Clarice Lispector (1920/1977), nascida Chaya Pinkhasivna Lispector, foi uma escritora e jornalista brasileira nascida na Ucrânia. Romancista, cronista, contista e ensaísta é considerada um dos maiores nomes da literatura brasileira, autora de clássicos como “A paixão segundo G.H.”, “A hora da estrela” e “Laços de família”, sendo que muitos a consideram o maior nome da literatura judia desde Franz Kafka.
O advento do centenário do nascimento da escritora aumentou o entusiasmo em torno de sua obra e excelentes lançamentos como “Todos os contos” (2016) e “Todas as crônicas” (2018) foram muito oportunos e ótimos veículos para revelar todo o talento de Clarice para novos leitores.
“Todas as cartas” (2020) fechou a trilogia das grandes compilações com material de autoria de Clarice e à exemplo dos dois volumes com contos e crônicas, mereceu uma edição caprichada da editora Rocco com uma bela sobrecapa, capa dura e ótimos prefácio e posfácio.
Clarice viveu muitos anos fora do Brasil (Itália, Suíça e USA principalmente) pois seu marido de 1943 a 1959, o diplomata Maury Gurgel Valente, era adido diplomático nestes países. Sendo assim Clarice escreveu dezenas e dezenas de cartas para suas irmãs e seus amigos brasileiros já que, na época redes sociais ainda não existiam e ligações interurbanas custavam uma fortuna. Nestas dezenas e dezenas de cartas Clarice se mostra uma pessoa insegura, amarga e com uma visão muito desencantada da vida. Suas opiniões acerca de certos assuntos e, ou acerca de si mesma chegam a ser algo chocantes. Abaixo seguem dois trechos de cartas que Clarice escreveu em 1940, respectivamente, para sua irmã Tânia e para seu amigo escritor Lúcio Cardoso:
“Sei que eu mesma não presto. Mas eu te digo: eu nasci para não me submeter; e se houver essa palavra, para submeter os outros. Não sei por que nasceu em mim desde sempre a ideia profunda de que sem ser a única nada é possível. Talvez minha forma de amor seja nunca amar senão as pessoas de quem eu nada queira esperar e ser amada. Sei que isso é egoísmo e falta de humanidade. Mas se eu fosse me modificar não me transformaria numa mulher normal e comum, mas em alguma coisa apática e miserável como uma mendiga.”
“Todo mundo (em Lisboa onde ela estava com o marido Maury) é inteligente, é bonito, é educado, dá esmolas e lê livros; mas por que não vão para um inferno qualquer? Eu mesma irei de bom grado se souber que o lugar da “humanidade sofredora” é no céu. Meu Deus, eu afinal não sou missionária. E detesto novidades, notícias e informações. Quero que todos sejam felizes e me deixem em paz”.
Por outro lado, em várias e várias cartas, temos uma outra Clarice; doce, insegura, solitária, preocupada com saúde das irmãs a quem trata de forma afetuosa utilizando tratamentos e adjetivos que beiram o infantil e implorando por respostas a suas cartas.
São muito interessantes também suas correspondências com colegas escritores com quem discute suas obras, pede conselhos e discorre acerca do processo criativo.
Confesso que este volume não impactou-me como “Todos os contos” e “Todas as crônicas” e, em vários momentos desse espesso volume, me deparei com temas algo repetitivos nas cartas mas, a leitura é mais do que oportuna e mais do que recomendável para quem quer conhecer mais sobre essa grande escritora.