As crónicas de O Independente nunca publicadas em livro. Com prefácio de Paulo Portas e posfácio de MEC.Como sobreviveram as ideias veiculadas por MEC, há mais de 30 anos, nas suas muito aguardadas crónicas no semanário O Independente? O autor está hoje perto dos 70 anos, mas, naquela altura, antecipava que, à conta de perdas de tempo, chegaria aos 60 vivendo apenas 30. E, embora já fizesse previsões e promessas, também já dizia que o que lhe valia eram os restaurantes e o amor.O que terá dito MEC, em 1989, sobre a fatwa decretada pelo Ayatollah Khomeini contra Salman Rushdie? E como terá sido a carta que dedicou a Álvaro Cunhal, dois anos depois, que começa com «Meu caro camarada» e termina com «um abraço, do seu admirador e amigo Miguel»? Sabia que, nesse mesmo ano de 1991, «o ano da depressão», Miguel Esteves Cardoso sonhou com a prisão de Paco Bandeira, 21 anos antes de este ter sido condenado por violência doméstica? E o que sabe de geografia? Sabia que Belize é a terra de Álvaro Size? Ou Burundi, a terra imundi? Ou ainda que a Suíça é o país da feijoca e da chouriça? E o que sabe da porno-toponímia internacional? Fique a saber tudo isso, bem como as 101 promessas de MEC para o ano de 1992, neste Independente Demente.
Miguel Esteves Cardoso is a Portuguese writer, translator, critic and journalist. He's a well known monarchist and conservative.
Miguel was born in a middle class family in Lisbon. His father, Joaquim Carlos Esteves Cardoso, was Portuguese and his mother, Hazel Diana Smith, was English. He had a good education and the advantage of a bilingual and bicultural upbringing, helping him to develop an outsider's detachment from the culture of his birth country. In 1979, he graduated from Manchester University in political studies and four years later, in 1983, he received his doctorate in Political Philosophy. While there he made contact with some of the New Wave bands of the Factory records like Joy Division or New Order.
In 1981 Cardoso became the father of twin girls. One year later he returned to Portugal, where he worked as an assisting investigator of the Social Studies Institute on the Lisbon University. He later became a supporting teacher of political sociology in ISCTE and then returned to Manchester University for a postdoctorate in Political Philosophy oriented by Derek Parfit and Joseph Raz.
Ler Independente Mente é um pequeno prazer arqueológico. Para mim, nascido em 2000, é delicioso entrar nos assuntos corriqueiros do final dos anos 80 e início dos 90, o quotidiano, os hábitos, as obsessões mínimas, e perceber como tudo isso era já matéria política, cultural e moral.
Há também a surpresa (quase espanto) de descobrir que existiu em Portugal um jornal verdadeiramente disruptivo, irreverente, intelectualmente vivo, onde se escrevia sem pedir licença. Miguel Esteves Cardoso observa o banal com uma inteligência que não envelhece, porque o faz a partir do humano e não da moda.
O mais inquietante é reconhecer, em 2025, tantas questões que permanecem intactas: o ridículo social, a repetição dos vícios, a ilusão de modernidade, a dificuldade em pensar com autonomia. Mudam os cenários, mantém-se os gestos.
Um livro que prova que o tempo passa, mas certas lucidezes continuam perigosamente actuais.
Crónicas ao estilo clássico de Miguel Esteves Cardoso, numa altura em que assume e cria um semanário - O Independente. Retrata como ninguém a portugalidade, apontando as nossas virtudes e defeitos ao mesmo tempo que retrata uma época em que houve muitas mudanças e instabilidade geopolítica. Ousado, pertinente e audaz, consegue juntar ainda o seu humor afiado e irritado, abordando toda e qualquer coisa. Um dos melhores episódios e que me fez rir mais foi uma tentativa de língua gestual no trânsito. Com várias referências de protagonistas dos anos 80/90, fez-me pesquisar o caso Rushdie e ter uma melhor noção de que os problemas do ser humano terão sempre origem no ser humano e serão iguais aos de há 30 anos e iguais daqui a outros 30.
Uma crónica de MEC por dia não sabe o bem que lhe fazia, mesmo quando não concordamos com as visões, mesmo quando não nos identificamos com o objeto de análise, porque a forma como os descreve é sempre singular e permite-nos entrar num debate - silencioso, bem sei, atendendo a que não estabelecemos um diálogo. Ainda assim, cada um dos seus texto leva-nos numa viagem intemporal, mordaz e com alguma comoção, porque, nestas páginas, há espaço para tudo e mais um par de botas. Retratando a nossa portugalidade e o que o ser humano tem de melhor e de pior, compreendemos que há assuntos que permanecem tão atuais como há mais de 30 anos.
Para quem já leu as As Minhas Aventuras na República Portuguesa ou qualquer outro dos livros de crónicas de Miguel Esteves Cardoso, este livro vai ser uma paixão à primeira vista. Revisita crónicas não publicadas nos outros livros da célebre altura do Indy e da K. Muito bom!