“Saia da Frente do Meu Sol,” de Felipe Charbel, é um livro que mescla biografia, ensaio e ficção para explorar a vida de um tio-avô enigmático, Ricardo, através de fotografias e documentos antigos. Charbel, um historiador e escritor carioca, embarca em uma investigação profunda e sensível sobre a figura desse parente, que viveu uma vida aparentemente modesta e reclusa, sempre à margem das dinâmicas familiares mais amplas.
O livro é descrito como um “romance fotográfico”, onde as imagens encontradas por Charbel desempenham um papel central na narrativa. Essas fotografias, retratando Ricardo em diversas situações cotidianas, ajudam a construir uma biografia especulativa, preenchendo lacunas deixadas pela falta de registros mais detalhados. Charbel utiliza essas imagens não apenas como meros suportes visuais, mas como textos literários por direito próprio, repletos de camadas interpretativas que enriquecem a compreensão da vida de seu tio-avô.
A obra também dialoga com conceitos da antropologia visual e referências literárias como Roland Barthes e Pierre Michon. Charbel inverte a ideia de Barthes sobre a fotografia como um “retorno do morto”, propondo que as fotos de seu tio trazem à tona o “retorno do vivo”, explorando o passado para iluminar aspectos ocultos da existência de Ricardo e, por extensão, da sua própria vida.
Além de ser uma exploração pessoal e familiar, “Saia da Frente do Meu Sol” oferece uma reflexão mais ampla sobre como construímos e interpretamos memórias. A frase de Michon, “falando dele é de mim que falo,” destaca a interconexão entre a narrativa do tio e a autoexploração do autor, revelando uma intimidade que se espelha entre o escritor e seu personagem central.
Em suma, ainda que seja um pouco lenta, “Saia da Frente do Meu Sol” é uma obra tocante e introspectiva, que nos convida a refletir sobre as vidas aparentemente pequenas e as histórias que elas guardam, propondo uma nova forma de entender o passado através de um olhar diferente.