"Estava sozinha e fazia todos os possíveis para não pensar que essa solidão teria um fim, pois sabia que iria acompanha-lá durante um período de tempo que podia ser extremamente longo."
Henning Mankell conta histórias que ficam connosco, não só pelas suas personagens de personalidade forte, mas também pelos temas importantes que partilha connosco, deixando-nos espreitar o seu leque de valores. Esta é uma história sobre as pessoas que não tem vozes e Tea-Bag é a rapariga que lhe dá início.
"O que é que se pode dizer sobre o quotidiano que seja digno de consideração, excepto o facto de ser aborrecido?"
Jesper Humlin, um poeta relativamente conhecido, recebe uma ordem, disfarçada de sugestão, do seu editor. O editor, obeso e fumador assíduo, pede, da forma menos subtil e mais evidente, a entrega de um romance policial. Apesar da recusa e indignação do poeta, a editora publicita e anuncia o livro que está a escrever mas que nunca será escrito. Ao mesmo tempo, a namorada controladora, o inimigo concorrente com quem se encontra mensalmente, o seu corretor de bolsa milionário e a sua mãe que nunca se deita antes do sol nascer anunciam que estão a escrever o mesmo género de livro que ele devia estar a escrever: um romance policial!
"Antigamente era costume perguntar às pessoas como estavam. Hoje em dia, pergunta-se onde estão."
Ao ver-se rodeado de um pequeno grupo de imigrantes, Jesper Humlin assume a missão de dar voz àqueles que não a têm. O tema pode não ser novo, mas a forma como Henning Mankell o aborda é, definitivamente, única. O autor sueco junta situações divertidas e diálogos com humor a passagens profundas e reflexões intimas.
"Nesta vida há muito poucas coisas que estejam bem."
Para além da importância das histórias que contam a Jesper Humlin, que faz parte da história que estamos a ler, Mankell proporciona vários momentos da vida do protagonista: a relação atribulada com a mãe, os atriburos com a namorada que insiste em ter filhos, a incapacidade de comunicar com o seu corretor de bolsa, a personalidade peculiar do seu editor, que parece nunca o ouvir e a inimizade com um inimigo e concorrente literário, com quem se encontra há vários anos.
"Acho que a liberdade, se é que existe, implica sempre um risco, uma vida cheia de perigos, onde se é perseguido e é preciso fugir constantemente."
Henning Mankell destaca-se em qualquer género que se propõem a escrever. "Tea-Bag" é, simultaneamente, o romance mais triste e divertido que já li.
"Preciso de ouvir mais alguém para além de mim mesma. Tenho a cabeça cheia das minhas próprias palavras. Andam às voltas cá dentro, a voar como borboletas de quem ninguém gosta."