Os Malaquias, de Andréa Del Fuego, foi o vencedor do Prêmio José Saramago em 2011. Primeiro romance da escritora, seu lançamento ficou a cargo da Editora Língua Geral e esgotado há alguns anos, ele acaba de ser reeditado com o selo da Companhia das Letras.
Com 176 páginas, o livro é dedicado às suas personagens, uma escolha pouco usual mas há um motivo para esta escolha. Reunindo fatos e ficção, ele reconta a história dos antepassados da escritora, tendo como epicentro da ação a região de Serra Morena, em Minas Gerais, onde ela costumava passar as férias com os avós maternos.
A narrativa gira em torno do destino de três irmãos após um raio cair sobre a casa da família e provocar a morte dos pais. Relatada nas primeiras páginas, a cena é um dos trechos mais impactantes do livro:
“O coração do casal fazia a sístole, momento em que a aorta se fecha. Com a via contraída, a descarga não pôde atravessá-los e aterrar-se. Na passagem do raio, pai e mãe inspiraram, o músculo cardíaco recebeu o abalo sem escoamento. O clarão aqueceu o sangue em níveis solares e pôs-se a queimar toda a árvore circulatória. Um incêndio interno que fez o coração, cavalo que corre por si, terminar a corrida em Donana e Adolfo. Nas crianças, nos três, o coração fazia a diástole, a via expressa estava aberta. O vaso dilatado não perturbou o curso da eletricidade e o raio seguiu pelo funil da aorta. Sem afetar o órgão, os três tiveram queimaduras ínfimas, imperceptíveis.”
Resumidamente, Nico, o primogênito, é acolhido como trabalhador nas terras de Geraldo Passos, o maior fazendeiro da região. Os outros dois, Antônio e Júlia, seguem para para um orfanato de freiras e, enquanto a menina é encaminhado para uma família abastada, o outro, portador de nanismo, que aparenta não ter qualquer serventia, volta a morar com Nico, quando atinge a maioridade.
O desdobramento dos acontecimentos surpreende, a autora é implacável com as personagens e também sabe como capturar a atenção do leitor: uma vez iniciada a leitura, é difícil largar antes do final. Para tanto, ela urde uma trama em que os acontecimentos mágicos são relatados de forma cotidiana, ou seja, o sobrenatural não é simples ou óbvio mas algo ordinário, um acontecimento do dia a dia.
Apoiado por capítulos curtos, uma linguagem enxuta mas poética e um estilo fluido, peculiar aos bons contadores de histórias da tradição oral, Os Malaquias prima pelas alegorias e a partir da complexa conciliação entre progresso e preservação ambiental, uma aparente dicotomia, exibe a questão da dualidade. Por sinal, na numerologia, o número dois representa a mediação entre as forças da natureza e outros planos e talvez aí esteja o mistério de Serra Morena.