«Este romance guarda um título secreto nascido com ele mal pisei o areal nazareno após treze horas de ansiedade e angústia a bordo do Mar Santo, que parecia talhado para esquife de nove vidas. Nesse dia estava rabiosa. Um mar rábido e desvairado, um mar de levadio, um verdadeiro mar de cruzes, o inferno de um Mar Amarelo. Romance do Mar que aqui domina o sabor da vida dos homens, só o próprio nome nazaréu lhe caberia usar – rabiosa. […] Outras razões o baptizaram, porém, com o título que leva consigo enquanto durar.»
Cedo começou a trabalhar dada a natureza modesta da sua família. Parte para Angola, aos 16 anos, procurando melhores condições de vida, regressando a Portugal três anos depois. Junta-se ao Movimento de Unidade Democrática (MUD), que se opunha ao regime do Estado Novo, e filia-se no Partido Comunista, escrevendo artigos no jornal O Diabo.
Introduziu o neo-realismo em Portugal com o romance Gaibéus (1939), nome dado aos camponeses da Beira que iam fazer a ceifa do arroz ao Ribatejo, em meados do século XX. Daí em diante sua obra revela uma grande preocupação social, velada ainda assim, dada a censura e à perseguição política movida pelo regime de Salazar aos oposicionistas, e mormente aos simpatizantes do PCP, como era o caso. Chegou mesmo a sofrer prisão política tendo sido torturado.
Seu último romance, Barranco de Cegos, de 1962, é considerado sua obra-prima e afirma sua nova fase, em que a intervenção política e social é posta em segundo plano, dando lugar a um centramento nas personagens e na sua evolução psicológica, de cariz existencial.
Com o aparecimento de Gaibéus, Alves Redol lançaria um grito de renovação na vida literária portuguesa em face à literatura da época. Escritor de admiráveis méritos e possuidor de uma forte concepção humanista, tem vindo, desde então, a impor-se através de uma obra intensa em que se ressalva o seu poder criador, a sua fidelidade ao movimento literário que iniciou, em romance, e, a sua lealdade aos problemas humanos. E assim, com Uma Fenda na Muralha, Alves Redol vem confirmar as suas qualidades de romancista, já na sua maturidade, debruçado sobre a vida, desde há muito justamente consagrado, com 300 páginas duma descrição empolgante e de grande tensão dramática que não contém apenas «uma análise do medo em oito homens diferentes — desde os que dominam aos que são tomados de pânico» — mas, também, os problemas dos homens do mar, do nosso litoral, num documento vibrante de humanidade para além do interesse pitoresco e turístico com que a vida desses homens fica ofuscada.
Um testemunho notável das gentes do mar, da sua luta e resiliência. Um retrato brutal da humanidade, dos seus sentimentos humanos mais básicos, mas também dos mais nobres. Que livro.