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302 pages, Paperback
First published November 1, 1982
"Eu creio que o medo é uma forma dramática de solidão. Uma forma limite também, porque corresponde à ruptura do equilíbrio do indivíduo com aquilo que lhe é exterior. Mas o pior é que essa ruptura acaba por criar uma lógica de defesa, eu pelo menos apercebi-me disso, a lógica do medo vai estabelecendo certas relações alienadas de valores até um ponto em que se sente que o medo se torna assassino" – Arq. Fontenova, em conversa com o autor, Verão de 1980.Balada da Praia dos Cães , um romance ao estilo policial noir, relata-nos a investigação de um homicídio e, sendo ficção, baseia-se num acontecimento verídico. Como o autor refere na Nota Final, em 1961 chegou-lhe às mãos o relato de um homem condenado pela co-autoria de um homicídio. Após o 25 Abril de 1974 o autor acedeu aos relatórios dos dois processos-crime respectivos, da Polícia Judiciária e da PIDE. Com base nessa documentação JCP parte para a criação desta obra ficcional. A separação entre os domínios ficcional e real é-nos assim descrita pelo autor: […] entre o facto e a ficção há distanciamentos e aproximações a cada passo, e tudo se pretende num paralelismo autónomo e numa confluência conflituosa, numa verdade e numa dúvida que não são pura coincidência. (Nota final, p. 244)
(Apêndice, p. 242)
Lisboa, esse vulto constelado de luzes frias do outro lado do rio, é um animal sedentário que se estende a todo o país. É cinzento e finge paz. [...] Mesmo abatido pela chuva, atenção porque circulam dentro dele mil filamentos vorazes, teias de brigadas de trânsito, esquadras da polícia, tocas de legionários, postos da GNR, e em cada estação dessas, caserna ou guichet, retratos de políticos que andam a monte. O perímetro da capital está todo minado por estes terminais, Lisboa é uma cidade contornada por um sibilar de antenas e por uma auréola de fotografias de malditos com o Mestre da Pátria a presidir.Balada da Praia dos Cães foi adaptado ao cinema em 1987 por José Fonseca e Costa.
(p. 45)
Desliza ao arrepio da febre pelo nocturno mais triste da cidade, Intendente, Socorro, Rua dos Fanqueiros. [...] Durante a viagem, e depois quando Elias sai do táxi, não olha uma única vez para a cidade que percorre de fastio como se ela fosse uma galdéria mal amanhada.
(p. 140)