«Vai, Carlos! ser gauche na vida»: com este imperativo, atribuído a um «anjo torto/desses que vivem na sombra» na primeira estrofe do primeiro poema do primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade, insinua-se na sua obra a figura da improbabilidade da condição de poeta e do lugar para a poesia no mundo moderno. Os quatro primeiros livros que aqui retomamos - Alguma poesia, Brejo das Almas, Sentimento do mundo e José - declinam de vários modos este sentimento de inadequação ou inabilidade, indissociável da condição irónica do poeta, como Drummond parece assinalar num balanço feito nos mesmos anos em que reunia pela primeira vez, no volume Poesias (1942), a sua obra «meu progresso é lentíssimo, componho muito pouco, não me julgo substancialmente e permanentemente poeta». É a configuração dessa primeira reunião, que fechava o início da sua trajectória, que este livro um núcleo orgânico em que se comprava que o «primeiro Drummond» já era, desde sempre, o nome de um rumo determinante da poesia brasileira do século XX.
Carlos Drummond de Andrade foi um poeta, contista e cronista brasileiro. Formou-se em Farmácia, em 1925; no mesmo ano, fundava, com Emílio Moura e outros escritores mineiros, o periódico modernista "A Revista". Em 1934 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu o cargo de chefe de gabinete de Gustavo Capanema, Ministro da Educação e Saúde, que ocuparia até 1945. Durante esse período, colaborou, como jornalista literário, para vários periódicos, principalmente o Correio da Manhã. Nos anos de 1950, passaria a dedicar-se cada vez mais integralmente à produção literária, publicando poesia, contos, crônicas, literatura infantil e traduções. Entre suas principais obras poéticas estão os livros Alguma Poesia (1930), Sentimento do Mundo (1940), A Rosa do Povo (1945), Claro Enigma (1951), Poemas (1959), Lição de Coisas (1962), Boitempo (1968), Corpo (1984), além dos póstumos Poesia Errante (1988), Poesia e Prosa (1992) e Farewell (1996). Drummond produziu uma das obras mais significativas da poesia brasileira do século XX. Forte criador de imagens, sua obra tematiza a vida e os acontecimentos do mundo a partir dos problemas pessoais, em versos que ora focalizam o indivíduo, a terra natal, a família e os amigos, ora os embates sociais, o questionamento da existência, e a própria poesia.
Nunca tinha lido um livro de Carlos Drummond de Andrade, apenas poemas esparsos, por isso obrigada Clube Tinta da China. O volume inclui os livros «Alguma Poesia», «Brejo das Almas», «Sentimento do Mundo» e «José», que contêm as suas primeiras composições poéticas, publicadas entre 1930 e 1942. Os seus poemas reflectem sobre a própria poesia e ao acto de escrever, mas também a beleza do mundo e por vezes a ineptidão do sujeito poético. Alguns poemas lembraram-me Fernando Pessoa, afinal, o modernismo rondava por ali, mas naturalmente o seu diálogo é com os poetas brasileiros seus contemporâneos.
Poesia, p. 44 Gastei uma hora pensando um verso que a pena não quer escrever. No entanto ele está cá dentro inquieto, vivo. Ele está cá dentro e não quer sair. Mas a poesia deste momento inunda minha vida inteira.
Sempre que leio poesia sinto que o faço de forma vertiginosa. Não consigo parar. Vejo-me tão envolvida que me parece quase negligente não ler o livro até ao fim. Com este, a sensação não foi diferente. A escrita parece tão fácil, parece que está ao alcance de qualquer um, mas só Drummond escrevia assim.
"(…) Outrora viajei países imaginários, fáceis de habitar, ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio. Meus amigos foram às ilhas. Ilhas perdem o homem. Entretanto alguns se salvaram e trouxeram a notícia de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias, entre o fogo e o amor.
Então, meu coração também pode crescer. Entre o amor e o fogo, entre a vida e o fogo, meu coração cresce dez metros e explode. - Ó vida futura! nós te criaremos."
A wonderful collection of the early poems of one of Brazil's greatest modernists, this is both a deep read but also a deeply entertaining read. Andrade is a consummate observer of the world around him and also a very humorous one, his poems are full of humor, eroticism, sarcasm and also political commentary.
It's hard to translate the feeling of the poetry and it is definitely best read in Portuguese, I imagine that much of the sense and tone would be hard to translate into English, but some poems such as "Elegia, 1938" one of the most overtly political poems in the book, would make sense in any language as a deeply observed and disquieting observation of the modern life of the common man in a capitalist environment, as true in 1938 as in 2022, sadly.
Definitely worth finding whether you read it in Portuguese or some other volume in English translation. some real gems here.
“Carlos, sossegue, o amor é isso que você está vendo: hoje beija, amanhã não beija, depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será.
Inútil você resistir ou mesmo suicidar-se. Não se mate, oh não se mate, reserve-se todo para as bodas que ninguém sabe quando virão, se é que virão.
O amor, Carlos, você telúrico, a noite passou em você, e os recalques se sublimando, lá dentro um barulho inefável, rezas, vitrolas, santos que se persignam, anúncios do melhor sabão, barulho que ninguém sabe de quê, pra quê.
Entretanto você caminha melancólico e vertical. Você é a palmeira, você é o grito que ninguém ouviu no teatro e as luzes todas se apagam. O amor no escuro, não, no claro, é sempre triste, meu filho, Carlos, mas não diga nada a ninguém, ninguém sabe nem saberá.”