Crítica à publicidade individualista da nossa sociedade contemporânea, nessa distopia em quadrinhos, a protagonista se apresenta como uma leitora compulsiva, pessimista, tímida e pouco sociável, planeja junto a seu amigo a ida sem volta para o lugar mítico do grande vazio. Na cidade ilustrada por um labirinto claustrofóbico de luzes evocando a poluição visual de marcas e nomes, os seus dias de trabalho são sufocantes, chamada pra executar a tarefa de manter vivo o nome de clientes moribundos, ela se demite, porque ler o livro sobre o grande vazio era mais interessante do que a monotonia repetitiva do seu emprego. Tudo parecia discorrer tranquilamente pra ela fugir ao grande vazio, até quase morrer de infarto no caminho por ter a energia vital de seu nome sugada por uma cantora de mesmo nome e sobrenome cujo hit do momento era "meu nome em todas as bocas". O médico lhe orientou a fazer coisas pelas quais detestava, ir a festas, jantares e encontros de família. Enquanto os pais faziam vista grossa para que ela não perdesse estes hábitos, volta e meia, retornava ao hospital sob as mesmas orientações, e por mais que as cumprisse, a morte se tornava cada vez mais iminente. Pra piorar, o bibliotecário egoísta não quis emprestar algum livro que pudesse ajudá-la.
Por conta da epidemia desse universo ficcional, a morte por esquecimento, ela e seu melhor amigo jamais conseguiriam completar o destino até o grande vazio. Uma vez, numa rave, sua irmã lhe disse que no meio social as pessoas realmente não precisavam saber de reflexões profundas. Para evitar o suicídio, a protagonista achou que a solução talvez estaria em andar pelas ruas com uma plaquinha bem visível com o seu nome próprio pendurado no pescoço, nada adiantando, subitamente, ela se estressa, e do dia pra noite, torna-se uma estrela de cinema. Foi então, na publicidade de sua espontânea violência, que ela encontrou a salvação na viralização dela dando tapas em seus semelhantes que tinham o nome próprio estampado na testa. Por conseguinte, o filme "O Tapa Gentil" naturalizou esse tipo de violência, por apanharem em público, as vítimas também agradeciam por não serem esquecidas.
A partir desse ponto de virada da história, não querendo mais perder a juventude, na conta de uma entrevista televisiva para se tornar uma imortal, abandonou violentamente sua única amizade, por décadas a fio, apagou o desejo íntimo pelo grande vazio, e por fim, esqueceu de sua família. Com o pesar dos anos, sai à procura do passado, confunde a irmã idosa com a mãe, e sem desculpas, descobre ser pária da família por não ter comparecido ao velório materno. Nesse estado de choque, na sacada de um arranha-céu de uma grande festa de celebridades, ela conversa com um bebê imortal, que fumando um charuto lhe disse tristemente que não teve escolha para ser daquele jeito, que tudo lhe aconteceu cedo demais, e ela, ao explicar como pôde optar pela sorte, senão morreria, viu-se sem saída. Incompreendida, de repente, acelera seu veículo até cair na ribanceira do grande vazio, onde segundo a lenda urbana, as pessoas morrem por nunca mais voltarem, chegando lá, ela se depara com alguns seres humanos vivendo em uma espécie de aldeia, possivelmente sem mortes depressivas causadas pela falta de presença no mundo.
Diagnóstico caótico sobre o grande vazio pertinente a sociedade do espetáculo, no seu propósito filosófico, a obra nos faz repensar quais são as dificuldades do vir a ser em uma sociedade superficial voltada somente ao aparecer. Na obliteração existencial dos extremos dessa aldeia global, tecnológica e digital, em troca do algoritmo, o esfacelamento da semântica na inflação dos símbolos sem significado. Fronte a verticalização do fútil pelo absurdo sem limites, os traços da artista francesa mostram um cenário fechado por prédios, plataformas ausentes de paisagens, casas ou árvores, de hierarquia social distribuída ao poder distante de qualquer comunicação verbal discursiva, as pessoas seguem suas vidas onde a tecnocracia for, como vassalos da hipertrofia de conteúdo, onde a memória histórica já desapareceu, a epidemia mortífera ataca os esquecidos, razão pela qual, denuncia-se o etarismo vigente no carpe diem inconsequente de todas as personagens. A sobreposição excessiva de imagens, nessa arquitetura da egolatria, revela-se a criptografia dos riscos inerentes ao condicionamento subjetivo do atual capitalismo de plataforma. Se todo cume é proporcional ao abismo, na vertigem de uma humanidade em queda, em certa medida, o nome mítico do grande vazio protegia a aldeia comunitária das arbitrariedades urbanas. Os livros sobre o grande vazio talvez fossem convites cifrados aos citadinos, que nem imaginavam o que poderia estar horizonte ao lado. Pelo final aberto, há a possibilidade de os leitores continuarem essa ficção científica num ambiente desverticalizado de mudanças.
(Yuri Ulrych)