Ler Independente Mente é um pequeno prazer arqueológico. Para mim, nascido em 2000, é delicioso entrar nos assuntos corriqueiros do final dos anos 80 e início dos 90, o quotidiano, os hábitos, as obsessões mínimas, e perceber como tudo isso era já matéria política, cultural e moral.
Há também a surpresa (quase espanto) de descobrir que existiu em Portugal um jornal verdadeiramente disruptivo, irreverente, intelectualmente vivo, onde se escrevia sem pedir licença. Miguel Esteves Cardoso observa o banal com uma inteligência que não envelhece, porque o faz a partir do humano e não da moda.
O mais inquietante é reconhecer, em 2025, tantas questões que permanecem intactas: o ridículo social, a repetição dos vícios, a ilusão de modernidade, a dificuldade em pensar com autonomia. Mudam os cenários, mantém-se os gestos.
Um livro que prova que o tempo passa, mas certas lucidezes continuam perigosamente actuais.