem fémeas fossem senhoras a ajeitar, a mãe diminui-lhe o nome, encolher a quer e tolhê-la ao fofo e à compostura, os bandós pesados e afinal em seu lugar medido.
A Hortelinda, a viseira manchada de curvar-se ao forno, põe-se de peso todo no rolo da massa, os maxilares prenhes da ossatura ancha que lhe vai por todo o corpo, a boca encolhida em sulcos verticais sob as gotículas de suor do esforço cego, do esforço que é a obediência parca de reflexão dos que cargam a gosto de outrem.
Apenas Maina Mendes jamais seria amante em espaços curtos, nos climas sóbrios dos tempos e da zona de gentes em que nascera, criatura demasiado habitada por heranças outras, tenaz na ímpia solidão e avessa à domesticidade.
Depois da mudez é dita por apagada trato. Os seios despontam-lhe sem pasmo, bem chegados aos braços, sem juntura, e sempre pareceu saber ao que vem e como bem se oculta o sangue dos meses. Maina Mendes persevera na sua mudez de corpo, tal como a besta fera sobrevive cordata entre os humanos, no mandamento que a tem escolhido - crescerás entre os seus teres e cuidarás em desprazer da riqueza dos túmulos que lhes enviei.
(...)não é do querer de homens de vinho fino e siso palavreiro que espero. Não há neles querer bem a isto, o ter onde acoitar a pena, o esfregão negro que trago dentro desde que me conheço, o lume sem serventia.(...)não busquei homem mas guarida segura para seguir sendo sem dono e sem repouso que me quebre.
Porque lhe não bastei? Que basta para bastar a outrem?
Tua mãe tão mole e intimidada que parecem fligrana firme sobre natas as rendas de que se cobriu(...) em seu amor que sempre foi cedido e brando(...) Como pudeste ser sem mãe?
Minha mulher que eu pensei frágil (... ) e assim tombei nas malhas do combate que travámos e que hoje sei ganho por ela [...].
(...)se é verdade que me ocupou bem mais do que jamais minha mulher, isso se deve à forma bruta como ela ocupa o espaço, bruta e bela.
Meu Deus, como lhe minto e apresso o passo sobre o agora. Espero, espero apenas, entende? E não é justo, ainda posso com uma mulher nos braços e passo os meus serões na névoa azeda e quente do álcool. Ainda o meu passo é fácil e já entendo que tudo a que pertenço me renega, tudo o que me interessa me enjeita por tardio de corpo.
Minha filha nascera com a milenar sageza daqueles para quem sobreviver não é uma contenção, mas um gosto.
Ah pai, quanta gente somos. Aqui, neste ar cálido, rodeada deste espanhol moroso e paciente, te digo quanta gente é precisa para cada um de nós se ir fazendo, quantos passos em nosso torno. E os melhores de nós são os que escutaram todas as passagens, guardando o passo das mais rijas, a graça das mais leves. E não morremos nunca. Apenas despelados, descarnados, seremos sem invólucro, enfim cumprida a promessa de explosão em que sempre estivemos.