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Balada da Praia dos Cães

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O romance foi escrito no período pós-revolução de 25 de Abril de 1974. A acção situa-se no princípio dos anos 60, e retrata alguns aspectos da sociedade portuguesa em plena época da ditadura salazarista. Relata a investigação dum assassínio; e a história começa com o relatório da descoberta de um cadáver enterrado na Praia do Mastro em 3 de Abril de 1960. Mais tarde, a polícia descobre tratar-se do major Luís Dantas Castro, um militar preso por tentativa de rebelião contra o regime vigente e que escapara da prisão.

302 pages, Paperback

First published November 1, 1982

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About the author

José Cardoso Pires

41 books118 followers
JOSÉ CARDOSO PIRES nasceu na em São João do Peso, concelho de Vila de Rei, distrito de Castelo Branco, a 2 de Outubro de 1925. Estudante na Faculdade de Ciências de Lisboa, trocou as matemáticas superiores pela marinha mercante. Entre 1969 e 1971, foi docente de Literatura Portuguesa e Brasileira no King’s College, em Londres. Foi director literário de editoras lisboetas e director-adjunto do Diário de Lisboa (1974-75). Estreou-se com Os Caminheiros e Outros Contos (1949) e obteve o Prémio Camilo Castelo Branco com o romance O Hóspede de Job (1964). Dentro do neo-realismo, retoma a tradição satírica setecentista. Entre outros, escreveu os romances O Delfim (1968), Dinossauro Excelentíssimo (1972), Balada da Praia dos Cães (1982, Prémio da Associação Portuguesa de Escritores), Alexandre Alpha (1987), República dos Corvos (1988). Escreveu para o teatro O Render dos Heróis (1960) e Corpo Delito na Sala de Espelhos (1979). Deu ainda a lume a colectânea de ensaios Cartilha do Marialva (1960) e o volume de crónicas E agora, José? (1978) e A Cavalo no Diabo (1994). Em 1997 publicou De Profundis - Valsa Lenta e Lisboa, Diário de Bordo que lhe valeram o Prémio Pessoa desse ano. Foi condecorado pela Presidência da República com a Comenda da Ordem da Liberdade, em 1985. Faleceu a 26 de Outubro de 1998, em Lisboa.

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5 stars
218 (17%)
4 stars
486 (39%)
3 stars
396 (31%)
2 stars
106 (8%)
1 star
33 (2%)
Displaying 1 - 30 of 78 reviews
Profile Image for Luís.
2,378 reviews1,372 followers
August 14, 2025
Written after the Carnage Revolution, this work situates the action in the early 1960s, portraying some aspects of Portuguese society in the middle of the Salazar dictatorship.
The novel reports the investigation of a murder. The scenario is Portugal in the early 1960s, a crucial period for the fascist regime since the country had just lost its territories in India, and the armed revolt in the African colonies had begun to spread.
The book has two plots, one describing the investigation and the other constructed through the study of the crime. The first story's protagonist is Elias Santana, a chief of the Judiciary Police charged with finding those responsible for the assassination of Major Dantas Castro. The Major, imprisoned for 'attempted military sedition,' had escaped from the military fort with the help of three accomplices. They fled from prison to a hidden house about twenty kilometers from Lisbon, nicknamed 'Casa da Vereda.' Three months after his escape, the Major was murdered by his accomplices: Mena, a young woman with whom the Major had a violent and obsessive relationship before his arrest, the architect Fontenova, and Corporal Barroca, a field guard doing his military job.
The Major sees Mena as proof of his chauvinism, the sensitive intellectual Fontenova with contempt, and the peasant Baroque as his servant. The four are hiding there waiting for a signal from lawyer Gama and Sá, their contact in the resistance, who, it seems, wants to distance themselves from the Major. The reader watches the events in the house through the descriptions made by Mena in her testimony to Elias Santana. In her detention and the methods used by Covas to interrogate her, the police procedures of that time are described.
The inquiry by Elias Santana aims to elucidate the second story, as is the case for a judicial police officer. However, his investigation reveals far beyond the simple events of the case, which were ascertained. Accompanying its performance, we see a country where the truth, or history, is only the version of what happened that best serves the power imposed on the population. Following Elias's investigations, the reader also dives into his empty and grey life with only one lizard for company. Through his pilgrimages to Lisbon, shy of the years of fascism, and his interviews with suspects and witnesses about the case, we have a polyphonic vision of contemporary society.
The book continually alerts the reader to a possible and plausible fiction. This fact allows the book to be classified as "historical metafiction."
Profile Image for Paulla Ferreira Pinto.
266 reviews37 followers
June 19, 2019
Citando Lobo Antunes no prefácio desta edição: “Por favor, leiam-no: é uma imensa prenda que darão a vós mesmos”.
Profile Image for Ana.
230 reviews92 followers
October 4, 2016

"Eu creio que o medo é uma forma dramática de solidão. Uma forma limite também, porque corresponde à ruptura do equilíbrio do indivíduo com aquilo que lhe é exterior. Mas o pior é que essa ruptura acaba por criar uma lógica de defesa, eu pelo menos apercebi-me disso, a lógica do medo vai estabelecendo certas relações alienadas de valores até um ponto em que se sente que o medo se torna assassino" – Arq. Fontenova, em conversa com o autor, Verão de 1980.
(Apêndice, p. 242)
Balada da Praia dos Cães , um romance ao estilo policial noir, relata-nos a investigação de um homicídio e, sendo ficção, baseia-se num acontecimento verídico. Como o autor refere na Nota Final, em 1961 chegou-lhe às mãos o relato de um homem condenado pela co-autoria de um homicídio. Após o 25 Abril de 1974 o autor acedeu aos relatórios dos dois processos-crime respectivos, da Polícia Judiciária e da PIDE. Com base nessa documentação JCP parte para a criação desta obra ficcional. A separação entre os domínios ficcional e real é-nos assim descrita pelo autor: […] entre o facto e a ficção há distanciamentos e aproximações a cada passo, e tudo se pretende num paralelismo autónomo e numa confluência conflituosa, numa verdade e numa dúvida que não são pura coincidência. (Nota final, p. 244)

No romance, cuja acção decorre em 1960, o enredo gira em torno do assassinato do major Dantas Castro, evadido da cadeia de Elvas onde estivera detido por tentativa de rebelião contra o regime salazarista. São companheiros de fuga, o aquitecto Fontenova, também preso político, e o cabo Barroca, militar em serviço na cadeia e facilitador da evasão. Filomena (Mena), amante de Dantas Castro, é cúmplice dos fugitivos. Com o consentimento da PIDE, a investigação do homicídio fica a cargo de Elias Santana, chefe de brigada da Polícia Judiciária.

O romance não segue o padrão do policial clássico. Muito mais do que nos deixar suspensos sobre quem perpetrou o crime, a narrativa desenvolve-se no sentido de nos deixar expectantes em relação às motivações que lhe estão subjacentes; e mais do que centrar-se na acção, centra-se na construção dos personagens e de um cenário político e social que foi o Portugal salazarista.

É interessante como o universo dos fugitivos, e a tensão que se instala nas suas relações interpessoais, podem ser encarados como um microcosmos do medo, das tensões e da desconfiança que, nessa época, estavam instalados à escala nacional. Interessante é também a forma como o desenrolar do enredo faz esbater a fronteira entre o lado supostamente "bom" e o lado supostamente "mau" - como Elias Santana (personagem magnificamente construído, enquanto indivíduo e enquanto elemento simbólico) nos vai cativando com a sua solidão melancólica de polícia desligado da política e unicamente dedicado à resolução do crime, e como Dantas Castro nos vai desgostando à medida que o nosso conhecimento se alarga das suas ideias políticas para a sua personalidade.

A narrativa é fragmentada nos planos espacial e temporal, intercalando duas histórias:
– a investigação levada a cabo por Elias Santana, que nos apresenta os pensamentos e reflexões do personagem e excertos dos interrogatórios e relatórios policiais;
– os acontecimentos que envolvem os fugitivos, desde a evasão até à ocasião da morte de Dantas Castro, que nos são dados a conhecer sobretudo através dos depoimentos de Mena.

Esta espécie de polifonia pode inicialmente ser estranhada pelo leitor, que tem de manter a concentração necessária para não perder o fio à meada.

Não obstante o estilo geralmente seco da prosa, a ironia está sempre presente e há também momentos de uma beleza decadente, nostálgica e sombriamente poética, sobretudo quando a cidade de Lisboa ganha corpo e alma para evocar impressões e estados de espírito.
Lisboa, esse vulto constelado de luzes frias do outro lado do rio, é um animal sedentário que se estende a todo o país. É cinzento e finge paz. [...] Mesmo abatido pela chuva, atenção porque circulam dentro dele mil filamentos vorazes, teias de brigadas de trânsito, esquadras da polícia, tocas de legionários, postos da GNR, e em cada estação dessas, caserna ou guichet, retratos de políticos que andam a monte. O perímetro da capital está todo minado por estes terminais, Lisboa é uma cidade contornada por um sibilar de antenas e por uma auréola de fotografias de malditos com o Mestre da Pátria a presidir.
(p. 45)

Desliza ao arrepio da febre pelo nocturno mais triste da cidade, Intendente, Socorro, Rua dos Fanqueiros. [...] Durante a viagem, e depois quando Elias sai do táxi, não olha uma única vez para a cidade que percorre de fastio como se ela fosse uma galdéria mal amanhada.
(p. 140)
Balada da Praia dos Cães foi adaptado ao cinema em 1987 por José Fonseca e Costa.



Profile Image for Sara Jesus.
1,678 reviews123 followers
January 25, 2018
Este é um livro diferente. Uma história peculiar. Um relato de uma investigação de homicídio. A vitima ( não tão vítima assim) é Luís Dantas Castro, ex- major do exército e envolvido num suposto golpe militar. Os suspeitos são Mena (a sua amante), o arquitecto Fontenova e o cabo ( ambos envolvidos nos planos do assassinado).

Não é um policial surpreendente como os de Agatha Christie, em que o verdadeiro assassino é quase sempre alguém que não esperamos. Em "A balada da praia dos cães", que tem este nome por o major ser encontrado num praia rodeado de cães, sabemos desde do seu início quem são os culpados. O que torna este romance diferente é pelo facto de ser narrado como uma verdadeira investigação policial, e o seu protagonista ser uma figura cheia de mistérios e vícios. Elias Santana, mais conhecido pelo o Covas, é o responsável por toda esta drama policial. A sua vida está rodeada de mortes e fantasmas. E parece ter uma estranha obsessão por Mena.

Por último, esta obra leva-nos a um período negra da nossa história. O Estado Novo que controlava a vida da sociedade portuguesa através da PIDE. O que leva ao protagonista ver este crime como um crime político. Observa-se como esta polícia política está no centro de toda esta narrativa. São as suas acções que levam ao trágico fim de Luís Dantas C.
Profile Image for Ana.
596 reviews67 followers
May 26, 2017
Investigação criminal no seu melhor...
"Tempo ao tempo. Mais depressa se apanha um assassino que um morto, porque, como dizia o outro, o morto voa a cavalo na alma e o assassino tropeça no medo." (pág. 13)
Profile Image for Margarida Galante.
466 reviews43 followers
April 20, 2024
Quando comecei a ler este livro lembrei-me que já tinha comecado a lê-lo, há muitos anos. O marcador estava na página em que o abandonei. Não é uma leitura fácil, a estrutura temporal é confusa e a narrativa fragmentada. A acção e investigação mistura-se com relatórios policiais, relatos de momentos passados e com divagações do chefe de brigada Elias Santana, também conhecido por "Covas".

O livro inicia-se com um relatório médico-policial relativo a um cadáver encontrado numa praia, rodeado de cães famintos. O morto era o Major Dantas Castro que se tinha evadido da prisão de Elvas, onde estava detido por suspeitas de conspiração contra a Ditadura Salazarista. A história baseia-se num caso real e passa-se em 1960. Os suspeitos são o arquitecto Fontenova, que se encontrava preso pelas mesmas razões do major, o cabo Barroca, que prestava serviço na cadeia e facilitou a evasão, e Filomena Ataíde, ou "Mena", a jovem amante do major.

As personagens são todas peculiares e com várias camadas, destacando-se o Chefe Elias e Mena. Mais do que a investigação, na minha opinião, o interesse do livro está no ambiente da época. O ambiente conspirativo e sombrio está bem presente em toda a trama. A investigação é conduzida pela "Judite", mas a sombra da PIDE está sempre à espreita, tudo sabe, tudo vê, tudo controla. O retrato de Salazar surge frequentemente, em posição altaneira e de destaque, impondo respeito e a moral conservadora e repressiva do regime.

Fui intercalando esta leitura com o filme "A Balada da Praia dos Cães", realizado por José Fonseca e Costa em 1987. Tornou a leitura bastante mais fácil pois ajudou-me a perceber melhor o enredo. O filme está disponível no YouTube.

É um livro original, considerado experimental, que não é fácil, mas que gostei de ler, especialmente pelo retrato da época e pelo tom sarcástico e crítico da escrita. Um livro importante na literatura portuguesa do século XX.
Profile Image for Marta Clemente.
754 reviews19 followers
April 21, 2024
Um livro de difícil leitura, mas com uma escrita e uma ironia deliciosas. "Balada da praia dos cães" é um policial noir que nos descreve uma investigação.
Passa-se em 1960, e pelo que percebi baseia-se num crime real. No entanto o autor quis escrever sobre ele em liberdade, então demorou mais de 20 anos para o fazer.
Começa com o aparecimento de um cadáver na Praia do Muro. Trata-se do major Dantas, fugitivo da prisão de Elvas onde estava por ser dissidente político.
A história está narrada como se se tratasse de um relatório policial. Achei-a verdadeiramente difícil de entender. Tem vários saltos temporais e divagações do agente Elias Santana, também conhecido como Covas. Fui alternando esta leitura com o visionamento do filme homónimo de 1987, o que ajudou à compreensão quer do livro, quer do filme. São um excelente complemento um do outro e um excelente documento de uma época.
Aliás, mais importante do que a história em si é precisamente a descrição dos ambientes. Gostei bastante, mas é uma leitura para ser feita com muita calma.
Profile Image for Marta Xambre.
252 reviews29 followers
October 9, 2021
2,4⭐

Finalmente terminei de o ler!! Confesso, sem qualquer sobranceria, que foi uma luta e uma caminhada muito difícil ler este livro... Contudo, não desisti, pois estava, permanentemente, com esperança de acontecer algo na minha rica pessoa que me fizesse prender à narrativa.
Reconheço, indubitavelmente, o mérito do autor quanto à sua capacidade de escrita, porém não consegui gostar. Não me prendeu de todo, facilmente me desconcentrava e quando dava por mim lá estava eu a pensar no outro livro que tinha para ler.
Lamento muito por não ter apreciado a obra, na medida em que tinha muitos ingredientes para que eu gostasse desta iguaria, a saber:
a época e o contexto social e político retratados , o enredo, e o sarcasmo tão presente na obra, são várias aspetos que me interessaram e agradaram, mas que não foram suficientes para o livro me conquistar.
Porém, não desisti do José Cardoso Pires...
Profile Image for tiago..
465 reviews135 followers
May 25, 2020
"Atmosférico" é talvez a palavra que melhor descreve este livro. José Cardoso Pires transporta-nos para uma Lisboa dos anos 60, tingida com tons de filme noir, para este relato de uma investigação de assassinato baseada em factos reais.

Uma estrutura distinta e um estilo de escrita sui generis, direto, honesto, cru. Uma história de assassinato que mantém o leitor cativo, cheia de personagens com sabor a mistério. José Cardoso Pires foi uma agradável surpresa para mim, que pretendo repetir noutros livros deste autor.
Profile Image for Pedro Freitas.
18 reviews8 followers
September 26, 2018
A Balada da praia dos cães é de facto um livro importante para compreender um certo período da vida portuguesa do século XX. Com uma história em torno do homicídio de um resistente anti-fascista no inicio dos anos 60, a história é um retrato realista, fiel e sobretudo muito cru de um Portugal decadente, dominado por um regime claramente já a entrar nos seus últimos suspiros. E é sem dúvida esta a imagem que José Cardoso Pires melhor consegue desenhar ao longo de todo o livro, a visão de um Portugal aparentemente moralizado, que não passa, contudo, de uma capa para uma Lisboa onde se passeiam prostitutas, bêbados e malucos que deambulam pelas tascas gordurentas e pegajosas de uma cidade que vai decaindo...tal como o país. E é este retrato tão bem construído que se sobrepõe ao crime descrito no livro. Aliás na trama principal Cardoso Pires parece que nunca consegue chegar de facto ao tom policial que talvez desejasse, ficando-se por um sucessão de descrições frias cheias de pormenores grotescos, das personagens e das diferentes cenas em que estas participam.
Contudo sem dúvida um estilo para voltar a repetir em breve, talvez na sua obra-prima: o delfim

ps: esta review estava há 4 dias para ser escrita, mas ando com o pecado mortal da preguiça! lol
Profile Image for Nuno R..
Author 6 books72 followers
February 20, 2018
Vi o filme antes (com o Raul Solanado brilhante como protagonista). E por algum motivo tinha adiado esta leitura. Ainda bem que li e depois continuei com mais um ou outro do José Cardoso Pires. Gostei muito.
Profile Image for Rosa Ramôa.
1,570 reviews85 followers
October 26, 2014
Investigação dum assassínio...
A história começa com o relatório da descoberta,graças a alguns cães, dum cadáver enterrado numa praia...
Profile Image for Eloisa Louceiro.
87 reviews15 followers
February 22, 2012
Hum, este livro!
Chamem-lhe intenso, ele é... e de repente passamos para

Documento oficial:
aos vinte e um dias do mês de fevereiro de dois mil e doze, reporta a dita cuja, que deu por terminada a leitura do livro acima mencionado com louvores e impaciências, e que no decorrer da última parte finalizadora se sentiu verdadeiramente emocionada e sentida pelo finalizar finalmente da supra citada e mais uma vez referida história.

Os personagens são intensos e Mena, Mena fuma, fumou. Mena fumando. E pronto, é isto. Quer saber mais e perceber a intenção aqui da modesta opinante Elo? Leia. Mas não é fácil. Fica o aviso para quem se atrever.
Profile Image for André Morais.
94 reviews4 followers
March 11, 2023
A escrita de Cardoso Pires estranha-se e depois entranha-se. Pelo menos comigo, foi este o caso. Depois de ler “O Delfim”, apreciei mais a “Balada da Praia dos Cães”.
É um romance fabuloso em que a narrativa vai evoluindo por diferentes caminhos: não só através dos relatos do narrador e dos diálogos entre as personagens, mas também através de relatórios policiais ou forenses, dos sonhos e das reflexões das personagens ou pelas notícias de jornal.
Tendo por mote o assassínio do major Dantas Castro, uma figura conspirativa e oposicionista, a “Balada” dá-nos um relato fiel do Portugal salazarista dos anos 1960, seja no ambiente que se vivia, na perversidade das personagens ou no desenho preciso de uma burocracia da repressão que já ia entrevendo, ao longe, o dealbar da contestação (que, à época, pontifica nos movimentos independentistas da Índia Portuguesa).
Profile Image for Natacha Martins.
308 reviews34 followers
November 13, 2011
Tenho de confessar que este livro me custou imenso a ler. Sinto-me saturada e, parece que a minha cabeça entrou em greve, estando entrada/aquisição de novos conhecimentos sujeita a serviços mínimos. :) Ando com muito pouca paciência e sinto que a opinião com que fiquei deste livro reflecte exactamente isso. Achei o livro confuso, por vezes aborrecido e não houve uma única vez em que não adormecesse com ele nas mãos... Mas até gostei, não adorei, mas também não desgostei... :/ Não terá sido a melhor altura para o ler, isso é certo, mas enfim, foi nestas condições e é nestas condições que vai ficar.

Falando do livro que é para isso que aqui estamos.
Em a Balada da Praia dos Cães, é relatada a investigação de um homicídio. A vítima é o Major Luís Dantas Castro, fugido da cadeia onde se encontrava por ter participado num golpe de estado. Os suspeitos, três pessoas, todas cúmplices na sua fuga da prisão: Filomena, a amante, o arquitecto Fontenova Sarmento, companheiro de fuga e o cabo Barroca, facilitador da fuga. Elias Santana é o investigador encarregue de desvendar este crime. Elias Santana, também conhecido por Covas, é uma personagem peculiar mesmo sendo uma personagem em todos os sentidos normalíssima, não deixa de ser uma personagem que desperta curiosidade e empatia. Gostei dele, dele e da Filomena. Filomena era amante da vítima, uns bons anos mais nova que o Major, dona de uma grande beleza e de uma personalidade forte. Surge neste relato como a personagem que nos conta o que se passou, de uma forma muito desprendida e desiludida. Filomena, ou Mena, era a obsessão de Dantas e acaba, ao longo da investigação, por ser tornar, de certa forma numa obsessão para Elias, um solitário.
Inicialmente a personagem do Major Dantas surge como uma personagem por quem poderemos ter algum respeito, um revolucionário que morre prematuramente, um dos muitos homens e mulheres que lutaram pela liberdade do país. No decorrer da investigação, a nossa opinião acerca deste homem vai-se alterando e no fim o que sentimos é que, para além de detestável, o major era louco e, acabamos por perceber as razões que levaram à sua morte. Enfim, as melhores acções podem partir até de pessoas menos boas. ;)

A acção passa-se na década de 60, em pleno Estado Novo, estando o livro cheio de referências à repressão e à actuação menos clara das autoridades. Aqui a PIDE é uma força omnipresente, curiosamente ridicularizada na voz de Elias Santana e do seu chefe. No entanto a influência que a polícia política tinha nas investigações da época é notória, particularmente por a vítima e os suspeitos estarem ligados a grupos de resistência anti-salazarista. O livro acaba por dar uma perspectiva da época que não é muito comum, a da polícia dita "normal" e que é interessante.

O livro está escrito de uma forma original, pois inclui excertos dos interrogatórios e do que ficou escrito no processo de investigação e que se integram, de forma natural, na narrativa e na forma como o autor conta a história. Dilui-se assim, a linha que separa a ficção da realidade, tornando a investigação menos realista mas, ao mesmo tempo tornando a historia mais real. Gostei da forma que José Cardoso Pires encontrou de nos contar uma história que, não sei se é baseada ou não numa investigação real.

O lado menos bom da questão foi o ter achado a história um pouco confusa, o que, fruto ou não da minha menor capacidade de concentração, não deixou de me afastar um pouco da história e, manter o interesse foi por vezes complicado.

Concluindo, foi um livro que tive alguma dificuldade em ler mas que não deixei de achar bom e que me deixou com vontade de ler outros deste escritor português que nunca tinha lido. Por isso acho que é uma leitura que vale a pena e que recomendo. :)
Profile Image for Cat .classics.
280 reviews122 followers
September 22, 2018
Crescer tem destas coisas. Foi livro que pus de lado há muitos anos, por então ter uma maturidade literária mais para o verdusco. O autor inova demais, pensei na época. Out of my league.
Cresci e dei-lhe outra oportunidade. Adorei-lhe o desafio de o ler como se tivesse de o decifrar enquanto romance. É um relatório? É um relato? Aconteceu? Não aconteceu? É um daqueles livros que emprega a repimpada arte do fluxo de consciência?
Pus de parte a ideia de lhe compreender a trama (que é vício de quem leu tudo o que a Dama do Crime escreveu). Resolvi-me a seguir os passos do personagem principal, o chefe de Brigada Elias Santana (que foi sempre o Raul Solnado na minha imaginação), atribuir-lhe uns trejeitozitos de Poirot à alentejana e deleitar-me com as mudanças de humor do narrador (que é também a imaginação febril de Elias). Embora a autoria da investigação pertença à PJ, não podemos esquecer que o crime se dá em 1960, tem contornos políticos, a Pide paira, mas não chega a pôr o pé no cenário (ainda bem, ou não).
É um romance policial que interessa mais pela inovação no seu estilo narrativo (ou estilos), do que pela intriga em si. Sabemos desde o princípio quem morre, quem poderá ser o executor. O resto, o recheio é reconstituição, é viagem, é paisagem, é a boazona da Mena na cadeia, é o Solnado a fazer festas ao lagarto.
Em suma, é uma aula de escrita de romance. Tente quem quiser inovar, pode ser que o consiga como o mestre JCP.
Profile Image for André Marmelo.
27 reviews1 follower
August 5, 2024
Este belíssimo livro retrata um dos principais escândalos do Estado Novo, um verdadeiro "whodunit" à portuguesa. José Cardoso Pires consegue dar brilho a esta história não através da investigação em si, mas através da mente do investigador (o seu protagonista) e do detalhe com que circunda a sua narrativa, dando cor e vida ao apagado período salazarista. Vale muito a pena, especialmente para nos iniciarmos a um dos autores portugueses da história recente mais esquecidos e negligenciados.
Profile Image for Sílvia.
66 reviews
May 30, 2021
Quase que não acredito que tenho este livro há tantos anos e só agora lhe dei oportunidade. Uma espécie de film noir, em livro, com PIDE e revolução à mistura; a escrita linda e suja, quase que um Lobo Antunes de tasco (digo isto como elogio). Bom achado :)
Profile Image for João Vaz.
254 reviews27 followers
August 7, 2021
Um crime com contornos políticos, três suspeitos, e um agente astuto da judiciária, tendo como pano de fundo a decadência de Portugal no final do Salazarismo. Fantástico!
Profile Image for João Barradas.
275 reviews31 followers
May 26, 2017
Assassinato: haverá acto mais mórbido que suscite a curiosidade de uma sociedade de abutres, com faro para a putrefacção, hibridizada com a força constritora de qualquer jibóia?
Com uma cultura da morte difundida, assiste-se então a uma necrologia pública, onde todos estão com a sua fotografia a preto e branco sobre as páginas dos jornais por estarmos meio mortos. Mesmo aqueles que comandam este inquérito judicial, revelado numa linguagem brejeira levada ao extremo, onde as diferentes dimensões espaciais e temporais se imiscuem, sem aviso e de forma profana, comparando-se mesmo a confissão dada na sala de inquéritos à que é segredada no
confessionário da religião.
Oculto pelo registo criminal, esta parece não passar de uma história de amores e desamores entre os personagens revolucionários: um major que loucamente bajula uma revolta contra o regime e excomunga qualquer que não adira a essa causa; uma amante que suporta torturas inimagináveis, tentando manter a paz entre todos; uma arquitecto que, sabendo da loucura do outro, quase a partilha pela construção de mentiras; um cabo que sabe que a fuga nunca será possível, com a
consequente corrosão interna.
Mas ao desvelar este novelo emaranhado, revelam-se uma enorme quantidade de crimes decrepitantes que decorriam num Portugal censurado pela tentativa de lutar contra um regime totalitarista mas que mais não era que um rebuçado de prazer huxleuyano para comprar o
silêncio de cada um. Os ideais revolucionários são pois abnegados por interesses pessoais de um louco mandrião que imagina complôs em tudo o que mexe.
E, tudo se resume a um título oculto por um traço azul de censura: o ódio domina qualquer paixão; a areia é fracamente substituída pelo cotão da prisão; e os animais são os próprios homens e não os cães.
Profile Image for Vítor Leal.
121 reviews25 followers
February 6, 2021
O assassinato do ex-capitão de cavalaria, José Joaquim Almeida Santos, encontrado na praia do Guincho, em 31 de Março de 1960, foi noticiado pela miríade de jornais portugueses da época. Contornos políticos (oposição ao regime), ou outra motivação? O crime enquanto matéria criminal dá naturalmente origem a uma investigação e, por fim, a uma reconstituição, pondo termos de um policial: “Elias Chefe: Falas como um oráculo, mas a respeito de cães nunca te esqueças: a sombra do corpo passa, a sombra do mijo fica. À sombra do mijo é que nenhum ladrante até hoje conseguiu escapar. Fiz-me entender?” (pág. 41).
Investigação conduzida por Elias Santana, chefe de brigada da Polícia Judiciária.
De estrutura polifónica, abundam declarações, autos, notícias dos jornais, notas de rodapé, técnicas de inquérito e relatórios compostos a jargão.
Do exame pericial do cadáver de um desconhecido encontrado na Praia do Mastro em 3 de Abril de 1960, à reconstituição na Casa da Vereda, em Cascais, a fonte literária é o crime na sua dimensão universal. Do mesmo modo que as personagens são literárias, extraídas de elementos factuais, mas dominantes enquanto figuras sociais de uma época aqui marcada pelo medo e violência, não só nas hostes militares de oposição ao regime. No fundo estamos perante uma perspectiva alargada ficcional, um particular modo de observar o crime que vazou no Guincho, vinte anos após a ocorrência (o livro é publicado em 1982).
Profile Image for Paulo T. de Morais.
8 reviews1 follower
May 1, 2014
Sempre achei graça ao título deste livro. Sempre, desde a minha infância, desde que aprendi a ler e cheguei aos livros que já me rodeavam. Esteve anos na estante até que peguei nele, há umas longas semanas. Soube que tinha sido premiado a nível nacional. À medida que lia e que achava a escrita de baixo nível mais curioso ficava pois queria perceber por que é um livro premiado. E descobri a razão. A escrita desinteressante é compensada pela narrativa não linear, ou pouco linear, e pela "informalidade" da mesma, o que lhe confere uma originalidade irreverente que acaba por ser correcta para o teor da história. Assim, esta não é mais uma simples história de um homicídio. Alguma caracterização do período histórico particular, o Portugal ditatorial dos anos 60, e das personagens é fascinante pela crueza e sinceridade. Uma descoberta interessante, sem dúvida.
Profile Image for Sofia.
177 reviews29 followers
November 6, 2011
Esta história de um assassinato, com presumidos contornos políticos em pleno Estado Novo, fez-me pensar imediatamente em policiais noir. É interessante, mas há alguns saltos no tempo e na lógica que o estilo de narração não ajuda nada a compreender. Senti-me perdida várias vezes, mas não desgostei de ler.
Profile Image for Rita Marques.
34 reviews41 followers
June 16, 2020
Muito aborrecido. Leitura pouco fluída.
Interessante descrição e interpretação da realidade da época.
Profile Image for João Ricardo.
134 reviews5 followers
August 14, 2025

“Eu creio que o medo é uma forma dramática de solidão. Uma forma-limite
também, porque corresponde à ruptura do equilíbrio do indivíduo com aquilo
que lhe é exterior. Mas o pior é que essa ruptura acaba por criar uma lógica
de defesa, eu pelo menos apercebi-me disso, a lógica do medo vai estabelecer
certas relações alienadas de valores até um ponto em que se sente que o medo
se torna assassino."

"É então que vê passar as três jaulas rolantes vindas não se sabe de onde. De longe. Certamente da autoestrada do Norte, Avenida do Aeroporto abaixo, atravessando a cidade. São três transportes de circo, gradeados, mas sem esferas, que avançam de madrugada. Dentro deles viajam os tratadores com um ar estúpido, ensonado. Desfilam pelas ruas desertas, sentados no chão, pernas para fora, caras entre grades. Elias deixa de cantar. Durante o resto do caminho pensa nos tratadores enjaulados a atravessarem a noite sobre rodas: o que mais o impressiona é que pareciam vaguear sem destino.”
Profile Image for João Pedro Leite.
108 reviews
April 10, 2024
Já sabia que o José Cardoso Pires era um excelente escritor, mas o melhor deste livro é o seu formato. Não é um policial convencional. É quase um relatório do relatório da polícia e tem no contínuo depoimento de um dos envolvidos a sua parte mais interessante, assim como quando se dedica a explorar o dia a dia e a psique do agente da polícia judiciária responsável pela investigação.
O retrato social e político da ditadura salazarista no início dos anos 60 adiciona-lhe uma outra camada de complexidade e interesse que torna este livro uma excelente leitura.
Profile Image for fankyko.
89 reviews1 follower
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February 18, 2024
E eu que nunca soube que tínhamos um noir político português? e que estupendo romance: cheio de intriga, cheio de incerteza e cheio de verdade, uma verdade crua e dura e imunda acerca dos dias do Estado Novo e da sua influência em tudo; adorei o conteúdo, mas também é de se celebrar a forma, que escrito meio em forma de pensamento, meio em forma de passado, mostra um “detetive” verdadeiramente português e muito humano, muito sincero; foi uma excelente surpresa
Profile Image for Paulo Reis.
158 reviews14 followers
May 25, 2025
José Cardoso Pires vai escalando, palavra a palavra, frase a frase, livro a livro, tornando-se um dos meus autores preferidos da literatura portuguesa.

A forma como a intriga policial deste livro, passada na fase final da ditadura salazarista, se transforma em texto é simplesmente genial. Sentimos, em cada frase, a complexidade de viver naquele tempo - a tensão política, as escolhas difíceis, o esforço de levar o dia a dia debaixo do medo, da repressão, da falta de liberdade, da cobardia e da coragem (de alguns).

Não posso dizer que tenha sido uma leitura fácil. São visíveis os conflitos e as tensões no processo de escrita, “a leitura deixa de ser um exercício intelectual e passa a ser um processo físico”. O leitor deve preparar-se “para o confronto”. Mas como refere a mesma Maria Gabriela Llansol, é desta luta que resulta “a compreensão e a fruição do ato de ler”.

Boas leituras. E boas lutas.
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