um homem pode muito, pode mudar-se a cada passo. o homem pode encarar o tempo como a pedra encara mar e vento.
desde a poesia nova católica dos seus dois primeiros livros - proféticos, quase apostólicos - até aos (4) poemas dispersos vão, no entanto, apenas cerca de duas décadas. este volume, indispensáveis os prefácios dos primeiro, quarto, quinto e sexto livros, consiste uma poética, os materiais e métodos da qual se faz, e o homem, entidade poética que se constrói, consequente à língua. todos os poemas de ruy belo são uma perigosa revolta contra tudo o que se antepôs. da experimentação de formas e modelos de boca bilingue e homem de palavra[s], surge uma poesia consciente nas duas partes de transporte no tempo, de natureza prosaica e narrativa na segunda destas partes. país possível será a primeira recriação do ideal de um homem que olha o seu passado em busca de um futuro habitável. a margem da alegria é a torrente caótica de todos os poderes poéticos no desmantelamento, reconstrução e expropriação dos amores de inês de castro e dom pedro; um só poema com o livro. passa-se à manipulação rítmica do verso longo em toda a terra [ler fado português, de josé régio], que mostra um poeta mais interessado nos planos expressivos, nem tanto nos artifícios fonéticos. no seu último livro, despeço-me da terra da alegria, o autor passa a uma poética ascética e súmula, em que a convivência entre poemas torna-se um elemento de relevo - é aqui, também, que se estabelece a mais concisa manipulação de fragmentos das suas obras anteriores.
era uma vez ruy belo portugalês. era uma vez a praia da consolação com vista para nau dos corvos.