Uma coleção de contos que tem como temas/ideias centrais a pandemia de Covid-19, Moçambique, realismo mágico (ou melhor, realismo animista), pássaros, refugiados, água, maternidade, sororidade, e violência machista.
Os contos foram, originalmente, publicados um de cada vez na revista Visão e eu adorava tê-los lido nesse formato periódico. Mas lê-los em conjunto num livro também foi enriquecedor por podermos notar os temas/ideias centrais que transparecem ao longo de todos os contos, conferindo-lhes um sentimento de unidade e criando um estilo/género próprio do autor.
Atribuí uma cotação a cada uma das pequenas histórias, de forma a distingui-las, mas no geral o livro foi fantástico como companheiro das minhas últimas semanas. O meu prazer ao ler as histórias vai de 2* (uma história okay, sólida), a 3* (uma boa história), a 4* (uma história excelente que irei partilhar) até 5* (uma história que me tocou de forma especial e única).
Contos:
1. Um gentil ladrão – 4,5*. “Depois de anos de tormento, reconcilio-me com a humanidade: um ladrão tão desajeitado só pode ser um homem bom. Para a semana, quando ele voltar, vou deixar que roube a velha televisão que tenho no quarto.”
2. A imortal quarentena – 2*. “O vírus é cego, mas a quarentena tem as suas hierarquias sociais.”
É difícil sentir pena do protagonista enquanto ele descreve a vida bem mais complicada da sua empregada e faz com que ela espere duas horas por transporte durante uma pandemia para ir tomar conta dele. Penso que o objetivo do autor era mesmo celebrar esta empregada, a sua bondade, humildade e lealdade. E eu penso que o estado mental do protagonista não é algo a menosprezar, a saúde mental é extremamente importante e não é garantida pelo nosso nível de privilégio na sociedade. Mas a história acaba por contrastar as duas vidas (do protagonista e da empregada) de uma forma que o protagonista fica a parecer um bebé grande, ainda que self-aware até certo ponto.
3. O caçador de elefantes invisíveis – 2,5*. “O homem está a perguntar se, desta vez, não lhe deixamos uns frasquinhos com álcool-gel.”
4. O vestido vermelho – 3*. “As armas pesam sobre as espáduas dos homens que são bons, pensei. Talvez fosse por causa disso que este pequeno soldado coxeava da perna direita.”
5. O observatório – 3*. “Não se engane, senhor padre: o senhor também trabalha nos subterrâneos. Aliás, não há nesta vida trabalho que não seja de mineiro, seja ele executado por cima ou por baixo da terra. Arrancamos pedaços do mundo e, nesse vazio escuro, vamos deixando de nos ver uns aos outros. Só sabemos que estamos juntos quando um desastre faz desabar o teto da mina que todos partilhamos, neste mundo tão sombrio.”
6. As pequenas doenças da eternidade – 3,5*. “Penteava a mãe, dizia ele, para que ela nunca morresse. Contrariava assim os pedidos que a progenitora dirigia a Deus, encomendando-Lhe doenças avulsas. Por via dos seus cuidados, a mãe ficava imune a essas encomendadas maleitas. Mais do que curada: Margarida Malato tornava-se eterna.”
Quem me dera que fosse um pouco mais comprido!
7. A fumadora de estrelas – 3,5*. “A mão dela foi, por um instante, a boca de todas nós.”
8. O meu primeiro pai – 3*. “Esse primeiro marido que ela inventava era, afinal, este nosso pai num outro tempo, antes do desemprego e da bebida. E nós éramos filhos, aliás órfãos desse outro que se extinguiu dentro do atual esposo.”
Um pouco confuso na parte final.
9. Pássaros cegos – 2*. “Ele sempre foi assim, impondo caprichos a quem ele mais amava.”
10. De reis mortos e águas-vivas – 3,5*. “Lembrou-se então das palavras da sua velha mãe: há momentos em que Deus ensina quanto o joelho precisa do chão.”
11. A borboleta – 2,5*. “Mas a borboleta deu meia volta e voou na direção oposta. Pousou num quadro pendurado na parede do lado oposto. A borboleta tinha escolhido essa cor como o seu pouso definitivo. O céu que restava lá fora era demasiado escasso para voar. E demasiado sujo para morrer.”
12. As mãos, as mães – 2,5*. “Na rua enrosquei os dedos uns nos outros, com medo de que, ao abrir as mãos, a vida tombasse aos meus pés.”
13. As cinzas – 4*. “Amanhã, uma vez mais, quem vai varrer sou eu.”
14. Matar o mar – 3*. “A manhã nasceu e vi o mar voando sobre a nossa aldeia. As asas do mar roçaram-me os pés e os velhos sapatos, como duas indolentes canoas, foram-se afastando de mim. Para longe, tão longe da terra, tão dentro de mim.”
15. Guaparivás – 5*. “Contrariado, o homem deixa-se balançar. Os pés são raízes mais fundas do que a própria casa. Há anos que marido e mulher não se encostam assim tão cheios de corpo.”
Lembrou-me a minha família, de uma forma querida e wholesome, o que muito raramente acontece.
16. A culpa – 4*. “E dizem os que viram (e há sempre quem jure ter visto) que havia um menino que corria, alegre, ao lado da mulher.”
17. O vice-viajante – 3*. “No fundo, sou eu que estou grato: cada história minha é uma reza que faço junto à anónima cova onde se deitaram os meus pais.”
18. A outra – 3*. “Nessa madrugada, com as próprias unhas, Ntavase abriu uma cova num terreno baldio. Sabia que esse serviço não teria nunca fim. Para enterrar um filho é preciso uma cova maior que o mundo.”
19. O apeadeiro – 2,5*. “Pelas costas de um homem sabe-se da sua vida: a quem ele se curvou, que raivas refreou, que sonhos o visitaram.”
20. O parto póstumo – 2,5*. “Pouco me importava o tempo: eu ansiava esquecer o mundo, exilar-me da cidade, emigrar de mim. Eu tinha fome de longe, mas a minha verdadeira doença era o antecipado tédio de haver um destino.”
21. A gota – 3*. “Às vezes , meu velho, mentir é a única maneira que nos resta de rezar.”
22. A parede – 4*. “O que vê em mim não são rugas. É excesso de pele. O meu medo é que estas pelancas me cubram os olhos e eu, como certas plantas, sufoque com a minha própria casca.”
23. A libélula – 3,5*. “Ai mãe, que te caiu um pé!” “Melhor assim” disse Mariana, sorrindo. “Melhor assim, que não tenho sapatos.”
24. A alma têxtil – 3,5*. “No assalto às bases do inimigo o coronel Covas dava ordem aos soldados para que não fizessem prisioneiros. Ei-lo agora, prisioneiro do que foi, a alma para sempre amarrada ao uniforme.”
25. Colóquio de pedras – 4*. “Vamos fazer uma praça nova, mulher. Amanhã mesmo começamos a construir estátuas novas. Estátuas de todos, estátuas para todos. Nativos e forasteiros, amigos e inimigos. Tudo junto, ali no mesmo terreno. Quem vier à praça vai escutar as estátuas a conversarem.”
26. Um país sem nome – 3*. “E sentaram-se os dois no sofá, com as mãos cruzadas sobre um país onde nunca ninguém tinha morrido.”
Vou sentir falta deste companheiro na carteira, que ficava tão bem em fotos, que combinava sempre com a minha roupa e que, mais importante, me proporcionava uma pequena história ao longo do dia.