- É verdade que podias passar toda a vida comigo?
- Claro que sim.
- Estás assim tão certo? Não terias medo?
- Medo de quê?
- Imaginas o que os nossos dias seriam?
Também estas palavras voltariam, hoje tão despreocupadas, mas ameaçadoras dentro de alguns meses.
- Acabaríamos por nos habituar - murmurou ele sem reflectir.
- A quê?
- A nós.
Quando copiei este excerto para um update estava longe de imaginar que seria uma lembrança recorrente do protagonista, quase um mantra, um questionar intencional por parte da sua amante ao qual Tony responde de forma distraída e quase mecânica, pouco antes de ver pela janela o marido de Andrée a aproximar-se do hotel onde se localiza o quarto azul.
O quarto era azul, o azul da barrela, como um dia pensara: um azul que lhe recordava a infância, os pequenos sacos de estamenha cheios de pó azul que sua mãe diluía na água da selha antes da última enxaguadela da roupa, justamente antes de a estender sobre a erva luzidia do prado.
Depressa, porém, este quarto azul deixará de trazer boas recordações a Tony, cujas conversas lá mantidas terá de rever e repetir inúmeras vezes às forças de autoridade, ao juiz e ao psiquiatra que avaliam o seu caso. Simenon demonstra uma mestria ímpar ao fornecer-nos informações a conta-gotas, mantendo-nos sempre em suspense em relação ao crime de que realmente acusam Tony, até à revelação a meras 15 páginas do final. “O Quarto Azul”, escrito em 1964, é um autêntico “Atracção Fatal” no sentido de o homem adúltero se meter com uma tresloucada que vai mais longe do que meter o coelhinho da filha na panela, mas aborda outras questões que elevam a obra para lá de simples thrillers, prerrogativa dos grandes escritores. Por um lado, de passagem, vemos a xenofobia, visto que os pais de Tony eram imigrantes italianos; por outro, o paradigma ainda tão enraizado de que há mulheres para casar e as outras.
Não tinha nada contra a mulher. Escolhera-a tendo conhecimento de causa. Não desejara desposar uma amante desmiolada, mas justamente a mulher que ela era, e o retraimento de Gisèle não lhe desagradara, antes pelo contrário. Não se passa a vida na cama, num quarto vibrante de sol, a suportar o furor de dois corpos nus. Gisèle era a sua companheira, a mãe de Marianne, aquela que descia em primeiro lugar, de manhã, para acender o lume, que mantinha a casa limpa e alegre e que, quando ele voltava, não lhe fazia perguntas.
Nas últimas páginas, temos um homem acabado, sentenciado a um castigo físico superior ao seu crime moral, ainda de volta das palavras, porque as palavras têm peso e, uma vez proferidas, não podem ser apagadas.
- Gostarias de passar a vida inteira comigo?
- Claro que sim!
As palavras já não tinham sentido. Ora, era daquilo que eles se ocupavam com uma solenidade ridícula, de coisas que não existiam, de um homem que também não existia.