"Gênero, sexualidade e educação" enfoca algumas questões centrais das práticas educativas da atualidade. A produção das diferenças e das desigualdades sexuais e de gênero, em suas articulações com outros "marcadores sociais", como raça, etnia, classe, é analisada pela autora, numa perspectiva que busca referências nas teorizações pós-estruturalistas.
Eu já havia lido O Corpo Educado, que era uma organização da Guacira Lopes Louro e tinha gostado muito. Pequei na biblioteca este livro para ler um texto só dela. O livro é um daqueles essenciais para se pensar tanto o gênero no latu sensu ou ainda ele voltado para as práticas educativas. Neste livro, Guacira coloca em xeque a educação e os elementos que envolvem a sexualidade tanto no tocante dos docentes como dos discentes. A educação, como coloca bell hooks, é algo que vai contra as teorias de gênero, tanto a feminista quanto a queer, que acreditam na construção do ser humano e não na sua padronização, classificação e pasteurização como o modelo da educação contemporânea faz. Assim, essa prática por si só não permite a ampla discussão da sexualidade, como também não consegue a incluir em nenhuma disciplina do currículo básico atual. Isso dificulta o acesso a qualquer discussão sobre gênero, sexo e sexualidade na sala de aula. Este modelo de educação, parece, então, dificultar o elucidamento destas questões e, ao invés de discutir as diferenças, parece estar apoiado numa maior segregação entre gêneros e sexualidades. Há de se pensar novas formas de educar, desde suas bases, para que não se engendre sujeitos misóginos, racistas e homofóbicos.
Em primeiro lugar, preciso dizer que este é o primeiro material que eu leio que descreve seriamente o conceito de gênero (e sexualidade). Até então, tudo o que eu lia a respeito caía em uma de três categorias: ou eram memes de humor datado que ridicularizavam caricaturas de defensores do conceito de gênero; ou eram notícias e artigos de mídias polemistas, que se valem do medo para conseguir cliques com o termo gênero, geralmente imiscuído a questões infantis; ou eram atitudes histéricas ou segregacionistas dos próprios defensores das teorias de gênero.
Este livro tem passagens que funcionam bem como introdução às ideias de gênero. Talvez o motivo pelo qual essas questões causam tanta discórdia, especialmente no Brasil, seja o desprezo pela visão de outrem. Com toda certeza, a República das Letras ainda não passou por aqui.
Enfim, a autora introduz os principais conceitos com os quais lidará ao longo dos capítulos do livro (sexo, sexualidade e gênero) e então os aplica, mais especificamente, à educação. Aqui temos outro ponto bastante sensível de discussão: O que estão ensinando às nossas crianças? Essa discussão é permeada de preconceitos e questões mal-resolvidas do debate público brasileiro. Acredito que a autora tenha feito um bom trabalho em apresentar as angústias de meninos mais afeminados e meninas mais masculinizadas na escola. Enquanto os "defensores da moral e dos bons costumes" tentam associar a noção de gênero à "perversão das nossas crianças" (note como dependem de abstrações!), Guacira põe em discussão indivíduos bem concretos, com dores que não são difíceis de imaginar.
Ora, as crianças são bem diferentes umas das outras e, como dizia C. S. Lewis, bem mais espertas do que muitos imaginam. Portanto, quanto mais os setores conservadores da sociedade tentam frear determinadas discussões de gênero, mais estão ferindo crianças que, muitas vezes, são rejeitadas e vilipendiadas por seus colegas. Fica fácil aceitar essa situação quando se presume que essas crianças ainda precisam ser "endireitadas", ou que "é só uma fase". Fosse fácil assim, não deveria haver sofrimento, já que é só mudar de comportamento e preferências para tudo melhorar — ou seja, estamos negando que as características da criança sejam produtos do seu âmago, como se o eu fosse algo simples de alterar, sem perdas e apenas com benefícios.
Essa não é a única discussão do livro. Na questão da educação, a autora também aborda o tema da docência. Fora disso, ela aborda um pouco do feminismo. Tudo isso é com contextualização histórica, o que incide luz sobre algumas questões importantes que, antes da leitura, eu achava obscuras.
Se já não ficou claro, achei este livro decente como introdução à teoria de gênero e, talvez, ao feminismo. Mas, se até aqui falei tão bem dele, também preciso criticar algumas coisas. Em primeiro lugar, para um livro de 1997, esta edição (16ª) contém alguns erros de concordância (de número e gênero) um tanto estarrecedores. Alguns parênteses e aspas que se abrem e nunca se fecham também fazem parte do catálogo de bizarrices. São pequenos detalhes que comprometem a leitura e o entendimento de certas seções.
A crítica mais forte que faço reside na abstração da obra. Isso é um problema que parece existir em muitas dessas teorias. Ora, a autora menciona várias vezes como as teorias feministas surgiram de inúmeros debates, crônicas e análises históricas. Entretanto, o livro é leve como uma pluma em exemplos. Se consigo imaginar as dificuldades de uma criança que é isolada na escola, não posso dizer o mesmo para "a forma como a sexualidade é vivida", e não me recordo de nenhum exemplo, nem um único caso real que a autora tenha citado que me esclareça o que isso quer dizer.
Dar exemplos é fundamental para que pessoas como eu, que não têm ideia do que alguns desses termos possam estar querendo expressar, sintam que as teorias feministas não sejam uma baboseira total. Eu não sinto isso, mas imagine quantas pessoas sentem por causa do palavrório robusto dessas teorias, que raramente é acompanhado de casos reais que lhes deem sentido na vida de pessoas menos politizadas, ou menos conectadas ao universo da causa feminista. Fica parecendo que o feminismo é o produto de cientistas malucas hermeticamente fechadas nas suas faculdades, preparando uma forma de dominar o mundo com as suas ideias absurdas.
Evidentemente, as coisas não são assim; mas, para muita gente, parece que são. Acredito que os pontos fortes do livro vençam os fracos; mas que bom seria se os fracos não existissem!
Um dia isso chegou a ser novidade; hoje, algo equivalente a ler Tales de Mileto. Extremamente Importante historiograficamente, um tanto quanto redundante pragmaticamente.