Confesso que esta leitura não foi o que esperava, talvez porque embora não tivesse grandes expectativas, toda a gente parecia ter adorado o livro, por isso pensei que iria acontecer o mesmo comigo, o que não aconteceu.
A Mulher-Casa foi o primeiro livro que li da autora, e nunca é demais elogiar a forma excelente como escreve. Pormenorizada, sim, mas sem ser em excesso. Nunca fui a Paris mas em certas passagens parecia que eu estava a ver o que Mara via, e que a vida em Paris seria assim mesmo.
Contudo, foi talvez o grande realismo deste livro que me surpreendeu. Confesso que pensei que seria mais uma história normal, um drama pelo que deixava antever a sinopse. Mas não, e graças a isso aqui ficam as três estrelas, uma vez que Tânia Ganho conseguiu descrever e mostrar na perfeição como certas pessoas são. Indecisas, acomodadas, com medo de arriscar, de dar um passo em frente, de ir mais além.
Embora acredite que todos somos assim de vez em quando, porque isso é quase inevitável, gosto de pensar que são poucas as pessoas assim "a tempo inteiro", cuja personalidade é a da personagem principal deste livro, Mara.
Não consegui identificar-me com Mara, mas isso acontece noutros livros também. Mas aqui passei da compreensão para a irritação com esta personagem, e depois para o puro desinteresse. Foi por isso que demorei tanto tempo a terminar este livro, porque na realidade, eu já não queria saber. Mara representa tudo o que mais detesto numa mulher, é infiel, mas sempre a queixar-se, inventa desculpas para fazer o que faz, reclama de tudo, mas não se esforça por mudar nada, e engana os que vivem com ela, fingindo depois uma culpa que não sente, porque se sentisse, mudaria para melhor.
Se ao inicio compreendi a mudança brusca na vida dela, o sentir-se posta de lado pelo marido, embrenhado no trabalho, e cansada com a rotina do dia a dia, passei depressa para a irritação com os constantes queixumes. Há mulheres cujo trabalho é apenas cuidar da casa e dos filhos, e não seguem o caminho de Mara. E embora nem todas as pessoas sejam iguais, e eu considere que uma pessoa não deve nem pode ser apenas mãe, não se deve nunca anular a Mulher no dia em que ela passar a ser Mãe, também acho que não havia tanto motivo para queixa na vida de Mara.
Na verdade, acho que nesta história eu seria a irmã de Mara "...uma pessoa recta, frontal..." que "...jamais aceitaria o comportamento traiçoeiro e cobarde de Mara. Dir-lhe-ia que a realidade é a preto e branco: ou amas ou não amas o Thomas. Se o amas, respeita-lo; se não o amas, separa-te, mas jogadas dúplices é que não." E por momentos, ao aproximar-se o fim do livro, pensei, pronto, Mara vai redimir-se, vai tomar uma decisão e controlar a sua vida, fazer algo para mudar. Mas não. A sua decisão no final foi não decidir nada. Foi deixar as coisas correr, e ir pelo caminho mais fácil, não mudar a sua vida. Sim, aparentemente mudou para melhor, porque Mara conseguiu o que queria. Mas devido a si mesma? Não, nunca, devido apenas a uma outra série de factores que fizeram com que as coisas corressem daquela forma. E mesmo tendo finalmente o que queria, continuava insatisfeita, e a pensar no ex-amante na mesma. Não consigo compreender isso, e talvez por isso mesmo o livro me tenha desiludido.
Porque em vez de me fazer sonhar com vidas melhores, mais interessantes, levou-me para uma realidade que, embora saiba que existe, e mais do que quero crer de certeza, me deixa triste, porque não percebo como podem as pessoas ser tão acomodadas quanto Mara.
Mas ainda que este livro tenha sido para mim uma certa desilusão, tendo oportunidade, lerei outros da mesma autora, porque escreve muitíssimo bem, e de certeza que num tema diferente, ou com uma personagem principal diferente, me encantaria :)