"Juntou as mãos, apertou-as fortemente uma contra a outra, e em passos arrastados deixou-se cair na cama, soluçando, sentindo, numa acabrunhante angústia, o peso esmagador da sua viuvez." 💭
Escrito em 1947, quando Saramago tinha 24 anos, este é um livro em que a voz do Saramago ainda não está presente. Este é o primeiro livro de Saramago, e a escrita ainda é uma escrita clássica, as personagens não são memoráveis, apesar de se notar que já há alguns questionamentos filosóficos e divagações que serão típicas dos livros posteriores do Mestre.
Anteriormente editado como "Terra do Pecado", esta é a história de Maria Leonor, viúva, proprietária de uma quinta, com muitos trabalhadores e com dois filhos para criar. Além destas personagens, temos ainda o médico e o padre, duas personagens muito importantes.
Depois da morte do marido, a viúva entra em depressão e não consegue tomar decisões em prol da família e da quinta. Há atitudes drásticas e dramáticas, que dão origem a rancores e mexericos.
Ainda que de forma muito leve (e sem o tom sarcástico que eu tanto adoro), Saramago já trata de temas que o definirão enquanto escritor: a vida e a morte, a religião, as convenções sociais. Maria Leonor está presa à ideia que a sociedade (e ela própria) tem dela, não pode ser livre, não é livre de fazer o que bem entender. Ser viúva, nos tempos da outra senhora, não era nada fácil, uma eterna luta contra os olhares da sociedade.
É estranho imaginar a época e o Saramago de 24 anos, já que a imagem que eu tenho do autor (que a maioria de nós tem, acho) é do Saramago com 60/70 anos. Este pode não ser o livro mais brilhante do Mestre, mas é uma preciosidade e o retrato de um Saramago jovem. E só por isso, já vale a pena ser lido (sobretudo para os fãs do autor).
Depois deste livro, Saramago ficou 20 anos sem publicar. Mas depois, quando volta a publicar, lança a maravilha que é "Levantado do Chão" (um dos meus livros preferidos do Mestre) e já é o Saramago que nós conhecemos e amamos ❤️